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Resenha: Dwellers Of The Deep (2020)

Álbum de Wobbler

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Rock progressivo ferozmente aventureiro

Por: Tiago Meneses

08/01/2021

Em 2017 os noruegueses da Wobbler, através do seu disco, From Silence to Somewhere, assombraram o mundo do rock progressivo e produziram uma das melhores obras dos últimos pelo menos 30 anos. Se isso não fosse o bastante, a banda em 2020 através do seu Dwellers of the Deep, novamente colocou o seu nome no topo de listas de melhores do ano – e também dos últimos 30 anos. O álbum nos oferece um equilíbrio ideal entre influências em composições do passado e do presente. Encontramos, portanto, reminiscências em Anglagard, Gentle Giant e principalmente Yes nas composições, sendo cada uma mais brilhante que a outra. Impressionante como eles têm todos os sabores auditivos do passado, mas ao mesmo tempo nos servem algo novo. 

“By the Banks” é a faixa de abertura do álbum. Inicia de uma maneira bombástica, algo que virou uma característica da banda. A execução do órgão embora a princípio seja esperada que soe na linha do Yes, neste caso parece mais com os de John Evans no Jethro Tull do que qualquer coisa, o que faz com que de certa forma acabe sendo uma boa e surpreendente mudança de ritmo. Esta é daquele tipo de faixa que não tem medo de pular de um silêncio sutil de piano de cauda para uma linha de guitarra enérgica com overdrive, e que possui uma boa mistura de riffs ritmicamente complexos com a jovialidade de harmonias jubilosas extremamente bem construídas. Só este início já valeria um disco inteiro. 

“Five Rooms” foi a música que a banda escolheu para ser o single do álbum, sendo lançada antes das demais, mostrando quase tudo que faz com que amemos a banda. Os instrumentos analógicos conseguem criar uma combinação sonora que no mesmo tempo que parece nostálgica, também parecem ser usadas de forma futurista. Após pouco mais de um minuto de introdução, os vocais entram na faixa e começa um ótimo riff de guitarra, bateria enérgica e um baixo que passeia livremente sob uma melodia extremamente cativante. Por alguns instantes a guitarra de Marius Halleland apresenta até mesmo uma fragmentação de heavy metal. Tudo é incrível, com certeza se a banda existisse quando o progressivo estava no coração da música popular eles seriam ícones. 

“Naiad Dreams” é aquela faixa que seria um pecado falar que é a mais fraca do disco, até porque este disco não tem nenhum ponto fraco, sendo que talvez a única coisa que eu gostaria que ela fosse era um pouco maior. O trabalho de guitarra de abertura faz com que o álbum brilhe dentro da melancolia proposta pela banda. De certa forma serve como um ponto de descanso após tanta intensidade nas duas faixas anteriores. O trabalho feito nesta faixa é do tipo cinematográfico, belíssimo e também assustador, servindo não apenas como um enchimento, mas como uma ferramenta de aumento de tensão que precede a obra-prima do disco. 

“Merry Macabre”, quando ouvi esta música pela primeira vez eu fiquei simplesmente estarrecido, sem palavras ou qualquer tipo de reação, lembro também de ter ficado todo arrepiado. Dentro do meio de amantes mais analíticos de rock progressivo – algo que inclusive me coloco no meio – esta música não apresenta uma originalidade cinco estrelas, tudo bem, mas ainda assim ela está lá e muito bem desenvolvida. Todos os dezenove minutos deste épico é muito bem digerível por qualquer fã de rock progressivo. A estrutura criada pela banda é exatamente como o Yes criaria na sua época de ouro em se tratando de um épico deste tamanho. Muito parecido com suítes grandiosas do passado, esta música consegue caminhar devagar e fluir através de uma miríade de movimentos cada um mais insano que o outro. Assim como o resto do álbum, é incrivelmente dinâmica, e como sempre, centrada nos sons de uma vasta coleção de teclados de Lars Fredrik Frøislie e nos vocais de Andreas Prestmo, sendo tudo o que de há mais majestoso no rock progressivo sinfônico contemporâneo. Quando a faixa chega ao fim, percebemos que esta não é apenas uma banda que melhorou, mas que saltou à frente de basicamente todos os seus concorrentes no processo.

Qual conclusão tirar após uma audição desta? Esta banda está em uma trajetória simplesmente emocionante, onde eles têm todos os sabores musicais do passado, mas os estão servindo para nós como algo novo e fresco. Se esse álbum tivesse sido lançado na década de 70, poderia ser um clássico hoje em dia, porém, lançado agora, certamente será um clássico absoluto no futuro. Não é apenas altamente recomendado, mas também obrigatório para todos os fãs de rock progressivo clássico que procuram bandas da nova safra que honre os seus ídolos do passado, sem necessariamente emular os seus sons, mas oxigenando suas músicas com algo novo e garantindo o futuro do gênero.

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