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Resenha: The Lexicon Of Love II (2016)

Álbum de ABC

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Clamando para ser comparado

Por: Roberto Rillo Bíscaro

21/02/2021

Em 2016, clamando por ser comparado e inferiorizado, Martin Fry usou o nome ABC para lançar The Lexicon Of Love II. Da banda original, só restou o vocalista de  então 58 anos, que já não usa paletós de lamê, mas continuava impecável e loiro. Como não comparar os 2 álbuns se levam o mesmo título? Ser inferior é inerente, porque esta sequela sobre amor na meia-idade não poderia ter o mesmo papel de definidor de tendência, como seu par de 1982. Nada disso é defeito. TLOLII não faz feio; pelo contrário, são 11 faixas, que no seu pior são agradáveis.

Dada a importância de TLOL, a imprensa britânica não pôde negligenciar sua parte II. Desde o sisudo The Times ao tabloide Daily Mail, todo mundo falou de Fry, que não tem mais alcance para falsetear yippee-yi-yippee-yi-yays, mas segue com voz bem pouco degradada. Horn não pode produzir por conflito de agendas, então o vocalista mesmo assumiu a função. Da equipe original, voltou Anne Dudley, responsável pelos fartos e luxuosos arranjos de cordas, que introduzem até canções dançáveis. Nos 80’s, a moça por trás do Art Of Noise era crista da modernidade; agora difícil não notar que seus arranjos dão ar datado a certos trechos. Tem hora que parece a trilha-sonora de Buster, de 1988. Nas canções lentas funciona, mas introduzir a locomotiva dançável Viva Love com tantas cordas melosas é desperdício e meio cafona.

As 2 canções iniciais, The Flames Of Desire e Viva Love, criam a expectativa de álbum dançante, informado por disco music, mas como se estivéssemos em 1983. Dão vontade de sair rodopiando à Flashdance, sorrindo para câmeras imaginárias. Mas, talvez considerando a idade do cantor e de boa parcela do seu público, a ênfase de TLOLII é R’n’B lento ou mid-tempo. Singer Not The Song é synthpop dançável com vozona à Bowie, mas os teclados estão mais eletro. Mas a grandiosidade das cordas de Dudley dá o ar vintage necessário. I Believe In Love começa bluesy antes de agitar-se. 

Brighter Than The Sun e Kiss Me Goodbye têm batida mais começo dos anos 90, provavelmente a coisa mais moderna de TLOLII; a última poderia estar num dos álbuns iniciais de Lisa Stansfield. Em termos de canção lenta, o ponto alto é Ten Below Zero, baladaça soul, coisa de quem passou a tenra adolescência 70’s escutando Marvin Gaye e Diana Ross e Northern Soul. Paul Weller mataria para ter a canção no álbum do Style Council, de 1983.

Claro que TLOLII é saudosista e abaixo do nível de seu predecessor. Mas, vale escutá-lo e pensar no que poderia ter sido o ABC se tivesse continuado com seu sophistipop no seu pique criativo/comercial, ao invés de ter se autossabotado com a crueza de Beauty Stab (1983).

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