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Resenha: Grace for Drowning (2011)

Álbum de Steven Wilson

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Um disco fascinante e sombrio criado por um gênio da música moderna

Por: Expedito Santana

02/12/2020

Não é raro surgirem discussões vindas da crítica especializada sobre o rótulo de genialidade na música, temos algumas aqui no Brasil, que colocam, por exemplo, Chico Buarque e Antônio Carlos Jobim no panteão de artistas de caráter eminentemente criativo e extra série. Lá fora, esse debate também não deixa de ocorrer, com gente da estirpe de Frank Zappa, Robert Fripp, Daniel Gildenlöw do Pain of Salvation e o próprio Steven Wilson, sendo alçada à condição de mente brilhante da música. 

Ainda que por vezes eu considere essa “premiação informal” desnecessária e improdutiva, da mesma forma que estabelecer comparações entre bandas que distam historicamente e estilisticamente uma da outra, existem artistas que praticamente não deixam outra alternativa quando necessário referir-se às suas aptidões artísticas, a não ser aplicando-lhes o rótulo de gênio.  

Não obstante inexistir critério eficaz para definir a genialidade ou a ausência dela, já que tal denominação, em muitos casos, variará em razão do gosto e preferência de cada um, sem esquecer que a arte é sempre apreendida de maneira muito subjetiva, e o que posso considerar uma obra-prima, pode ser visto como uma bela porcaria por outro, diante de certos feitos, contudo, a tentação de usar o adjetivo gênio é quase irresistível, ainda que não se afaste com isso o seu caráter relativo. E é movido por esse desejo de adjetivação que fico perante essa excelente obra de Steven Wilson, intitulada "Grace For Drowning". 

Esse artista sempre consegue manejar a sua mente criativa para surpreender a todos com trabalhos irretocáveis, tanto na Porcupine Tree, No-Man e Blackfiled, quanto na sua própria carreira solo. Steven é um verdadeiro desbravador de novas paisagens e recônditos musicais, parecendo propor uma viagem inusitada pela estrada da sua imaginação musical fértil e artística.

Pra quem não conhece Steven Wilson, além de músico, cantor e compositor, ele também é produtor musical e engenheiro de áudio, um multi-instrumentista autodidata que toca guitarra, teclado, baixo, harpa automática, dulcimer martelado e flauta. Seu conhecimento musical vai além do rock progressivo, envolvendo ainda influências em diversos gêneros musicais, incluindo psicodelia, pop, metal extremo, eletrônico e jazz, entre outros.  Ele já trabalhou com diversos artistas: Opeth, King Crimson, Jethro Tull, Yes, Fish, Marillion, Tears for Fears, Anathema, entre outros. Teve ainda a honra de ser responsável por remixes de grandes clássicos do rock progressivo clássico, como “In the Court of the Crimson King”, “Aqualung” e “Close to the Edge”. 

"Grace For Drowning" é segundo álbum solo de Wilson, foi lançado em setembro de 2011 nos formatos CD, vinil e Blu-ray, produzido e mixado pelo próprio. É um álbum duplo dividido em duas partes intituladas “Deform to Form a Star” e “Like Dust I Have Cleared from My Eye”. Conta com diversas participações especiais: Steve Hackett, ex-Genesis; Tony Levin, Pat Mastelotto e Trey Gunn, do King Crimson; Theo Travis, da banda Gong e o tecladista Jordan Rudess, do Dream Theater, entre outras. Um grupo que abrilhanta muito essa obra e que parece inspirar intensamente o gênio de Steven em sua jornada sonora, que muitas vezes remonta às influências setentistas progressivas que ele tanto aprecia. 

Este álbum conceitual enigmático enfoca o conto tenebroso de um homem que vai ao fundo do poço e se afoga em sua miséria, transformando-se em um sociopata com tendências assassinas. Em termos musicais, na primeira parte do disco, as sonoridades variam bastante entre o jazz e o prog rock mais tradicional. 

“Grace For Drowning” abre o disco, consiste numa peça curta calcada no piano garboso de Jordan Rudess e um vocal suave, funcionando como uma introdução que não denuncia os tons mais sombrios que serão descobertos ao longo da jornada.   

“Sectarian” até começa num ritmo mais tranquilo e batida repetitiva, com notas de violão acústico e reverberação da guitarra elétrica, e eis que logo em seguida assume uma cadência vigorosa reforçada pelo trabalho percussivo, muito bom por sinal, do baterista Nic France, contando ainda com o teclado climático de Wilson. Uma atmosfera mística que também encontra ressonância nos vocais em coral e explosões de guitarras mais briosas e baixo charmoso, que não deixam de lembrar o King Crimson. Os teclados de Wilson conferem um clima absolutamente tenso, sem falar no sax soprano de Theo Davis e o clarinete nebuloso de Ben Castle. Uma grande faixa, rock progressivo da melhor qualidade, incluindo mudanças de andamento, instantes jazzísticos, sessões ambientais em profusão e ataques instrumentais repentinos. Aqui já é possível perceber a verdadeira identidade do disco.  

“Deform To Form A Star” tem um piano encantador de Rudess, com Wilson cantando em entonação bastante terna, fluida e límpida. As letras apresentam o protagonista em memórias mais alegres e sonhadoras, de um tempo que talvez ele quisesse que voltasse, um sorriso forçado é esboçado. O clarinete de Travis é de uma beleza indescritível, cabendo a Tony Levin baixo. Solo de guitarra semi acústico espetacular. Esta canção retoma o cenário de paz e tranquilidade da abertura, ela viaja sem pressa por melodias sublimes e deixa o ouvinte respirar e refletir calmamente. O sentimento mais apropriado para descrever esta bela canção parecer ser serenidade. 

“No Part Of Me” possui melodias mutáveis, formando um clima totalmente avant-garde. Remete um pouco ao som de Thom Yorke em sua carreira solo. Os vocais de Wilson são memoráveis. A acústica fica por conta de Pat Mastelotto que também usa recursos de bateria eletrônica, a guitarra U8 touch de Markus Reuter, e, ainda, a guitarra e baixo Warr de Trey Gunn. Para finalizar, uma partitura emocionante da London Session Orchestra, arranjada e conduzida pelo fabuloso Dave Stewart. Do meio pro final ela parece perder o controle, algo próximo daquele caos que o King Crimson adora criar em algumas de suas canções, essa atmosfera insana é intensificada por um solo descontrolado de sax bastante distorcido de Theo Travis e palmas ao fundo. A sessão final é empolgante e densa. Outra ótima faixa com experimentações eletrônicas interessantes. 

“Postcard' tem os vocais delicados de Wilson liderando o cenário, com o piano pavimentando cuidadosamente o caminho com notas suaves. As letras transmitem toda angústia do protagonista, que se sente miserável e tenta dar sentido à sua vida depois de perder o seu ente querido e, consequentemente, a vontade de viver. São versos tristes e desoladores (“Agora eu nem tenho vontade de comer/ Eu sou coxo e obcecado por mim mesmo, isso vou admitir/ Eu gostaria de acender um cigarro, mas não posso/ O isqueiro está morto e o gás foi cortado”) A música aumenta então para um coro melancólico do grupo Synergy Vocals com as cordas sendo comandadas pela London Session Orchestra. Composição emocionante e orquestração simplesmente perfeita. 

“Raider Prelude” tem vocais celestiais e corais do Synergy Vocals na introdução, que contrastam com uma atmosfera bastante assustadora e sombria, digna de filme de terror, com os baixos graves aumentando ainda mais a sensação de suspense. Um interlúdio para ratificar a proposta conceitual do álbum. 

“Remainder The Black Dog” fecha o primeiro CD, ou a primeira parte, como queira. É uma faixa dinâmica e a mais longa da parte 1. Começa com Wilson cantando calmamente ao piano e tem uma guitarra poderosa comandada por ninguém menos que o mestre Steve Hackett (como eu gosto do timbre que ele produz!) O multi-instrumentista Theo Travis toca sax soprano, clarinete e flauta, destacando-se, sobretudo, no sax. Depois dos três minutos e pouco a canção ingressa num ritmo mais acelerado com a guitarra de Hackett uivando discretamente, o sax em abundância sonora, o baixo de Nick Beggs mais ao fundo com uma linha heterodoxa e a bateria de Nic France ameaçando explodir. Este é uma sessão virtuosa e incrível, lembrando os bons tempos do King Crimson em alguns momentos. Posteriormente, a canção recai novamente num clima mais ameno com a bateria, o piano e os instrumentos de sopro fazendo inserções discretas. Se alguém quiser saber qual é a fórmula de um rock progressivo moderno e sofisticado, basta prestar atenção nesta música.  

“Belle De Jour” inicia o CD 2 ou parte 2, uma peça curta instrumental e acústica calcada nas cordas de náilon de Wilson. A London Session Orchestra então se junta adicionando uma atmosfera exuberante ao instrumental. Além da harpa automática, que soa angelical e dá à atmosfera da música um clima de contemplação estupendo, Wilson também faz o trabalho de baixo aqui.  

“Index” começa com um sintetizador buzzsaw bem macabro, baixo e vocais sombrios de Wilson. Nic France assume a bateria nessa faixa de caráter atmosférico e bastante tensa. As letras descrevem uma passagem na qual o protagonista torna-se obsessivo-compulsivo e já manifestando intenções mais perigosas. Adquire um hábito de colecionar coisas que as pessoas não usam e que metaforicamente, mais à frente, passa a fazer parte do seu modus operandi de serial killer, no sentido de guardar pedaços dos corpos de suas vítimas, coisa altamente macabra. Tese esta que parece ser corroborada subliminarmente pelo videoclipe da música disponível no Youtube que, aliás, é bastante perturbador. 

“Track One” apresenta belos timbres de guitarra acústica que criam uma pequena jornada de solidão, com Wilson tocando mais uma vez sua harpa automática.  A canção ingressa então num segmento curto que parece um pesadelo rítmico, puxado pela bateria crua e um fundo dark, mas que logo retorna para a mesma atmosfera acústica de cordas do início, desta vez com belos solos de guitarra elétrica. Cabe à London Session Orchestra o arranjo de cordas. 

“Raider II” repete o lado sombrio das outras canções, um épico de cerca de vinte e três minutos. Aqui as influências do velho King Crimson aparecem com nitidez. Theo Travis executa sax soprano, clarinete e flauta, Mike Outram fica com a guitarra elétrica, Sand Snowman com a acústica, Jordan Rudess assume o piano e Nick Beggs fica com o ofício do Stick. Muita gente boa junta, sem falar no coro da Synergy Vocals. Wilson por seu turno, além dos vocais, também toca baixo. A jornada começa com teclados sombrios e um baixo depressivo. Um clima sinistro se alastra encontrando ressonância nos vocais doentios e perturbados de Wilson. A peça é muito dinâmica, assim como os grandes épicos do King Crimson, com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, eu fico absorto tentando captar tudo, mas o concerto é por demais intrincado. A flauta de Travis emula Ian Anderson com perfeição, e quando toca sax é impossível não pensar em algumas faixas frenéticas e assustadoras do Van der Graaf Generator que utilizam o instrumento de sopro. Depois de uma seção mais eletrizante com direito a guitarras ostensivas e robustas, perto da marca dos doze minutos, a faixa se estabelece em uma passagem etérea de efeitos misteriosos sobre um silêncio sombrio. O coro é um tanto fantasmagórico e o piano de Rudess é inquietante. Pouco depois dos quinze minutos, após uma longa construção em direção a um caminho insano, a flauta gorjeia com uma melodia muito bonita, como um pássaro cantando através das chamas para escapar. Os vocais ríspidos de Wilson voltam por volta dos dezesseis minutos e pouco. As guitarras então avançam sem receio e a música ecoa o conteúdo sombrio com algumas explosões eventuais de sax destoante, com a bateria estalando e pavimentando bem o caminho. De repete, os instrumentos competem descontroladamente e entram num frenesi prolongado, e, antes de encerrar esta obra-prima, ainda é possível ouvir uma guitarra jazzística parcimoniosa acompanhada de uma linha de baixo bem tísica.  

“Like Dust, I Have Cleared From My Eye” leva o disco para uma outra vibração, bem distante das camadas sonoras bizarras de antes. Trata-se de uma balada acústica no melhor estilo Steven Wilson e Porcupine Tree. Wilson toca piano e Tony Levin faz o baixo. O solo de guitarra elétrica é acalentador. O teclado ambiental etéreo é deslumbrante. Encerra com uma musicalidade menos aterradora e mais serena. Um final lúcido e formoso.  

"Grace For Drowning" é um feito deslumbrante, atrevo-me a dizer até que se está diante de uma quase obra-prima, talvez incompreendida e subestimada dada a sua densidade artística e conceitos complexos. Por toda experiência que a audição desse álbum proporciona, considero-o um disco fascinante e sombrio criado por um gênio da música moderna que flertou com a perfeição.

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