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Resenha: Seasons Of My Soul (2010)

Álbum de Rumer

Pop

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Uma diva quietinha

Por: Roberto Rillo Bíscaro

06/12/2020

Basta dar uma sacada nesses programas televisivos que tentam revelar futuros ídolos para perceber que os calouros acreditam que quanto mais berrarem, mais famosos e divos serão. O critério para vitória deve ser no medidor de decibéis. Não que não aprecie uma boa gritaria; mas temos de convir que caixa torácica avantajada muitos possuem. Agora, virar Loleatta Holloway é pra seletos.

Sorte que sempre tem gente na contramão. É o caso de Rumer, nascida no Paquistão, filha de ingleses. Ao invés de se esgoelar, a moça canta mansa e aveludadamente. Quietinha, já papou fãs como Burt Bacharach – herói confesso da moça – que a convidou para cantar em sua mansão californiana. 

Seu primeiro álbum, Seasons of My Soul, foi aplaudido pela crítica. Rumer pode ser anglo-paquistanesa, mas suas raízes musicais são o easy listening norte-americano dos anos 30 aos 80 e algum soul anos 60. Carole King e Dusty Springfield estão no mapa genético musical de Rumer.

Laura Nyro influencia nas composições e vocais, basta conferir a música de abertura, Am I Forgiven? Vocalmente, porém, a semelhança em algumas faixas com a trágica Karen Carpenter é assombrosa. Parece que a vocalista dos Carpenters ressuscitou de sua morte anoréxica para cantar via Rumer. Slow é prova disso.

Antes de ser mera cópia ou xodó retrô, Rumer tem personalidade. Espere até ela cantar a frase “but there’s a blackbird singing”, em Blackbird. Nyro e seu gospel estão lá, junto com Karen, mas quando Rumer canta a frase citada é como se as portas do paraíso se abrissem. Pura epifania.

As letras são de amor ou confessionais. Qualquer um que tenha tido infância/adolescência complicada cairá de paixão por Aretha, soul-bacharach, onde Rumer canta sobre alguém que se refugiava no som da diva Aretha Franklin para escapar das barras pesadas. 

A matriz easy listening pode ser explicitamente ouvida na seleção de covers (algumas presentes apenas na De Luxe Edition). Ela supera David Gates, do Bread, na setentista Goodbye Girl e não faz feio na oitentista It Might Be You, de Stephen Bishop, que fica mais delicada. Só não bate Dione Warwick, em Alfie (de Mestre Bacharach, quem mais?!), mas não estraga a canção.  

Em tempos em que programas de TV fabricam pseudo-cinderelas e muita gente acredita que a farsa é real, Rumer vem suave e com qualidade provar que no final das contas, são as fadas que têm o poder de encantar.

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