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Resenha: Systematic Chaos (2007)

Álbum de Dream Theater

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Com mais acertos do que erros, no geral é um disco honesto e bem elaborado

Por: Tiago Meneses

20/01/2021

Acho que todo mundo já ouviu de alguém que determinado álbum é bom do começo ao fim, né? Bom, minhas primeiras experiências com Systematic Chaos foram bem diferentes disso, sendo o começo e o fim os únicos momentos que consegui tirar proveito dele. Mas as pessoas que já leram resenhas minhas aqui no site já devem ter percebido que quando se trata de música, ao menos comigo, nem sempre a primeira impressão é a que fica. 

A partir do Awake a banda passou a criar discos em que eles se aproveitam bastante da mídia do CD, sendo obras sempre longas, com direito a um álbum duplo, Six Degrees of Inner Turbulence de 2001. Aqui a banda levou esta máxima ao limite entregando uma obra de 79 minutos. Isso consegue ser mais longo do que muitos discos duplos de rock progressivo do passado. Isso também é sempre um risco, pois é preciso uma maior dedicação para que as coisas não caiam em um virtuosismo sem propósito – se bem que muitas pessoas já acham isso da banda de qualquer forma, mas neste caso falo de pessoas que assim como eu são fãs do grupo. 

Dream Theater é uma banda que com o tempo sempre se mostrou a favor da ideia de formar uma nova base de fãs, porém, sem qualquer risco de perder os mais antigos, pois ao reformularem seu estilo musical a banda não o faz radicalmente. Da mesma maneira que quase uma hora e vinte de disco pode se tornar uma escuta monótona, pode também ser uma boa recompensa ao que mergulharem de cabeça na proposta. 

“In the Presence of Enemies, Pt. 1” é aquele tipo de som que nos seus primeiros segundos podemos chamar de Dream Theater clássico – ao menos nos dias de hoje. Muita técnica e desempenhos majestosos de cada um dos instrumentistas, até que pouco mais dos dois minutos há uma quebrada quase hipnotizante. Talvez não seja um dos melhores solos do Petrucci, mas acho muito eficaz a ideia de dar para o ouvinte uma melodia lenta para ele se agarrar. Possui algumas mudanças de andamentos que estão no meio termo entre muito repentina e previsível. Os solos de guitarra e teclado na sua parte final são perfeitos. No geral é uma faixa que consegue prender a atenção do ouvinte por toda a sua extensão (sendo sempre mais interessante ouvir as duas partes seguidas uma da outra). O final da música é através de alguns barulhos de vento que pode ser comparado talvez a algo que foi usado para juntar as duas metades de "Shine on You Crazy Diamond" do Pink Floyd. Uma faixa bastante sólida. 

“Forsaken” é uma canção na linha de uma balada, mas com seus momentos tranquilos sendo “incomodados” às vezes por uns riffs de guitarra mais pesados. Mais uma faixa a princípio sólida e cativante, inclusive, eu tenho que elogiar os vocais de Labrie aqui – até porque isso é algo que eu não costumo fazer muito. Mas depois tudo fica no máximo ok, a banda certamente já fez músicas compactas bem mais interessas, sem contar que no geral o resultado não é muito dinâmico, com várias repetições e a utilização de uns sintetizadores meio – exageros a parte – cafonas. 

“Constant Motion”, se este disco tem alguns problemas, certamente aqui é onde se encontra o primeiro deles. O riff inicial é extremamente heavy metal para uma banda que também é progressiva. E quando os vocais entram? Se na faixa anterior eu elogiei o Labrie, aqui eu fico me perguntando até hoje o que ele estava querendo, só sei que acho que nunca o Dream Theater soou tão igual outra banda – Metallica neste caso – como neste caso. A mudança de ritmo quase nos quatro minutos soa muito clichê, principalmente se estivermos falando de um álbum progressivo, porém, tenho que mencionar que o solo de guitarra colocou um pouco de dignidade na faixa. Mas no geral é bem fraca. 

“The Dark Eternal Night” é sem dúvida uma das faixas mais pesadas em todo o longo catálogo da banda. O riff da introdução é simplesmente memorável – lembrando até mesmo o estilo de Dimebag Darrell – junto de algumas batidas explosivas. Infelizmente – e novamente - é nos vocais que cai mais uma das reclamações, a ideia de deixa-los distorcidos não foi boa – na verdade eu sempre achei que o Portnoy tem que se preocupar em apenas tocar bateria que é o que ele faz como poucos. Perto dos três minutos e meio a música entra naquelas peças demonstrativas de muito virtuosismo pelo qual a banda é conhecida, não há como ouvir isso e não logo associar ao Dream Theater. Porém, em determinado ponto deste “medley” há um momento pouco inspirado de riff de guitarra e uma bateria trituradora que até poderia ser bem vinda em outro momento. O riff mais lento quando a música vai chegando próxima do fim é bem legal. Resumindo, se trata sim de uma boa música, mas com algumas ressalvas já mencionadas. 

“Repentance” é a quarta parte da “Twelve-step Suite” e começa com um riff encontrado também em “This Dying Soul”, faixa do Train of Thought e que é a segunda parte da saga. Então os vocais aparecem de uma maneira linda e ar depressivo. Até chegar quase na sua metade, a música pode ser vista como algo meio repetitivo, mas mesmo assim, não chega a ficar maçante ou algo do tipo. Interessante mencionar também é que as três faixas anteriores e que também fazem parte da “Twelve-step Suite” são faixas pesadas, enquanto que “Repentance” vai se desenvolvendo em uma linha parecida com o Opeth – em seu lado mais acústico. Pouco antes da metade, um solo lindo de guitarra paira sobre o ambiente sombrio moldado pela faixa. Depois disso entra a parte em que inúmeros convidados como Steve Wilson, Mikael Akerfeldt, Neal Morse e Daniel Gildenlow participam com pequenas falas em que eles mencionam momentos de suas vidas que eles se sentem culpado, sendo este momento usado para pedir desculpas pelo que fizeram. Embora estejamos falando do Dream Theater, a única coisa que eu que eu questionaria na faixa é o seu tamanho, isso pelo simples fato dela ser de certa forma meio “arrastada” e de pouca variação. De qualquer forma, uma faixa muito boa. 

“Prophets Of War” é uma faixa escrita por James Labrie e que marca pela terceira vez uma abordagem da banda entorno de conceitos líricos de religião e guerra, sendo que nas outras duas vezes foram, em “In The Name of God” do disco Train Of Thought de 2003, onde falam sobre falhas no extremismo religioso em todas as formas, e em “Sacrificed Sons” do disco Octavarium de 2005 em que homenageiam as vítimas do terrorismo em todos os lugares do mundo. “Prophets Of War” atua como uma espécie de propaganda politica velada sobre as razões da guerra. Em determinado momento na música existe a pergunta, “estamos lucrando com a guerra?”. Mas sabem o motivo de eu até agora só ter falado dessas letras e temas abordados? Pois é a única coisa que resta a fazer diante de uma música tão ruim igual a essa, falar sobre a sua letra e tentar tirar proveito de algo. Definitivamente – e de longe – a pior música da banda. 

“The Ministry of Lost Souls” começa com umas linhas sombrias de guitarra, teclados sinfônicos, além de baixo e bateria muito bem enérgicos, então a faixa continua em um arpejo de guitarra que faz com que eu me lembre da banda na sua melhor forma. Durante a sua maior parte a faixa se desenvolve em uma balada de base pesada, digo sua maior parte, pois não poderia faltar a resposta de uma clara pergunta do ouvinte, algo como, “cadê o progressivo desta música?”, então que é neste momento que a banda mostra que se tem algo que eles sabem fazer é criar músicas imprevisíveis. Após esta “aula”, a faixa entra em um riff sincopado de guitarra em que novamente é perceptível o Opeth regando o terreno musical da banda. Vale destacar também os solos de sintetizadores como sempre muito bem tocados. Depois a faixa entra novamente na assombrosa linha de guitarra que foi tocada no começo da faixa, seguido por um canto bastante suave de Labrie. O final da faixa também é impressionante, fazendo lembrar um pouco, “Finally Free”, por conta dos vários ataques furiosos de bateria enquanto acompanha a guitarra. 

“In the Presence of Enemies, Pt. 2” como o nome já deixa explícito, é a segunda parte da faixa que abriu o álbum. Os ruídos atmosféricos que encerraram a parte 1 estão de volta iniciando a parte 2, acompanhado de algumas discretas notas do baixo e os primeiros vocais de Labrie que em sua primeira aparição entram de forma silenciosa e em um tom cheio de lamento.  A maneira como a banda vai tocando a música é bastante despretensiosa, aumentando a tensão gradualmente e lembrando a mesma fórmula usada na épica “Octavarium”. A primeira metade da música possui uma qualidade inferior à segunda, porém, isso pra mim não é problema algum, já que costumo sentir isso em todos os épicos da banda. Por volta dos nove minutos, um belo riff de guitarra faz a transição musical para que a faixa mergulhe em um movimento progressivo instrumental estendido. Em meio a este batalha instrumental, surge um solo de guitarra ao melhor estilo John Petrucci, seguido por um solo de sintetizador com a assinatura Jordan de complexidade. Todas essas invertidas técnicas duram cerca de três minutos e meio até a banda cair em uma melodia mais lenta. Os vocais do Labrie quando voltam estão muito bons e soam temperamentais. Costumo dizer que, “In the Presence of Enemies”, pra ser sentida e apreciada de forma plena, tem que ser ouvida como uma obra de 25 minutos e não separadamente – embora elas estejam assim no álbum. Apesar do meu épico preferido da banda ser a “Octavarium”, não tem como negar que aqui estamos diante de um épico fortemente orquestrado e sinfônico, além de extremamente consistente.  

Passei a ser mais compreensível com este álbum e hoje o considero um bom disco – mais do que isso acho que seria exagero -, algo que passou longe das minhas primeiras impressões, onde somente “In the Presence of Enemies” parecia existir, enquanto que eu ignorava por completo as demais faixas. Systematic Chaos talvez seja onde exista a montanha russa com mais subidas e descidas entre todos os discos do grupo – pelo menos em relação aos álbuns do que podemos chamar de era Portnoy -, no mesmo tempo que possui momentos magistrais, também carrega outros nada inspirados, incluindo a pior música da banda. Com mais acertos do que erros, no geral é um disco honesto e bem elaborado.

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