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Resenha: When You See Yourself (2021)

Álbum de Kings of Leon

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Consistência e maturidade numa adorável jornada de volta ao passado da banda

Por: Expedito Santana

11/03/2021

Após uma lacuna de cerca de quatro anos os rapazes de Nashville (já não tão rapazes assim) estão de volta com seu oitavo álbum de estúdio, “When You See Yourself”, lançado no dia 5 de março do corrente. Se por um lado o novo trabalho do Kings of Leon alegrou os fãs que estavam sem degustar novidades desde WALLS (2016), por outro, entretanto, não se vê neste álbum, necessariamente, nada que seja assim tão diferente do que os caras vinham fazendo ao longo dos últimos anos. 

Mas, calma aí! pois a advertência acima não tem o condão de ser um banho de água fria, até porque está muito longe de ser ruim o fato de uma banda tentar repetir seus ótimos momentos do passado. E é a partir dessa ideia de “retorno aos bons tempos” que quero dar continuidade a esta análise. Todo mundo que acompanhe minimamente o grupo sabe que foi por meio do impetuoso “Only By The Night” (2008) que eles alcançaram o ápice comercial, incluindo recordes de vendas, além de, finalmente, conseguirem o reconhecimento na própria terra natal (EUA), tendo os hits “Sex On Fire”, “Use Somebody”, "Crawl" e "Closer" papel fundamental na aclamação que o Kings of Leon obteve, merecidamente, naquela ocasião.  

Há quem considere, no entanto, que a música do Kings se acomodou demais nos caminhos trilhados no passado, batendo em teclas já um pouco gastas. Concordo apenas em parte com este tipo de observação, uma vez que, não obstante ter que admitir a existência de flagrantes “revivals”, há aqui também uma banda madura fazendo um som essencialmente instintivo e, sobretudo, cativante. A produção do extraclasse Markus Dravs (Brian Eno, Coldplay, Björk e Arcade Fire) com quem o Kings havia trabalhado em “WALLS”, respeita as origens do grupo, mas consegue extrair ritmos mais arrojados bem como acrescentar maior dose de sofisticação à sonoridade.

Em “When You See Yourself” o quarteto formado pelos irmãos Followill do Tennessee: Caleb (guitarra e vocal); Jared Followill (baixo) e Nathan Followill (bateria); e pelo primo Matthew (guitarra), arquiteta uma música que equilibra os próprios interesses (velhos e novos) numa balança dinâmica na qual o rock alternativo de “Because of The Times” (2007), “Only By The Night” e “Mechanical Bull” (2013) aparece revisitado e habilmente atualizado. De acordo com a Official Charts Company, até a data em que escrevo esta análise, o disco vem alcançando um número impressionante de vendas físicas e de downloads em seus primeiros dias de lançamento. Com chances reais, se mantiver o patamar atual, de conquistar o topo das paradas do Reino Unido.  

Desde a abertura com “When You See Yourself, Are You Far Away” exibindo suas guitarras aventureiras e atraente linha de baixo, já é possível notar um ar requintado misturado ao passado, complementado luxuosamente por um teclado etéreo e o timbre galante de Caleb. Logo em seguida o delicioso single “The Bandit” traz um pouco mais de balanço e de espírito juvenil, o qual os agora maduros pais de família do Tennessee parecem, felizmente, não ter perdido totalmente. 

Enquanto “100,000 People” converge para uma expressão serena e melódica sob a batuta marcante do baixo, trabalho variado de bateria e os vocais ligeiramente lacrimosos de Caleb, “Stormy Weather” aumenta um pouco a temperatura calcada em mais uma linha de baixo irrepreensível de Jared, nesse “pop-funk” afável e dançante ao mesmo tempo. 

Apoiada inicialmente em belas notas de teclado e na inserção de licks psicodélicos de guitarra, “A Wave” altera o clima macambuzias do começo por meio de riffs intensos que levam a música paulatinamente para uma estação menos “tristinha”, embora seja um júbilo um tanto contido e Caleb cante em tom lamentoso: “Oh a onda quebrando em mim/ Até eu estar inteiro de novo / Como nos velhos dias / Eu me vejo e me levanto/... /E a hora em que a noite parece melhor / É quando você não vai”. 

Encharcada de lirismo nostálgico, “Golden Restless Age” tem guitarras ásperas e um ritmo sedutor. Destaque, mais uma vez, para o baixo pulsante de Jared e o acabamento perfeito dado pela voz de Caleb, que entoa doses de saudade da juventude: “Há um silêncio em seu grito/ Eles caem, você sobe/ Chegou a sua hora/ A era dourada e inquieta / E o tempo não vira a página/ Você está apenas passando por uma forma de você/ Eu olho em seus olhos e há uma raiva/ E o tempo não vira a página.

“Time in Disguise” está imersa em letras questionadoras e que se propõem a sopesar acerca de contextos não muito agradáveis. Uma canção mid-tempo com passagens lentas, cadenciadas pelo excelente baixo de Jared e bateria comportada de Nathan, na qual o timbre elegante de Caleb alterna entre interrogações e afirmações: “O mundo ao qual pertenço é apenas uma sombra de luz? / É só tempo disfarçado / Chegada tardia congregada apenas de passagem / Jardim da pradaria frio e duro / Esperando lá por você / Então chegue um pouco mais perto, chegue um pouco mais perto / Mais perto agora da borda”. 
 
A balada acústica “Supermarket” caminha em meio a um trabalho percussivo que às vezes mostra não combinar muito com o ambiente estelar da peça, como se acelerasse além da conta, mas não chega a estragar as coisas. O solo viajante de guitarra é um atrativo e tanto aqui. Esta canção foi produto da reciclagem de demos que remontam ao ano de 2008.

Em “Claire & Eddie” o violão quase acústico e o vocal de Caleb remetem a algumas cançonetas solo de Eddie Vedder do Pearl Jam, mas talvez seja apenas uma impressão. Há nesse southern rock, que busca inspiração em “Come Around Sundown” (2010), sutis denúncias das mudanças climáticas: “Ooh, o fogo vai aumentar se as pessoas não mudarem”, e também discretas confissões afetivas: “Em algum lugar podemos desaparecer / Isso é amor, embora você nunca tenha visto isso”. Quando o disco se encaminha para o final, ainda há espaço para instantes bombásticos e enérgicos como os vistos na empolgante “Echoing”, que replica as camadas vibrantes presentes nos primeiros trabalhos dos caras. 

E fica justamente para o encerramento uma das melhores do disco, “Fairytale”, a conhecida faceta romântica do Kings of Leon construída desta vez sob um manto mais delicado ainda, partindo de batidas acústicas abafadas de violão e baixo de marcação lenta, sem esquecer a esplêndida adição de violinos e a voz tocante do frontman Caleb sussurrando versos amorosos: “Você poderia estar aqui quando estiver em casa / Você nunca diz adeus / Ou me olhe nos olhos / Eu vou te amar até o dia acabar...” Apesar do clima ligeiramente doloroso, o sentimento está mais para um ser em estado de felicidade plena. Não há mais o que pedir, já que eles entregaram tudo o que havia para entregar. 

O título do disco é bastante representativo e ajuda a compreendê-lo melhor, ou seja, o Kings parece ter olhado para dentro de si mesmo e buscado inspiração em sua própria história e recônditos. Embora não seja uma jornada afeita a experimentações e tampouco a surpresas, “When You See Yourself” exala a consistência e maturidade de uma banda que aprendeu a se mover com cuidado, mas sem prescindir da vitalidade e energia. Um ótimo disco!!

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