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Resenha: The Absolute Universe: The Breath Of Life (2021)

Álbum de Transatlantic

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Como sempre, um álbum recheado de melodias, harmonias e arranjos engenhosos

Por: Tiago Meneses

05/02/2021

Após ouvir os primeiros acordes de The Absolute Universe - The Breath of Life já me bateu uma sensação boa, mais ou menos como a de estar encontrando velhos amigos que há tempos estiveram longe de mim, e que agora perto, teriam muito boas histórias – que nesse caso seriam as músicas – para me contar. E realmente, eu não estava errado e fiquei maravilhado, colocando o álbum para repetir algumas vezes até chegar ao ponto em que me senti bem para escrever sobre ele. 

A banda se juntou pela primeira vez pouco mais de vinte e um anos atrás e até então haviam lançado quatro álbuns, pouco pelo tempo, mas não se levarmos em conta que eles sempre se propuseram a levar o progressivo da banda a um grau elevadíssimo através de obras musicais desafiadoras. Com The Absolute Universe podemos dizer que o Transatlantic atingiu o cume da montanha da forma mais gloriosamente exagerada em que o rock progressivo moderno poderia chegar. Um disco em que é uma longa canção cortada em pedaços para que seja mais fácil a sua navegação. Só isso já seria motivo suficiente para uma diversão garantida, mas a banda ainda decidiu produzir três versões diferentes – duas em CDs e mais uma em Blue-Ray -, com durações diferentes, arranjos diferentes e às vezes até mesmo vocalistas diferentes. 

“The Overture” é aquela faixa que vai pegar o ouvinte pelas mãos e dar um pequeno passeio por todos os territórios que o álbum irá transitar durante as suas pouco mais de uma hora. Uma abertura perfeita. Roine Stolt oferecendo o primeiro de muitos ganchos de guitarra. Portnoy sempre matador usando e abusando do seu kit monstro de bateria, Morse adicionando órgão e sintetizadores enquanto que Trewavas desfila com suas linhas de baixo proeminentes. Cada um revezando no papel da estrela que mais brilha em um belíssimo aquecimento para o que nos espera. 

“Reaching for the Sky” é uma música em que tanto a melodia alto astral e edificante quanto à letra conseguem transmitir um ar de alegria em meio ao caos em que tudo foi criado. Um progressivo mais animado e menos técnico, a música carrega uma grande energia ininterrupta e que é impulsionada principalmente pelo baixo e bateria que fazem uma seção rítmica maravilhosa. Daquele tipo de som que não deve faltar nunca em qualquer disco que tenha Neal Morse envolvido, pois esse humor da faixa é a sua cara. 

“Higher Than the Morning” já começa em um ritmo maravilhoso com Stolt soltando um pequeno solo de guitarra sendo seguido por algumas notas de órgão antes que Morse pronuncie as primeiras palavras. As linhas de baixo junto com a bateria são novamente um show a parte, criando uma seção rítmica sensacional. A música então vai se deslizando suavemente para a faixa seguinte. 

“The Darkness in the Light” baixo e bateria explodem dando início a faixa, mas logo ganham a companhia de uma guitarra distinta e os vocais peculiares de Stolt. Uma faixa intrincada e de pegada funk em alguns pontos. Músicas como essa mostra que neste disco a banda quis elevar as interações vocais da banda para outro nível – e de fato conseguiram. Apesar de tudo na faixa ser bem direcionado e construído, são as linhas pulsantes do baixo que se sobressaem dos demais instrumentos. 

“Take Now My Soul” é uma balada tipicamente cristã escrita por Morse, tendo um som mais leve e emocional onde a banda está referenciando claramente o início da pandemia e como as ruas estão vazias. O primeiro verso é cantado por Morse enquanto que o segundo fica por conta de Portnoy. Possui um refrão muito bom e isso é algo que eu sempre vou elogiar em alguma música. Destaque também para uma quebra de ritmo em que os solos de guitarra de Stolt se transformam na principal atração da música até que ela seja emendada para a faixa seguinte.

 “Looking for the Light”  logo no seu primeiro segundo, já mostra para o ouvinte que se trata de algo muito mais pesado do que foi mostrado até o momento no álbum. Porém, não podemos dizer que é menos melódica. Sinfônica em alguns momentos, quem lidera os vocais desta vez é o Portnoy. Ainda que seja uma peça desacelerada e que não consegue abraçar o ouvinte com o mesmo afeto quanto as anteriores, tem no seu peso um trunfo para manter o ouvinte com a mesma atenção e não deixa-lo se desligar do álbum – até porque ainda tem muita coisa pra acontecer. 

“Love Made a Way (prelude)” é uma balada simples ao violão e voz – de Morse - que serve apenas – como o nome sugere – como um prelúdio para a segunda metade do álbum. “Owl Howl” é mais uma demonstração da alta qualidade dos músicos. Possui um riff maciço de guitarra e órgão, vocais sinistros novamente liderados por Stolt, várias mudanças de ritmos, um momento instrumental simplesmente épico e ótimo solo de teclado. Não tem como um fã da banda não gostar deste som, pois ela possui exatamente todos os elementos que a caracterizam. 

“Solitude” traz o disco novamente para uma atmosfera mais tranquila através uma balada que serve como um grande contraste com a canção anterior. Pete Trewavas é quem interpreta a música com a sua simpática e trêmula voz. Também escrita por Pete, resume perfeitamente a dor do isolamento que tantos têm vivido. Funciona muito bem tanto para reprisar quanto para prenunciar elementos musicais do álbum. Destaque também para o excelente final sinfônico. 

“Belong” é uma faixa com menos de dois minutos e meio, mas que tem muito a oferecer. Trata-se de uma peça levemente jazzística que combina pequenas vocalizações com solos de guitarra e órgão. Eu achei que ela soou muito como Islands do Flower Kings. 

“Can You Feel It” é uma música alegre e que espalha o bom humor de Morse, onde não sendo exatamente uma faixa progressiva, ao menos consegue entregar a energia que um fã de Transatlantic espera ao ouvir em um disco da banda. Com uma melodia forte e cativante, a banda consegue criar uma ponte perfeita entre o espectro mais sombrio das duas faixas anteriores e o final mais positivo e edificante para qual o álbum está caminhando. 

“Looking for the Light (reprise)” como o nome sugere, é a reprise de uma faixa que já passou pelo disco. Sua introdução é uma excelente e progressiva passagem instrumental. Cresce em intensidade cada vez mais até que atinge o seu pico quando os vocais de Morse acompanhado de Portnoy entram em ação, onde expressam todo o desespero de isolamento e autoconfiança, porém, sem deixar de encorajar o ouvinte em não desistir e buscar pela luz dentro do atual momento de trevas. 

“The Greatest Story Never Ends” apesar de fazer parte do time de uma das menores faixas do álbum – com quase três minutos apenas -, certamente é um dos seus destaques. Uma faixa muito enérgica e um belíssimo trabalho de órgão, além de uma seção rítmica instrumental principalmente próximo do fim que é simplesmente implacável. Um tipo de arranjo que podemos chamar de Transatlantic na sua melhor forma. 

“Love Made a Way” é quando chegamos ao fim do álbum, independentemente de quais dos álbuns sejam, esta é a faixa que o finaliza – apesar de possuírem algumas diferenças em termos de arranjos. Um fim épico que eu não cheguei a gostar inicialmente, ficando realmente decepcionado por ver um disco tão incrível sendo rebaixado justamente pela sua última faixa, mas ainda bem que a primeira impressão neste caso não ficou. É possível notar alguns temas se repetindo – principalmente de “Higher Than The Morning”. Bastante sinfônica, possui uma harmonia de aura capaz de ilustras muito bem o final de uma longa jornada, seja através de si mesmo, do mundo, de um caminho de trevas, não importa, pois finalmente chegou o momento de entrar na luz. 

The Absolute Universe apenas com “The Breath Of Life” já poderia ser considerado uma obra completa e irretocável, podendo receber e com louvor muitos elogios ao redor do mundo por toda a comunidade de amantes do rock progressivo. Porém, ainda possui outras a versões e que faz com que o feito da banda seja ainda mais impressionante. Eu ofereceria tranquilamente este disco para qualquer explorador como um dos melhores do gênero atualmente. Mais uma vez o Transatlantic soube produzir um álbum recheado de melodias, harmonias e arranjos engenhosos, além de musicalmente quase sempre complexo e desta vez de um conceito lírico contemporâneo.

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