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Resenha: Selvática (2016)

Álbum de Karina Buhr

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Inquieto e contestador

Por: Roberto Rillo Bíscaro

29/01/2021

Karina Buhr é inquieta baiana que já trabalhou com artistas tão díspares quanto Marina Lima, Antônio Nóbrega, Mundo Live S/A e bandas de pífanos. Ecletismo musical soma-se à variação no cardápio expressivo: ela já atuou no Teatro Oficina, de José Celso Martinez Correa, aquele mesmo que encenou O Rei da Vela pela primeira vez, em 1967. Além disso, também escreve e desenha.

Lançando álbuns desde 2010, seu terceiro polemizou antes mesmo de chegar ao mercado, porque a capa de Selvática traz a moça de tetas de fora. Numa conjuntura em que isso é arrojo, Buhr recusa-se a seguir caminho de cantora de MPB tradicional e seu álbum traz convidados do rock como o guitarrista Edgar Scandurra, do oitentista Ira! e Cannibal, do Devotos do Ódio. 

Recusando o papel de recatada e do lar, Selvática traz letras contestadoras da submissão feminina ao macho e à família, mais explicitamente na faixa-título, que fecha o álbum com declamações de Denise Assunção e Elke Maravilha, sobre base de guerrilha noise pop, subgênero que também informa Conta Gotas. Buhr cospe no papel de princesa por sobre guitarras psicodélicas em Eu Sou Um Monstro e desmascara a chatice da idealizada família, propriedade e tradição, em Pic Nic, que não soaria deslocada no repertório da inglesa alternativa oitentista cyberpunk Anne Clark.

Esôfago tem clima psych rock e Cerca do Prédio é punk music denunciando a especulação imobiliária na metrópole. No lugar do Destroy, de Johnny Rotten, o “chega de prédio”, de Cannibal. Dragão flerta com reggae, ritmo sobre o qual Karina cai de boca em Alcunha de Ladrão. Vela e Navalha tem guitarra-pernilongo bluesy e para quem acha que álbum nacional tem que fazer referência à prata da casa, Rimã tem clima nordestino. Mas, está abstraído na percussão, que junto com guitarras oniricamente etéreas e intervenção de trompete à Belle and Sebastian, popifica o Nordeste. Grande sacada.

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