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Resenha: The Lexicon Of Love (1982)

Álbum de ABC

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O léxico do pop oitentista

Por: Roberto Rillo Bíscaro

19/02/2021

Em 1982, um grupo da interiorana Sheffield tomou as paradas britânicas de assalto com o álbum The Lexicon Of Love, que faz jus ao título pretensioso por se constituir numa das sínteses mais perfeitas de liquefação pop de influências tão díspares como synthpop, Northern Soul, R’n’B, orquestração à Burt Bacharach, Chic, Bowie, New Romantic, funk e mais.

Aliado a isso, forte sentido de moda, que hoje parece brega, mas na época era podre de chique com paletós de lamê dourado. Ostentação era na era Thatcher/Reagan, my dear! O álbum é um léxico musical da primeira metade dos 80’s e continua mortífero, ainda que se possa criticar a produção pesada, mas isso era característica do período que o ABC ajudou a definir. Em sua defesa, The Lexicon of Love (TLOL) nem é tão entulhado como sucessores tipo Arcadia.

Com tema unificado e trechos repetidos, TLOL não é conceitual, mas apresenta unidade mais associada ao prog rock do que ao pop. E quem disse que synthpop não é filho de suruba punk com Kraftwerk e pitadas de tecladice prog? O produtor de TLOL foi Trevor Horn, mago tecnopop, mas que sempre namorou o sáurio progressivo Yes. E não é que reouvindo TLOL pela zilionésima vez, em 2021, o começo de Date Stamp lembra a caixa registradora do Pink Floyd, de 1974, mas também prenuncia o Frankie Goes To Hollywood, de 84? 
 
De 11 canções, 7 são implacavelmente dançantes no espectro da música negra. Claro que há as clássicas Poison Arrow e The Look Of Love, Part One (quer coisa mais prog do que esse “parte um”?), mas não há como ficar inerte ao som do funk desloca-coluna de Tears Are Not Enough, ao baixo belisca-ouvido de Many Happy Returns (I know democracy, but I know what’s fascist!) ou ao synthsoul de Show Me.

Em época de concorrência dura de vocalistas-filhos de Bryan Ferry, como Tony Hadley, do Spandau Ballet, o ABC tinha o blue-eyed soulman Martin Fry, cantando sobre as agruras do amor e jogando nos ouvidos e olhos de quem quisesse ouvir/ver seu débito para com o Roxy Music dos últimos dias. Zeitgeist nervoso: All Of My Heart é totalmente More Than This, single de Avalon, canto do cisne do Roxy, lançado em abril de 1982. TLOL saiu em junho.

O finalzinho de TLOL destoa um bocado do conjunto, mas traz outras facetas, sendo que 4 Ever 2 Gether é a expressão da clássica contradição formal de parte do pop oitentista: synthpop gélido-robótico, marca registrada da cultuada ZTT Records, de Horn, como cama para vocais apaixonados e dramáticos de quem cresceu ouvindo glam rock e música negra ianque ou do norte inglês. Amo aquele teclado Jean Michel Jarré fase Oxygene.

Theme From “Mantrap” fecha o clássico com releitura de Poison Arrow em clima de cabaré jazz, não descabido na New Bossa inglesa da época, tipo Everything But The Girl.

The Lexicon Of Love é mapa, bússola, compasso e astrolábio da primeira metade oitentista. Só por isso seria indicado para amantes da época, mas torna-se obrigatório para quem ama pop acessível, dançável, mas consequente.

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