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Resenha: Joy Comes Back (2017)

Álbum de Ruthie Foster

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O prazer de um álbum perfeito

Por: Roberto Rillo Bíscaro

14/12/2020

Ruthie Foster, texana de pequena cidade rural, começou a desenvolver seus elogiados dotes vocais na igreja que frequentava, em Gause. Oriunda de família de cantores gospel, desde cedo soube que na música estaria seu ganha-pão. E o vozeirão não demorou a despertar atenções, dentre elas da megagigante Atlantic Records, que lhe ofereceu contrato.

Lá se foi a fã de Aretha Franklin para Nova York, onde descobriu que a gravadora queria domesticar seu blues para transformá-la em outra semi-sensação pop. Ao invés de se tornar estrelete e passar o resto da vida reclamando do sucesso, da máquina devoradora de almas e todo esse choramingo, Foster fez mais simples: disse não e voltou ao Texas, para a maiorzinha Waco, onde iniciou frutífera parceria com o selo Blue Corn Music. O respeito crítico e a lista de indicações a e premiações ratificam a sapiência dessa escolha.

Foster já foi comparada com sua “ídala” Aretha e você pode conferir porque ouvindo seu décimo álbum, Joy Comes Back, lançado dia 24 de março, de 2017. Com músicos de primeira, Foster gravou nove covers e um original de sua autoria. Uma das coisas que mais impressiona é a firmeza com que se apropria dos modos de cantar gêneros distintos do rico caleidoscópio da Americana. Quando manda um country ou um R’n’B dá para jurar que Foster cantou só isso a vida toda, tamanha a profundidade e riqueza das interpretações.

O álbum abre com What Are You Listening To?, balada country contemporânea de apertar repeat e demorar para seguir adiante, mesmo que se constate depois que fazê-lo foi quase um pecado. O resto de Joy Comes Back é igualmente belo: o gospel da faixa-título; o blues tradicional do delta do Mississippi, de Richland Woman Blues; a baladaça final, Forgiven. Os momentos mais explicitamente políticos são poderosos e Foster solta a voz e o verbo. Working Woman e War Pigs (dos metaleiros Black Sabbath) são blues rocks countrificados; o primeiro sobre empoderamento feminino e o segundo um libelo antibélico.

A concepção e gravação de Joy Comes Back coincidiram com batalha judicial pela guarda do filhinho, mas isso não entristeceu o trabalho, basta atentar para o título. Loving You Is Sweeter Than Ever é claramente cantada para a criança, mas o otimismo Motown dessa canção de Steve Wonder revigora. A única composição própria, Open Sky, navega pelas águas tranquilas e elegantes do urban soul.

E por falar em navegar, Foster juntou-se à Marinha quando jovem, para conhecer o mundo. Lá passou a integrar uma banda da corporação. Além da voz preciosa, cantar ao vivo deu-lhe a tarimba para velejar de um subgênero a outro com tanta classe e desenvoltura. E na balada country rock Good Sailor, Foster achou letra que reflete perfeitamente sua ex-profissão e a vida difícil: Easy living never did me no favors/smooth seas never made a good sailor. Outro milagre para dar curto-circuito no repeat.

Sem uma nota fora do lugar ou arranjo sub/superaproveitado, Joy Comes Back é perfeito até no título: traz de volta o prazer da música orgânica, bem cantada e não berrada, nessa época tão autotunada e de calouro esgoelando sem profundidade vocal alguma.

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