Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Fish Rising (1975)

Álbum de Steve Hillage

Acessos: 59


O primeiro e mais bem sucedido disco solo de um herói anônimo da guitarra

Por: Tiago Meneses

20/02/2021

Um verdadeiro herói anônimo da guitarra, talvez esta seja a melhor expressão para definir Steve Hillage dentro da cena progressiva 70’s de Canterbury, pois ainda acho o seu reconhecimento muito pouco dentro de tanta contribuição musical em várias bandas que se tornariam conhecidas ao longo das décadas como entidades musicais altamente influentes. 

Hillage já havia vagado por muitos ótimos discos – incluindo a trilogia espacial Gong – quando gravou o seu primeiro álbum solo, Fish Rising. Como ainda fazia parte do Gong, foi natural que fossem recrutados vários membros desta banda. O baixista Mike Howlett, o baterista Pierre Moerlen, o tecladista Time Blake e o saxofonista Didier Malherbe foram os responsáveis por incorporar uma sonoridade com mais influência no Gong. O álbum também apresentou outros nomes fortíssimos dentro do universo do rock progressivo, incluindo Dave Stewart no órgão e piano e Lindsay Cooper (Henry Cow) no fagote. Também se juntou à sua equipe a sua namorada Miquette Giraudy em vários instrumentos de percussão. Vale ressaltar que não apenas suas habilidades como guitarrista e compositor ficaram evidentes aqui, mas também – surpreendentemente – a de vocalista. 

“Solar Musick Suite” com os seus quase dezessete minutos é a faixa que abre o disco através dos seus quatro capítulos distintos. Esta música na verdade se trata de resquícios da sua época de Khan, e que nunca havia encontrado um lar adequado. Embora tenha sido tocada ao vivo com o Khan e também com o Gong, a faixa aqui foi revestida com o seu melhor traje progressivo para se exibir como uma verdadeira obra-prima do rock progressivo da cena Canterbury. Um verdadeiro desfile de uma música perfeita cheia de mudanças de humor, ritmos e estilos em suas texturas que vão desde passagens instrumentais mais livres e despreocupadas até momentos de fluxo mais escaldante. “Fish” é uma pequena faixa com menos de um minuto onde meio que pode ser percebido traços do humor cosmológico do Gong. 

“Meditation Of The Snake” traz um começo bastante espacial do tipo que parece nos preparar para algo grandioso acontecer, porém, a música não passa disso, sendo incrementada apenas por algumas guitarras ao fundo com boa influência no blues. Claro que não é ruim, mas às vezes é meio decepcionante esperar por algo e esse algo nunca chegar. 

“The Salmon Song” já começa em um ritmo bombástico que mostra do porque desta faixa ser considerada a mais técnica e genuinamente progressiva do álbum, mas sem deixar de também deslumbrar o ouvinte com a sonoridade mais leve e que caracteriza muitos momentos da cena de Canterbury. Por vezes é possível perceber algumas pulsações oscilantes e trêmulas da magia eletrônica que Hillage iria empreender futuramente com mais vigor na sua música. 

“Aftaglid” faz com que o álbum retorne para o seu lado, digamos, mais sério. A faixa vagueia perfeitamente por sete diferentes seguimentos. Apesar de no começo ela contar com um riff de guitarra hipnótico e ecoante facilmente digerido, a faixa logo dispara para a estratosfera de complexidades progressivas e oferece alguns dos exercícios musicais mais ambiciosos de todo o álbum. Os sentidos do ouvinte são bombardeados com uma série de sobrecarga de grande variação de ritmo e de um escapismo psicodélico alucinante. Também é possível notar que a faixa oferece alguns dos trabalhos de guitarra mais exigentes do álbum. 

Através de Fish Rising é possível notar que Hillage esteve no seu pico criativo ao menos no que diz respeito sua carreira solo, sendo que nunca mais o músico conseguiria repetir algo de natureza tão magnânima. Fish Rising é um daqueles discos que exigem muita experiência de escuta atenta antes que a magia realmente se instale. Altamente recomendado.

As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor


Compartilhar

Comentar via Facebook

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.
Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito e aberto para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.