Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Íngreme (2017)

Álbum de Guilherme de Sá

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A música feita com paixão, e a paixão pela música!

Por: Marcio Alexandre

25/01/2018

Guilherme de Sá já é um nome bastante consagrado pelo Brasil afora, graças ao bons sucedidos trabalhos com sua banda principal, o Rosa de Saron, que já tem um longo tempo de estrada, parcerias com nomes grandes da música nacional, vários discos, inclusive um espetacular acústico lançado em 2015 que é de uma riqueza musical e visual incríveis. 

Em 2017 porém, Guilherme resolveu lançar um trabalho longe da banda, sem abandoná-la, somente na tentativa de fazer outro som, claro que com suas melhores características, continuam as letras profundas, a espetacular voz do cantor, passando por drives e falsetes sem hora nenhuma deslizar em seus experimentos, e ao mesmo tempo, algo diferente, mais pessoal, e arrisco à dizer que seja seu melhor registro até aqui, ao lado do já citado "Acústico 2/3".  O resultado foi "Íngreme",  um trabalho feito pela paixão e fé, de quem tem total paixão pelo que faz.

O disco é autoral do próprio, e traz experiências com a fé e o mundo que nem sempre é agradável. Abrindo, temos "Ópio e a Cicatriz", canção calma, embalada por violão, e a voz de Guilherme aparece calma, melancólica, mas presente, falando sobre uma desilusão de um ser que vê no amor, tanto um ganho como um mal, assim vemos do que se tratará, canção muito bonita e tocante, com um coro de fundo que aumenta a força da música, assim já vemos o porquê de Guilherme ser considerado um dos melhores cantores do país.

"Ágora" é a próxima faixa, e que foi usada para divulgação do álbum ganhando um vídeo muito bonito, com imagens feitas na Europa e uma fotografia preto e branco. A música trata de uma separação, mas que não é para ser tratada como um fim, não um abandono, e que apesar da distância, continuará tendo um espaço naquele ser. Só o que fica no ar é o propósito real da canção, se é uma separação da fé, ou de uma relação carnal, mas nada que tire o brilho e o motivo de ter sido escolhida como música de trabalho, das melhores aqui.

Daqui em diante, o ouvinte já está entregue à levada do disco, e se delicia com a gostosa "Un Peu Air", faixa cantada em francês, língua que Guilherme já havia arriscado com uma faixa no Rosa de Saron, mas diferente aqui, o domínio da língua está mais amadurecido, e muito bonita, poderia muito bem figurar na trilha de algum filme romântico europeu, ou se ouvir numa tarde de céu azul.

Indo para o inglês, a faixa que trata sobre erros e regressos durante a vida, como o nome sugere, "Mistakes and Regrets", volta ao lado melancólico, com Guilherme alternando vocais altos e amenos, temos um indivíduo que caminha ainda perdido na vida, tentando fazer o certo em seu percurso.

"Ares, Desares, Azares", é outra das melhores vistas por aqui, falando novamente sobre o amor, do quão duradouro ele pode ser e como a nossa nossa relação com o mundo pode fazer ele ser esquecido, deixado de lado, que nossas escolhas podem nos levar ao lado ruim de tudo, linda canção, e fãs irão notar a semelhança com "More Than Words" da banda Extreme, que já foi cantada em alguns shows do Rosa, e também semelhança com a música da banda, "Sem Você". 

Na metade do disco, temos uma surpresa, um cover não muito convencional para a proposta e estilo, uma música do U2, "Sometimes You Cant Make It On You Own", aparece aqui, e melhor que sua original, diga-se de passagem. Guilherme entoa a canção num tom mais "áspero" que a versão de Bono, o que cai como uma luva, e a subida de tom que temos em seu final é espetacular, o cantor brinca oscilando entre drives e falsetes de forma tão natural como respirar. 

Embalada por um piano, "Yaweh", com uma clima um tanto senso, traz uma mensagem bem direta a proposta inicial do trabalho, a relação do filho e Pai, que clamam por Seu chamado, por suas rendenções.

"Sois Sós", é uma das canções mais fortes e presentes do disco todo, seu refrão logo chega com uma ponte carregada e entoada à plenos pulmões, falando sobre não se acreditar muito em amanhã, e como banalizamos sentimentos que nos deixam sós no mundo, uma mensagem bastante carregada e direta.

Ainda continuando com mensagens de senso de voltar o olhar a próprio, "Algúria", traz  Guilherme mais próximo da habitual forma que canta em sua banda principal, numa mensagem de que a tristeza, egoísmo e orgulho são sentimentos que nos consomem, nos tiram o sabor da vida, mas não podemos aceitá-los, que somos maiores, e que se cair, levantar é o próximo passo, "porque, cá entre nós
Bater no chão, não é nada". 

"Floresta de Bétulas", começa num ritmo mais calmo, falando sobre como o frio e ausência podem estar presentes, mas em algum momento o calor chega, e aí a canção ganha o som de guitarra alta, com Guilherme se entregando aos vocais alto e regados de paixão, nos fazendo gritar com ele a letra. 

Fechando o trabalho, temo a faixa título, "Íngreme", canção mais importante daqui para de Sá, que trata sobre as idas e vindas, os altos e baixos de sua carreira, as escolhas que tomou e que o levaram a ser quem é hoje. O refrão da música é lindo, emociona e toca, o crescendo dali contagia e muitos irão se identificar com a letra, quase uma poesia com ritmo. Perfeito encerramento. 

Fica aqui um dos melhores trabalhos de 2017, feito com o coração e paixão de um alguém que ama o que faz, ama sua fé e a quer dividir com todos na intenção de tocar, mover, ajudar ou somente dar um momento de prazer para quem ouve. Lindo! 

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