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Resenha: The Head On The Door (1985)

Álbum de The Cure

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Epítome de tudo que a banda tinha feito até então!

Por: Expedito Santana

10/02/2021

Poucas bandas de rock conseguiram lidar tão bem com as mudanças quanto o The Cure. Rotulado de gótico no início de carreira, alcunha que, aliás, o próprio líder da banda, Robert Smith, sempre fez questão de rechaçar, o grupo originado em 1978 na cidade suburbana de Crawley, na Inglaterra, transitou com muita tranquilidade e convicção pelos caminhos que percorreu ao longo da sua extensa carreira (pop, new wave, rock alternativo etc), mantendo sempre intacta a essência sonora que distingue o som da banda. 

“The Head On The Door” é o sexto da banda e sucedeu o pop experimental “The Top”, de 1984, que na verdade mais se assemelha a um trabalho solo de Robert Smith, que tocou quase todos os instrumentos, à exceção apenas da bateria, havendo expandido as fronteiras da banda para zonas próximas ao psicodelismo, mas preservando o lado sombrio. Esse disco também não fica cingido ao clima gótico da trilogia “Seventeen Seconds” -1980 / “Faith” -1981 / “Pornography” -1982, que consolidou a banda, apresentando aos fãs, na verdade, uma espantosa e variada trilha de canções que estão muito mais para uma coletânea representativa de várias fases da banda que um trabalho de estúdio de músicas inéditas. Mas, vale dizer, é justamente esse ecletismo que mais atrai e seduz o ouvinte, fazendo da escuta de “The Head On The Door” uma jornada excitante e bastante aprazível. 

Esse registro marca o retorno do baixista Simon Gallup, que havia pulado do barco logo após o lançamento de “Pornography”, e significa para a banda a entrada de vez no mainstream bem como o sucesso comercial no tão cobiçado mercado norte-americano. Como antecipei no início deste texto, o The Cure consegue implementar mudanças significativas aqui, mas sua verve depressiva sobrevive plenamente nas letras existencialistas e cultas de Robert Smith. Dessa vez, porém, o lirismo do Cure segue conduzido por um instrumental mais vibrante e polido, reservando a angústia e a introspecção para alguns momentos isolados, com a textura pop reverberando na maior parte do tempo.  

O álbum já começa rodando um dos maiores sucessos do grupo, a espetacular "In Between Days", canção pautada numa melodia de teclados absolutamente invencível e que se tornaria um clássico com o passar do tempo, primeiro single da banda a alcançar o Hot 100 na parada dos Estados Unidos, baladinha esfuziante que também foi muito aclamada aqui no Brasil, incluída em 1986 na trilha sonora da novela Selva de Pedra, da Globo, mesmo ano em que o disco foi lançado no país. Seu clipe alegórico, no qual é possível ver Smith numa atuação desconjuntada e um tanto pastelona, foi exibido à exaustão pela MTV. Tocá-la nas festinhas de adolescentes era quase obrigação. Se não me falha a memória (pois lapsos já começam a ser comuns na minha idade) esta foi uma das primeiras canções que ouvi do Cure, portanto, tenho por ela uma ligação especial. Lembro ainda que "In Between Days", em virtude de sua natureza solar e riffs swingados, era muito escutada entre a galera do surf. Apesar de nunca ter me arriscado numa prancha, sempre tive muitos amigos e conhecidos que praticavam o esporte e que incluíam o The Cure na lista de banda queridinha. 

Quebrando um pouco a vibe mais otimista vem a estupenda "Kyoto Song", cuja batida oriental nipônica presta uma bela homenagem à “Terra do Sol Nascente” e inaugura atmosfera que remete à fase mais sombria da banda, mas sem instalar a depressão aguda, diga-se de passagem. Adoro essa faixa por seu instrumental cadenciado na bateria de Williams e baixo de Gallup, complementada na voz suave de Smith, que canta versos que parecem confundir realidade e fantasia: “Não vejo mais longe do que este sonho/ A mão trêmula do homem trêmulo/ Segure minha boca/ Para segurar um grito/ Eu tento pensar/ Para tornar mais lento/ Se apenas aqui é onde eu vou/ Se isso for real/ Eu tenho que ver” 

Saindo do clima ameno de “Kyoto Song”, a temperatura sobe um pouco com a animada "The Blood", que tem seu ponto alto nos belos violões flamencos, momento em as cordas de feições latinas contrastam com o toque oriental dado pelos teclados. O elegante solo de violão espanholizado é uma cereja e tanto no bolo. "Six Different Ways", por sua vez, devolve a batida pop de influência nos Beatles e pendula entre o inocente mezzo bobo e o rock de matiz sério. Smith exibe aquele típico e inconfundível vocal delicado e juvenil. A arrojada “Push" aparece sem pedir passagem e é uma das minhas preferidas, camadas de guitarras fazem a pavimentação perfeita para Smith cantar num estado de contentamento singular. Exemplar de rock bem-aventurado e ótimo para viagens de carro e dias em que o astral tá lá nas alturas (se não estiver, garanto que fica!). 
  
Os ritmos de "The Baby Screams" a tornam um bichinho eletrônico e dançante que não dá sossego. E, quando o disco parece que não tem mais nada de interessante a oferecer, eis que brota outra insígnia do período pop comercial da banda, a fabulosa “Close To Me", uma preciosidade de raiz clássica anos 80, cantada de forma orgástica por Smith. Tornou-se um dos maiores hits da banda e sua estética revelou uma faceta divertida (quase acidental, uma vez que a ideia original do vídeo é fúnebre) no clipe que marcou época. "A Night Like This" retoma o mood balada romântica, aplainada a partir de riffs viajantes e com direito a um impressionante solo de saxofone do músico convidado Ron Rowe. Suas letras melancólicas falam de encontros e desencontros amorosos e são costuradas cirurgicamente no refrão choroso cantado por Smith: “Ooo, I want to change it all / Ooo, I want to change”. 

Perto de chegar ao fim do disco surge a deslocada "Screw", um rock groove não muito atraente, mas que não compromete o conjunto da obra, até porque a finalização dos trabalhos mostra-se extremamente compensadora, ficando por conta da magistral “Sinking", verdadeiro revival dos tempos góticos da banda, canção lenta calcada em camadas majestosas de teclados, baixo e bateria constantes e um climão macambúzias que encontra o ápice nas letras sofridas de Smith. Como quem desiste do mundo entoa Robert em voz lacrimosa: “Eu estou descendo devagar / Enquanto os anos passam/ Eu estou afundando / Então eu engano a mim mesmo/ Como todo mundo / Os segredos que eu escondo/ Me torcem por dentro/ Me fazem enfraquecer / Então eu engano a mim mesmo / Como todo mundo.” 

“The Head on the Door” não deixa de ser um mosaico de composições que levantam o ânimo, mas que também permitem à escuridão algumas chances de se fazer presente. O disco é uma ótima porta de entrada ao universo mágico do The Cure, constituindo-se epítome de tudo que a banda tinha feito até então, ou seja, aqui você transita entre o sentimento de estar perdido para logo em seguida divertir-se esbanjando um sorriso largo na face achando que a vida é boa e vale muito a pena. Isto é The Cure!!! 

Formação da banda: 
Robert Smith - voz, guitarra, teclados
Laurence Tolhurst - Teclados
Porl Thompson - guitarras, teclados
Simon Gallup - baixo
Boris Williams - bateria, instrumentos de percussão

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