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Resenha: Second Life Syndrome (2005)

Álbum de Riverside

Acessos: 65


Um disco de metal progressivo melódico que passou muito perto da perfeição!

Por: Expedito Santana

11/02/2021

Após o ótimo debut “Out Of Myself”, lançado em 2004, os poloneses do Riverside voltaram ao estúdio cerca de um ano depois para gravar “Second Life Syndrome”, que saiu pela Inside Out Music. E talvez tenham lançado aqui, olhando panoramicamente, um dos seus melhores exemplares do catálogo. Este disco, inclusive, recebeu inúmeros elogios da crítica especializada e constou da lista dos 100 Melhores Álbuns de Todos os Tempos da Metal Storm. Não é de hoje que aprecio o trabalho desta competente banda que dificilmente comete deslizes em sua carreira, e que, certamente, já está estabelecida como um dos principais nomes do rock progressivo. 

Apesar de não ter feito nenhuma transformação mais radical neste segundo registro, a banda já começava a redirecionar levemente sua sonoridade. Se no primeiro álbum eles propuseram uma espécie de som com algumas claras reminiscências em Pink Floyd e Porcupine Tree, incluindo um flerte flagrante com o death metal, em "Second Life Syndrome" eles avançaram um pouco mais as fronteiras do metal e buscaram alguma inspiração aparentemente em Dream of Theather, Tool e Pain of Salvation, deixando sua música com uma textura notoriamente dark e mais pesada, sem prejuízo da inserção de passagens rápidas. O mais interessante, porém, é que o Riverside consegue unir a pegada metal a belas melodias de estilo floydiano, produzindo assim um som genuíno e um tanto diferente do executado pela maioria das bandas de metal progressivo. Eles conseguem usar a técnica a serviço da emotividade, e não apenas como um fim em si, fugindo da velha armadilha da autoindulgência a que muitas bandas são lançadas por vezes sem perceber. 

O álbum foi muito bem arquitetado e adota, mais uma vez, uma linha conceitual que retoma a jornada do protagonista de “Out My Self”, definindo agora um cenário marcado por uma viagem mental pela escuridão, miséria e desespero, que já pode ser percebida indubitavelmente na introdução da faixa “After”, cantada em sussurros: “Pelo amor de Deus / eu preciso ser real / eu preciso tocar / eu preciso ... de pessoas?” 

Com certeza a qualidade desse disco deve-se à inspiração e talento dos membros da banda. Neste álbum o ouvinte encontrará linhas de baixo eficientes e que funcionam plenamente para o conjunto, embora sejam, em sua maioria, bastante singelas. O mesmo vale para os trabalhos de bateria de Piotr Kozieradzki, que são sólidos e funcionais, mas sem peripécias. O guitarrista Piotr Grudziński, entretanto, talvez seja o ponto fora da curva, talentosíssimo e capaz de gerar climas e solos de metal progressivo que exalam emoção e cuja precisão cirúrgica na escolha das notas é admirável. O vocalista e baixista Mariusz Duda da mesma forma, quer seja numa sessão mais intensa ou cantando suavemente, consegue sempre a excelência. Sem qualquer dúvida, pode ser considerado um dos melhores vocalistas do rock progressivo. Os teclados de Michal Lapaj são muito bem encaixados e ajudam a enriquecer as composições, como se fosse um amálgama que liga as partes estanques e unifica a instrumentação da banda. Todas as composições são muito bem elaboradas e inspiradas, com alto grau de sofisticação, e as harmonias e cadências refletem um excelente som progressivo com pitadas de neoprog. Nenhum dos épicos sofre de monotonia e as canções mais curtas têm uma duração e dinâmica adequadas, sem quaisquer preenchimentos desnecessários. O único recurso de que o disco carece é o uso dos violões, que poderiam enriquecer ainda mais o concerto. 

“After” abre o álbum em clima tribal baseado em eficiente trabalho percussivo e vocais absolutamente perfeitos de Mariusz Duda que constroem uma atmosfera mística impressionante. Solo de guitarra muito bom. Logo em seguida aparece “Volte-Face”, um rock mais direto e cru, composto de ótimos vocais melódicos e a clássica linha de baixo de Duda. A guitarra de Piotr Grudziński despeja solos sensacionais e passagens mais densas de metal. Um ótimo trabalho, mas nada de extraordinário. Os teclados de Lapaj participam ativamente na segunda parte da canção ensaiando um solo de preparação para a guitarra uivar sem dó nem piedade. A finalização em bases pesadas de metal é empolgante e um dos melhores segmentos desta canção, com certeza.  

“Conceiving You” é uma balada-canção de textura metal-floydiana, vocais suaves e ternos de Duda, permeados por uma linha de baixo vistosa, belo acompanhamento de piano e um ótimo trabalho de guitarra de Piotr Grudziński, que mescla o peso e a suavidade como ninguém. O que realmente espanta nessa peça afável é a performance vocal de Duda. 

O primeiro épico vem logo em seguida, a faixa-título, que é dividida em três partes. A sensação nesse início de estar diante de uma peça floydiana é inevitável, mormente pela sessão de guitarra ambiental claramente inspirada em David Gilmour. Essa faixa é de uma beleza quase indescritível, a combinação de melodia e ostensividade roqueira são incríveis. Ela consegue te pegar de jeito, ora apelando para o adocicado dos vocais de Duda ora pela incisividade das guitarras de Piotr Grudziński. Sem dúvida, uma das peças mais belas e bem trabalhadas feitas pela banda, que  consegue fluir por meio de um sentido de identidade e quando você pensa que ela vai se perder, eis que retoma o seu caminho sutilmente. O solo de guitarra por volta da metade é breve, mas consegue arrepiar todos os fios de cabelo do corpo, confesso que se eu não estiver num dia muito bom as lágrimas fatalmente irão jorrar. Na segunda parte, a linha de baixo de Duda inaugura uma sessão tensa pavimentada posteriormente pelos teclados de Lapaj e os solos magníficos de Piotr Grudziński (não canso de dizer: que falta esse cara faz!!). A melhor faixa! 

“Artificial Smile” desde o início não nega sua vocação pesada, riffs nervosos e áridos ladrilham a paisagem, com os teclados criando uma camada de tensão. Duda mostra sua versatilidade aqui cantando de forma irada bem adequada ao espectro metal proporcionado pelo instrumental. Piotr Grudziński vai e volta em riffs e solos enquanto a bateria castiga, essa transição entre partes amenas e pesadas é construída de maneira formidável. A sessão final com Duda gritando descontroladamente em tom quase gutural é o fechamento perfeito para essa mescla de neoprog com metal progressivo da melhor qualidade.    

O rock clássico de “I Turned You Down” surge quase em continuidade com a anterior. Construída por uma linha de baixo adiposa, bateria em compasso mais lento, teclados etéreos e guitarras em riffs poderosos e licks viajantes. Duda transita entre vocais mais sussurrantes e fortes. Solos brilhantes não faltam a esta faixa. Piotr Grudziński é um assombro. Em seguida vem Reality Dream III, um instrumental que inclui ofícios de guitarras arrebatadores e ótimo trabalho percussivo, no qual a simplicidade roqueira fala alto, mix de metal pesado e passagens mais aventureiras e suaves. Uma linha de teclados meio Van Der Graf Generator pipoca na segunda parte e a canção termina em alta rotação e densidade. Aprovada!   

A faixa mais metal do disco é “Dance With The Shadows”, outra composição épica, cujo início místico envolve intensamente o ouvinte, vocais introspectivos de Duda, quase como se meditasse ao longo do canto. Logo em seguida uma guitarra uiva em notas distorcidas e psicodélicas como se fosse o sinal para a bateria entrar em ação e derrubar as estruturas, enquanto os teclados de Lapaj tentam manter um clima mais ameno. Linha de baixo eficiente e simples de Duda e riffs pesados de Piotr Grudziński buscam o protagonismo. As passagens de metal remetem claramente a Pain Of Salvation e Dream of Theather. Os solos soberbos e as sessões ambientais evitam que o ouvinte caia em monotonia. Pode escutar sem moderação, essa faixa torna-se mais interessante a cada nova experiência.  

Cabe ao post-rock “Before” fechar o disco, uma faixa de compasso mais lento e calcada nos teclados e baixo na introdução. A guitarra de Piotr Grudziński vai aos poucos inserindo suas notas acompanhada da bateria que também contribui para o clima anestésico. Já se aproximando do final as coisas mudam, riffs pesados invadem de vez a paisagem sonora, teclados majestosos marcam espaço e os solos começam a aparecer. Fechamento impactante!! 

Esses poloneses passaram muito perto da perfeição em “Second Life Syndrome”, numa metáfora futebolística: a bola chutada por eles bateu na trave. Uma obra que pode ser considerada uma referência de metal e rock progressivos, equilibrada, sóbria, bela e potente. Não há como sair daqui sem ser tocado, mais uma vez, pela singular capacidade dessa extraordinária banda chamada Riverside. 

Tracklist:
1.	After (3:31)
2.	Volte-Face (8:40)
3.	Conceiving You (3:40)
4.	Second Life Syndrome (15:40)
. Part One - From Hand To Mouth	
. Part Two - Secret Exhibition	
. Part Three - Vicious Ritual (Instrumental)	
5.	Artificial Smile (5:27)
6.	I Turned You Down (4:34)
7.	Reality Dream III (5:01)
8.	Dance With The Shadow (11:38)
9.	Before	 (5:23)

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