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Resenha: Light of Day, Day of Darkness (2002)

Álbum de Green Carnation

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Pretensioso, longo e magnífico!

Por: Tarcisio Lucas

30/01/2018

Alguns estilos dentro do rock e do metal se tornaram bastante conhecidos por conta da longa duração de suas faixas. Na década de 70, as bandas de rock progressivo usavam e abusavam das faixas longas para passarem sua mensagem. Como exemplo, temos a banda Yes, que chegou a lançar discos com 3, 4 faixas cada. Bandas como Emerson, Lake and Palmer, Pink Floyd entre outras também criaram suas obras monumentais. Em tempos mais recentes, o Doom Metal e o Prog Metal também deram suas contribuições no quesito "longa duração" (fãs de Dream Theater que o digam...).
Mas, de maneira geral, quando as faixas eram realmente longas, era - e ainda é - costume subdividir a composição em várias partes menores, como se fossem uma suíte ou algo do tipo.
Nesse disco, "Light of Day, Day of Darkness", tal sutileza não foi utilizada: o que temos aqui é, literalmente, uma única faixa, sem subdivisões, e que ultrapassa os 60 minutos.
Cumprindo essas especificações, podemos dizer que se trata de uma das mais longas músicas oficialmente lançadas dentro da história do Metal, o que por si só desperta curiosidade.
Uma obra dessa magnitude poderia facilmente se tornar monótona, chata, arrastada. E é justamente nisso que reside o grande trunfo da banda: contra todas as probabilidades, trata-se de uma audição agradabilíssima, que passeia por uma série de gêneros distintos - sendo que o Doom, o gótico e o progressivo são os mais evidentes - e tão cheia de passagens distintas que essa 1 hora parece passar rapidamente.
Foi, de fato, um projeto megalomaníaco: além dos músicos da banda, mais de 60 músicos participaram das gravações! Temos aqui praticamente todos os instrumentos típicos de uma orquestra, todos colocados de forma muito sutil e bem feita dentro das composições.
Apesar da banda ser formada por músicos famosos dentro da cena black metal da Noruega, nada aqui sugere a rispidez do estilo;  o que temos é um disco sensível, com letras poéticas e que poderiam estar em qualquer coletânea de poesias góticas.
A musica evolui aos poucos, tendo desde momentos atmosféricos até passagens pesadas, cheias de riffs de guitarra.
Outro fator que merece ser dito é relação entre a apresentação visual do material e a sonoridade. Em tempos de mp3 e downloads, infelizmente esta relação está se perdendo, uma vez que realmente é possível ter contato com as obras das bandas de forma compartimentada. Não vou fazer papel de velho chato e julgar que os tempos antigos eram melhores e todo esse discurso; os tempos mudaram, seria inevitável que toda a nossa forma de consumir música também mudasse. Apenas acho que os novos meios digitais devem tentar trazer a experiência visual também, uma vez que em alguns casos realmente faz parte da obra como um todo.
Aqui temos um exemplo claro disso: a capa do disco é belíssima, e traduz de forma absurdamente precisa o clima das composições. No encarte original, uma série de fotos também ajudava nesse clima. Uma coisa que percebi, uma vez que tenho esse CD em versão física, bem como o disco anterior da banda, o "Journey To the End of the Night", é que em ambos existem diferenças nas letras, entre o que está sendo cantado e o que está  escrito. Não sei se isso foi proposital ou se foi um erro, mas é algo interessante.
Ainda que eu tenha classificado esse álbum como gótico/doom metal, verdade é que é impossível de fato etiquetar o som aqui apresentado. De fato, acredito que a melhor definição seja:"Boa música".
Mesmo sendo um disco tão diferente, ainda assim recomendo a escuta mesmo para quem nunca ouviu o Green Carnation anteriormente. Creio ser este, de longe, o melhor trabalho da banda, seguido depois pelo já citado "Journey To the...".
Após esse lançamento, a banda decidiu apostar em composições mais tradicionais, e com uma abordagem mais voltada para o gothic metal de bandas como To Die For, Entwine e afins, lançando discos bons também, mas que não tinham a beleza que encontramos aqui.
Enfim, um disco único na história do metal, pretensioso, megalomaníaco, genial, profundo e absurdamente musical.
Recomendo fortemente!

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