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Resenha: Made Of Rain (2020)

Álbum de The Psychedelic Furs

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Passadas quase três décadas e ainda fazendo música com alma!

Por: Expedito Santana

16/02/2021

Recebi com um misto de surpresa e satisfação esse novo disco do The Psychedelic Furs, lançado em julho de 2020, passados longos 29 anos sem que a banda tivesse apresentado qualquer material inédito desde “World Outside” de 1991. Tal demora deve-se em parte ao fato de os irmãos Butler, Richard e Tim, haverem se aventurado no projeto Love Spit Love, que rendeu apenas dois discos, além da carreira solo de Richard. Por tudo isto, não se ouvia falar muito nos últimos tempos nesse grupo, que conseguiu cristalizar sua fama no auge do pós-punk oitentista. A banda vinha até mantendo-se ativa e fazendo turnês, notadamente depois da reformulação ocorrida em 2000, contando, inclusive, com uma significativa frequência de audições nos serviços de streaming, porém, não recordo caso similar no qual um grupo tenha ficado tanto tempo em estado de hibernação criativa. Até porque, não raro, muitas bandas surgem, estouram e até desaparecem em menor período que este.  

Ainda meio atônito com tudo isso me fiz a seguinte pergunta: o que leva uma banda, marcada por uma “Era” que não existe mais, apostar num novo trabalho de estúdio depois de abissal hiato?  A resposta cogitou duas hipóteses: a) os Furs tinham algo novo a mostrar ao mundo ou b) ainda se mantinham presos à sonoridade original e acreditavam poder reeditar fórmulas do passado capazes de continuar cativando velhos fãs e também de conquistar novos. Pois bem, após a escuta do disco, cheguei à conclusão de que eles fincaram âncora num ponto intermediário, ou seja, nem totalmente uma coisa e nem outra. 

“Made of Rain” teve a co-produção do guitarrista Richard Fortus, ex-integrante do Love Spit Love e membro regular do Guns N' Roses a partir de 2002. Já os trabalhos de mixagem foram realizados por Tim Palmer. Mas falando do álbum, em alguns momentos sinto que ele assenta numa atmosfera um tanto reflexiva e cadência mid-tempo, fazendo uso de programação e erigindo um protótipo sonoro que, aliás, vem sendo vertido frequentemente dos trabalhos de Richard Butler desde o finalzinho da década de 80, resultando num som que caminha entre o pós-punk melódico, o pop e o rock alternativo e que deixa no ar reminiscências e similitudes com a sonoridade de outras bandas oitentistas, a exemplo de Echo & the Bunnymen, The Mission, The Chameleons, The Cure e Killing Joke.      

Apesar de não ter a mesma estatura dos clássicos pós-punk “Talk Talk Talk” de 1981 e “Forever Now” de 1982, a entrega deste novel álbum é bastante digna à história da banda. A música do Furs em “Made of Rain” está baseada na bateria altissonante de Paul Garisto e nos sons argutos e gloriosos do sax de Mars Williams, enriquecida pelos essenciais ofícios dos irmãos Butler, cabendo a Tim tracejar linhas de baixo faceiras e ao líder Richard estampar seus vocais melódico-ácidos, assim como o lirismo incrédulo e mordaz. Registro, porém, a ausência pela primeira vez na formação da banda do guitarrista John Ashton, que saiu em meio a um processo um tanto conflituoso. Talvez seja este um dos principais motivos de o Furs não haver alcançado a primazia nesse álbum, já que os arranjos, timbres, texturas e ganchos que Ashton conseguia adicionar à sonoridade da banda eram, sem sombra de dúvidas, sinérgicos e originais. Ficando aqui as guitarras rítmicas e solo nas mãos apenas de Richard “Rich” Good e os teclados sob o comando de Amanda Kramer.       

A psicodélica e bombástica abertura de “The Boy That Invented Rock & Roll” confere ao álbum um caráter promissor, cujas letras pessimistas e refrão grudento são cantadas tenazmente por Richard Butler: “O fim dos dias, a escuridão sem estrelas/ Um saco de lágrimas onde o amor se foi/ Os dias queridos, um canto de sereia/ Eu sou o garoto que inventou o rock and roll”. Confesso que sou vencido aqui pela tentação de apertar o repeat, já que não quero de deixar de ouvir com maior afinco a sinfonia arrepiante de sax proposta por Williams e nem as guitarras viajantes de Richard (Rich) Good. “Don't Believe” não deixa de ser igualmente forte e comovente, talvez cometa o pecado de fixar-se demasiadamente no refrão, porém, a inquietude dos teclados de Amanda, a bateria sapeca de Paul Garisto e as chuvas generosas do magnífico sax de Williams fazem desta peça uma passagem briosa. Richard atiça um sentimento confuso de descrença generalizada e dúplice a tudo e todos: “Eu não acredito (chupando um cigarro) / Eu não acredito que você não acredita em mim/ Eu não acredito em você (aí vem a chuva de novo) / Não acredite que é verdade/ Eu não acredito (promessas são compradas e vendidas) / Eu não acredito que você não acredita em mim/ Eu não acredito em você (batendo na minha cabecinha) / Não acredite que é verdade.” “You'll Be Mine” assemelha-se a uma pérola neoprogressiva de alma folk tendendo à Fish, e incluo na conta até mesmo os vocais de Richard, guardadas as devidas proporções, obviamente. As guitarras tempestuosas e sinuosas de “Wrong Train” percorrem caminhos que levam aos túneis cavados pelos galeses do Manic Street Preachers, encontrando leve dissonância tão somente no peso acentuado da bateria de Garisto e na tintura dramática dos vocais de Richard. Pausa para uma reflexão: que começo esplendoroso!! 

Com sua intro espacial “This'll Never Be Like Love” conduz o disco a uma estação introspectiva e de pura melancolia, digna dos passeios góticos de Cure e The Mission. O sax de Willian derrama tristeza e dor enquanto Richard apresenta uma das suas mais convincentes performances vocais, tendo a bateria de Garisto a tarefa de edificar um ritmo percussivo estonteante e ao mesmo tempo trágico. A essa altura o ingresso está quase pago, mas “Ash Wednesday” vem escalar as montanhas da aflição a partir de uma densidade percussiva maravilhosa e letras sombrias, amargas e ressentidas: “E o amor mentiras assassinadas/ Passos do diabo/ Na escada/ São quatro da manhã algumas / domingo de manhã/ Estou cheio de vazio.” Disse que Richard fez uma das suas melhores performances na faixa anterior, todavia, nesta aqui a superação vem com sobras. Há alguns instantes em que paro a contemplar as guitarras flutuantes de Good e me perco nas suas repetições hipnóticas, seria uma mistura de tristeza climática desalentadora derivada da intersecção de Gazpacho e Airbag. Uma faixa para cair o queixo!! 

“Come All Ye Faithful” muda tudo com sua estranheza pop, a excelente linha de baixo de Tim, batida contundente e sons sinistros de sax espalham um forte cheiro de estrofe satírica, cínica e indiferente. “Quando eu disse que precisava de você menti/ Eu nunca precisei de ninguém Eu ria até chorar/ Venham todos vocês playboys, vocês santos e pecadores”. “No-One” rapidamente devolve a densidade do começo, ainda que agora por meio de um tempero levemente díspar, mormente pelas camadas dos teclados etéreos de Amanda Kramer e um vocal incisivo e bem menos sensível de Richard, ficando a impressão de que os caras conseguem unir a sobriedade do Cure ao pop rock pretensioso do U2. “Tiny Hands” perde-se um pouco na costura e no transe eletrônico dos teclados, derrapando entre a fronteira que divide a beleza melodiosa e a astúcia tecno. 

A balada hard “Hide the Medicine" trilha caminhos um tanto triviais e, se não chega a convencer, também não decepciona. Já "Turn Your Back on Me", conquanto refaça um pouco os passos da anterior, o faz partindo de uma linha menos tediosa e aproveitando com parcimônia as aptidões do baterista Paul Garisto, mesclando tudo a bons arranjos e a uma ambiência melhor delineada. Fica claro, desta forma, que a segunda parte do disco é um pouco inferior a primeira, mas o fechamento feito pela híbrida “Stars”, que começa suave e dá adeus na calda de guitarras abrasivas, carrega a honestidade carimbada na testa.          

Retomando a ideia inicial deste texto, pode-se dizer, sem nenhuma hesitação, que o saldo final de “Made of Rain” é incrivelmente positivo, porquanto se vê aqui uma banda olhando para a frente, mesmo sem esquecer totalmente o passado. Embora não seja um disco que traga borrifadas substantivas de ar fresco ao cenário da música contemporânea, nem tampouco se trate de um registro clássico que vá conseguir arrebanhar milhares de novos admiradores para o Furs, não deixa de ser uma aprazível experiência, após o decurso de quase três décadas, ter a oportunidade de, novamente, ouvir uma grande banda fazendo música com alma.

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