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Resenha: If/When (2019)

Álbum de The Tea Club

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Uma realização marcante e emocionalmente expansiva

Por: Tiago Meneses

14/01/2021

The Tea Club é certamente um dos baluartes quando falamos de rock progressivo moderno, fazendo de muito uso de sutileza para chegar aos resultados de musicas quase sempre de atmosfera refinada, mas também complexas, ainda que sem nunca se deixar ceder ao excesso que a maioria das bandas progressivas tendem a possuir e que costuma ser o alvo das críticas das pessoas que não tem paciência para o gênero, ou seja, The Tea Club pode agradar tanto os fãs mais habituais da música progressiva quanto aqueles mais neófitos neste universo. If / When, quinto disco da banda, é incrível, e o que o torna tão belo é a maneira como ele se concentra naqueles momentos mais suaves e atmosféricos de trabalhos anteriores e, em seguida, os expande, levando um aspecto central de sua identidade ainda mais longe, por completo e percebendo quanto potencial eles possuem na criação de melodias tão doces misturadas com os aspectos técnicos e de exploração pelos quais o progressivo é conhecido.

“The Way You Call” é a faixa que dá inicio ao disco. Logo de cara ela mostra porque os irmãos Daniel e Patrick McGowan podem facilmente ser considerados dois dos melhores vocalistas atuais do rock progressivo. A entrega central dos vocais é delicada, mas a faixa obviamente não tem apenas isso como atrativo, sendo inteiramente acústica, sem nenhum sinal de percussão ou algo parecido, apenas um violão e um vocalista criando algumas melodias extremamente lindas. 

“Say Yes” é uma faixa de clima muito mais otimista do que a de abertura, exibindo certo toque de rock alternativo através um excelente uso de guitarra. Apesar de ser uma faixa bastante acessível, ela se move de riff em riff em um ritmo alucinante, extremamente edificante e enérgico. A produção é muito limpa e tudo é distinto e perceptível. Os teclados também merecem menção, pois embora haja uma presença deles ao fundo preenchendo mais o som, são todos usados com certa moderação, conseguindo aumentar ainda mais a potência e energia da faixa, mostrando que a banda costuma exercer o uso efetivo de cada instrumento.

“If I Mean When” é uma música mais direta e que gira entorno de uma melodia vocal incrível, com o uso de um leve eco que faz com que soe de uma maneira de tirar o fôlego. A linha de baixo é suave, as harmonias vocais são belíssimas, os toques sutis de lindos teclados, tudo nesta música está devidamente no lugar e não tem como defini-la com outra palavra que não seja perfeita.

“Rivermen” é um dos melhores momentos do disco – o que é um grande feito dentro de um disco que só tem melhores momentos. Começa de forma extremamente suave assumindo uma abordagem mais discreta, e com isso, fornecendo uma atmosfera muito misteriosa. Mas eles surpreendem quando o volume vai aumentando de maneira gradual e a sonoridade atmosférica culmina em um clímax intenso. Uma batida eletrônica é introduzida na metade da faixa e a bateria ganha mais velocidade, complexidade e agressividade, guitarras em ritmos acelerados e vocais poderosos contribuem para que esta seja a faixa mais pesada na discografia da banda. 

“Came at a Loss” traz o álbum novamente para um ambiente mais simplista, muito disso evidenciado sobre tudo pelas belas melodias vocais, principalmente no refrão que é bem acentuado por incríveis harmonias vocais, inclusive, uma música que tem um refrão marcante é algo que simplesmente amo – já até falei isso algumas vezes aqui no site. “Sinking Ship” é mais uma música bastante bonita, embora eu admita que seja menos marcante e notável do que todas as anteriores, as melodias não soam tão fortes, mas seu tom mais feliz consegue deixar a música adorável. 

“Crearture” é o épico de quase vinte e oito minutos e que encerra o disco com chave de ouro. Sem a menor dúvida que se trata da música mais ambiciosa da banda em toda a sua carreira. Mas por incrível que pareça, apesar do seu tamanho, não possui qualquer tipo de enchimento e todos os seus pontos são muito bem explorados, fazendo o uso total de sua duração. Começa lentamente, alternando entre vocais e alguns toques regulares de teclado, com cada retorno dos vocais trazendo com eles um pouco mais de profundidade, isso antes que o baixo e bateria surja e mude a melodia, mas que dura muito pouco, pois a suave melodia vocal do início acaba retornando, mas agora com um foco maior na percussão enquanto que todo o resto desaparece. A bateria retorna e então podemos dizer que de fato a música começa, com o seu ritmo ficando mais rápido – mas ainda de atmosfera serena.  Baixo e teclado trabalham com uma excelente interação. A música se desvanece em uma sonoridade ambiente, toques de violão, teclado sustentando alguns strings como que estivesse evocando uma luz de dentro de uma caverna, sons que parecem querer representar gotas de água caindo do teto em poças, enquanto isso o ouvinte sente uma sensação de tranquilidade e paz. Esta parte foi uma enorme experimentação, sendo isso algo completamente surpreendente se levarmos em conta que até o momento as músicas do álbum foram tradicionalmente progressivas em vários aspectos. A música então salta para um movimento muito mais pesado dando ao ouvinte uma sensação de rock clássico e lembrando também passagens instrumentais do Flower Kings. Esta seção é realmente muito densa e barulhenta, com tudo soando de certa forma até confuso – por isso requer atenção para entender o que acontece. Essa surpresa em relação esta passagem aumentou ainda mais quando a banda foi totalmente prog metal, algo que eu nunca esperei ouvir quase trata da banda, porém, isso foi bem vindo, pois elevou o que já era uma música promissora. Após momentos de grande intensidade a banda vai regressando novamente para um clima com mais uso de instrumentos acústicos, sendo algo bastante eficaz. Para encerrar tudo, o álbum termina de forma cíclica, tendo ainda em seu fim, tempo para uma grande sacada trazendo uma reprise de “The Way You Call”. Não estarei exagerando ao falar que considero este um dos melhores épicos de rock progressivo que já ouvi na vida, uma música que mostra muita experimentação sem nunca tirar a sua diversão. O auge do talento de cada membro da banda. 

No geral, If/When é um disco intenso e belo, suas lindas melodias conseguem ser doces e agradáveis sem soar melosas, e tudo é composto para ser cheio de detalhes sem ser muito evidente. O seu brilho está em sua capacidade de satisfazer gostos múltiplos sem nunca parecer desfocado ou impenetrável. É sempre impressionante por um motivo ou outro. E prova mais uma vez por que o The Tea Club deve ser celebrado por admiradores de qualquer - senão todas – as formas da música progressiva.

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