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Resenha: Misplaced Childhood (1985)

Álbum de Marillion

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Misplaced Childhood: A obra-prima progressiva oitentista.

Autor: Márcio Chagas

03/03/2018

"Huddled in the safety of a pseudo silk kimono wearing bracelets of smoke…" Com essas palavras cantadas emocionalmente pelo vocalista Fish o grupo inglês  Marillion iniciava a história de um dos mais belos discos de toda a história do rock progressivo.

O grupo tinha despontado no ano de 1983 com seu debut "Script for a Jester´s Tear" e já havia tomando para si a responsabilidade de ser o principal nome da renovação do novo prog rock inglês. Mas a banda não tinha ideia de que em seu terceiro disco de estúdio, o grupo alcançaria um elevado nível técnico e composicional jamais superado.

O grupo, fortemente influenciado pelo Genesis da fase com Peter Gabriel, resolveu que seria hora de lançar um trabalho conceitual. Para quem não sabe, um disco conceitual reúne todas as canções em torno de um único tema. Na verdade é uma história contada através da música. E o tema escolhido pelo grupo foi o amor na infância/adolescência. Nada mais fascinante, mas dependendo de como o assunto é abordado, pode se tornar extremamente piegas ou genial. Felizmente no caso do grupo a segunda opção prevaleceu.

Isso só aconteceu porque o grupo estava no auge de sua criatividade e técnica com todos os membros se superando a cada dia. O vocalista grandalhão Derek "Fish" Dick, estava cantando como nunca, e não estou falando somente de potência na voz, mas de todo a carga passional que o vocalista usou para interpretar os temas, se entregando de corpo e alma como se a história contada no decorrer do disco fosse sua própria infância. O tecladista Mark Kelly aliava novas e antigas tecnologias no uso de seu instrumento. Toda atmosfera do álbum é consequência de sua excelente performance. O guitarrista Steve Rothery, um discípulo direto de David Gimour (Pink Floyd), conseguia elaborar belos dedilhados e solos emocionais que se encaixavam no contexto do tema e na interpretação de Fish. Lá atrás, havia a base do grupo, o baixista Pete Trewavas e o baterista Ian Mosley. Pete é um dos melhores baixistas de todo universo musical. Embora não seja extremamente técnico, o músico consegue compor linhas de baixo extremamente belas, que oferece um perfeito acabamento em todas as canções. Mosley não é um baterista técnico e nem faz questão de ser. Seu principal objetivo sempre foi tocar corretamente e dar suporte as canções o que brilhantemente fez por todo o álbum. Um time desses não teria como fazer algo ruim certo? Errado! Já vi milhares de bandas com músicos competentes estragarem tudo por colocarem a técnica e o egocentrismo acima da música. Este álbum só deu certo porque os músicos colocaram seus respectivos instrumentos a serviços das grandes canções compostas e não ao contrário

Além da já citada abertura com a sombria "Pseudo Silk Mono", o disco já emenda com "Kayleigh", a canção retrata bem o amor nos temos da escola, citando escapadas para namoros no parque e danças sobre a neve inglesa. Mesmo sendo um disco conceitual, completamente interligado, essa faixa foi lançada como single e até os dias de hoje pode ser considerado o maior sucesso do grupo. O álbum segue com "Lavender", a mais bela e emocionante declaração de amor em forma de música é perfeita para encerrar a história de um amor juvenil. Bitter Suite é sombria, com seus teclados etéreos e tambores rufantes que modifica o clima romântico do álbum para uma atmosfera mais obscura. A "Suite Amarga" seria uma espécie de limbo que o personagem passa com o fim do romance. Difícil descrever em palavras a urgência e a carga emocional contidas na faixa seguinte,  "Heart OF Lothian", que trata do renascimento do personagem. Em um primeiro momento, achei que Lothian fosse uma mulher, mas uma pesquisa mais cuidadosa, me fez descobrir que Lothian seria uma região da  Escócia de onde o vocalista Fish  gostava muito (Fish é Escocês), e onde o personagem em teoria nasceu.

A enérgica "Waterhole" dá seguimento a segunda parte do trabalho, com o Fish citando: "Carros fúnebres cortejam a morte da virgindade". Uma canção perturbadora que serve de prelúdio para "Lords of Backstage", em que, no momento de superação, Fish na pele do personagem canta "Finjo que você nunca significou tanto assim pra mim". O titulo desta canção (Senhor dos bastidores) seria uma metáfora sobre a dificuldade de comunicação que afasta pessoas e relacionamentos. "Blind Curve" é a faixa mais antológica e passional de todo disco. Como se estivesse chorando, Fish anuncia querer fugir de tudo que passou e pede: "Apenas me deixe em paz com meus pensamentos". A canção possui mais de nove minutos e é dividida em 5 partes. Na parte 4 o personagem parece pedir de volta sua infância, como se pudesse consertar todos os seus dissabores. Na 5ª parte ele expurga todo seu pesadelo infantil, todos os seus traumas que parece ter sofrido em uma Europa devastada pela guerra, "Eu vi uma viúva de guerra em uma lavanderia automática lavando as memórias das roupas de seu marido. 

Ela tinha medalhas pregadas em um velho sobretudo.." "Childhood End" fala do reencontro do personagem com a infância que ele achava haver perdido, mas que se encontrava no fundo de sua própria essência: "Então eu vejo que sou eu, eu posso fazer qualquer coisa, e ainda criança...". encerrando o petardo temos "White Feather", onde o personagem, em paz consigo mesmo, busca a paz, sem fronteiras, sem nações, simplesmente a paz de espírito.

O disco foi lançado no mercado com uma capa dupla, e mais uma vez coube ao genial Mark Wilkinson realizar um trabalho gráfico primoroso, que retrata tudo q se passa nas canções em apenas uma imagem.

Misplaced Childhood foi lançado no dia 17 de junho de 1985, portanto há quase 33 anos. O grupo nunca conseguiu lançar outro trabalho sequer similar a esta obra- prima, que mesmo após tantos anos continua linda, emocionante e atual. Um verdadeiro tratado musical de amor no sentido mais puro da palavra.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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