Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Sound Of White Noise (1993)

Álbum de Anthrax

Acessos: 91


Uma imersão audaciosa nos anos 90

Por: Expedito Santana

12/02/2021

A década de 90 foi invadida pelo grunge de Seattle e sobrou então às bandas de metal contra-atacar, apostando na manutenção das raízes metaleiras anos 80 ou buscando remodelar a sonoridade, a fim de não ficarem para trás. Entre os grupos do denominado “Big Four do Thrash”, o Metallica gestou o Black Album, que, embora controverso entre os fãs radicais eternamente apegados à fase clássica da banda, conseguiu auferiu grande sucesso comercial e de crítica. As demais bandas não deixaram por menos, o Megadeth pariu o clássico “Rust in Peace”, o Slayer, que nunca abrandou a velocidade e nem o peso (os caras jamais fizeram baladas!!), botou na praça o grandioso “Seasons in the Abyss”, e o Anthrax, por sua vez, apresentou ao mundo esse excelente disco de 11 canções intitulado “Sound of White Noise”, que chegou ao 7º lugar da Billboard e até faturou o disco de ouro. 

Contando com a produção do competente Dave Jerden, profissional acostumado a trabalhar com bandas de metal, a exemplo de Sacred Reich e Armored Saint, mas que também possuía experiência com bandas do grunge e rock alternativo (Alice in Chains e Jane's Addiction), o disco marcou a chegada do vocalista John Bush para substituir o lendário Joey Belladonna, que havia sido demitido. A presença do novo cantor, inclusive, seria crucial para que a banda pudesse empreender mudanças significativas em sua sonoridade, que continuaria pesada, porém sem aquela velocidade habitual vista nos discos anteriores, notadamente no magnífico “Among the Living” e no debut “Fistful of Metal” de 1984. Com Bush no lugar de Belladonna, a formação clássica da banda seria então desfeita, mantidos, porém, os demais integrantes que gravaram o álbum antecessor, “Persistence of Time” (1990), ou seja, os guitarristas Scott Ian e Dan Spitz, o baixista Frank Bello e o baterista Charlie Benante. 

O disco soa moderno para a época, mas mantém a velha pegada da banda e não promove nenhuma metamorfose alienígena na música do Anthrax. Restringindo-se a acrescentar algumas novidades pontuais, principalmente passagens melódicas e menos sisudas, além de quebrar um pouco aquela veia metal clássica oitentista da fase Belladonna (que eu adoro!). Na verdade, é como se a banda estivesse colocando entre parênteses parte da própria história em prol de aventuras contemporâneas mais ousadas. Fã xiita existe em todo lugar, no entanto, os admiradores do grupo já deveriam estar acostumados com tal característica do Anthrax, que historicamente já vinha mostrando ser uma banda de vocação meio de vanguarda, foi assim, por exemplo, com a introdução de pitadas de rap/hip-hop (que eu também adorei!) no auge dos anos 80.     
	
Pois bem, voltando ao disco em si, a batalha começa com "Potter's Field", acredito que o barulho estático no início dessa faixa seja o tal “som do ruído branco” referido no título do álbum (rsrsrsr). E que entrada!! riffs pesados e tensos de guitarras, John Bush cantando esplendidamente e a bateria de Benante rachando tudo, restando apenas perguntar: o que é isso??!! Logo em seguida, para não perder a empolgação, vem aquela que talvez seja uma das melhores músicas da banda, a aclamada “Only”, uma parede sonora esmagadora construída em cima de riffs cativantes e pesados, com o vocal de timbre melódico de Bush sendo uma das principais atrações. Aí você vai se perguntar: ainda é Anthrax ou o Soundgarden deu uma canjinha por aqui? Não, é Anthrax sim, meu amigo!! E os caras fazem aqui um thrash incomum e estão pouco se lixando para o julgamento de headbangers ortodoxos. Um solo espetacular distorcido com efeitos de pedal e Benante sem tirar o pé do acelerador (quer dizer, da bateria) completam a festa.  

A descontração continua com "Room for One More", que tem Bush cantando em grande forma, refrão pegajoso e outro solo impressionante. Os ritmos quebrados da volúvel "Packaged Rebellion" podem trazer um certo estranhamento a priori, mas o peso da bateria e dos riffs de guitarras mais do compensam a ausência de velocidade, seria um pós-thrash? Chame do que quiser, pra não complicar eu diria que é apenas rock and roll e muito bem feito por sinal. 

"Hy Pro Glo" parece ter nascido da fusão de Alice in Chains e Stone Temple Pilots. Seu ritmo alegre e meio relaxado às vezes pode fazer com que o ouvinte não perceba a pujança de suas guitarras e a insanidade latente da bateria. "Invisible" é um thrash impetuoso que representa uma espécie de voltas às raízes vestindo algumas peças de roupas mais atuais, são cerca de 6 minutos de duração que servem para a banda dispersar no ambiente um caldo saboroso e forte de metal destilado. "1000 Points of Hate" é uma explosão proto-thrash que tem nos vocais de Bush, nas guitarras possantes e na bateria hábil uma forma de se expressar, ora de forma divertida ora de maneira contundente. E vejam vocês, não é só o Metallica que toca baladinhas, “Black Lodge” acena para um momento mais “lentinho” e melódico, seu refrão edulcorado e textura ambiental amenizam as coisas, dando ao cérebro o direito de descansar um pouco, ainda que de uma hora para outra arrisque-se aqui alguns movimentos mais exasperados. 

Em "C11H17N2O2S Na", cujo título curiosamente corresponde à formula molecular do tiopental sódico, a agressividade groovy apoia-se na força de riffs viscosos e bateria de compasso apressado de Benante, contando ainda com um solo incrível, apesar de curtinho. "Burst" traz o thrash old school encapsulado nas guitarras sanguinolentas e acelera o passo deixando Benante espancar o seu instrumento de trabalho enquanto Bush esforça-se numa performance metal que até lembra remotamente os tempos áureos de Mr. Belladonna. A despedida propalada por "This is Not an Exit" é moderninha, como era de se esperar, com Bush encarnando uma versão híbrida de Chris Cornell e Layne Staley. A propósito, os riffs levantam uma muralha que remete a Alice In Chains e como sempre Benante não deixa de mostrar seus dotes nas variações. Um solo massacrante crava uma mensagem final: isto aqui é o que temos para hoje, pegue ou vá embora!

Ainda que o Anthrax tenha obtido maior reconhecimento e alcançado seu ápice com Belladonna segurando o microfone, “Sound of White Noise” conseguiu marcar positivamente a discografia da banda e ser uma prova irrefutável de que os rapazes vindos da cosmopolita Nova York nunca temeram viajar por estradas menos triviais. Ponto para a coragem!!

As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor


Compartilhar

Comentar via Facebook

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.
Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito e aberto para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.