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Resenha: Uyai (2017)

Álbum de Ibibio Sound Machine

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O pós-punk se rende à Mama África

Por: Roberto Rillo Bíscaro

22/11/2020

Ibibio é a língua do povo de mesmo nome que vive na Nigéria. Entre 1,5 e 2 milhões de pessoas falam ibibio, dentre elas Eno Williams, cantora nascida em Londres, mas de origem nigeriana. Quando criança, na Nigéria, sua família contava-lhe estórias do folclore ibibio, as quais Williams usa nas letras do Ibibio Sound Machine, cantadas em sua maioria na língua de seus ancestrais.

Em época de radicalização nacionalista, o Ibibio Sound Machine é tapa na cara utópico. Trata-se de coletivo multinacional formado por Eno Williams (vocais); Alfred Kari Bannerman (guitarra), de Gana; Anselmo Netto (percussão), do Brasil; Jose Joyette (bateria), de Trindade; Max Grunhard (saxofone e sintetizadores), da Austrália e pelos britânicos John McKenzie (baixo), Tony Hayden (trombone e sintetizadores) e Scott Baylis (trompete e sintetizadores).

Lotados na pós-colonial Londres Brexitosa, o Ibibio Sound Machine (ISM, daqui em diante) estreou com álbum homônimo, em 2014 e no início de março, de 2017, chegou Uyai, dúzia de canções que seguem a tônica de filtrar diversos ritmos e estilos africanos pelo prisma da música eletrônica e da New Wave ou pós-punk. Note a piscada para os anos 80 no nome, muito parecido ao Miami Sound Machine, de Gloria Estefan, que também fundia pop com ritmos caribenhos. Uyai não soará alienígena nem para fãs da atual M.I.A. nem para veteranos da era do A Certain Ratio ou Quando Quango, porque os rigorosos elementos retrofuturistas são produzidos contemporaneamente.

Give Me A Reason abre Uyai e é súmula de sua beleza (uyai, em ibibio). Gélidos teclados Gary Numan, guitarra que oscila entre funk e rock e base afroeletro pós-punk angulosa. Batuque balouçante da moléstia; África sintética mesclada com diversos subgêneros ocidentais, que, na verdade, vieram de lá. Power Of 3 desloca cadeiras com sua mistura de disco music. Em Joy, a mistura vem com doideira techno, mas o baixo é soturnamente pós-punk; é Joy, mas Division. E é hora do mea culpa do resenhista, que, como tantos brancos ocidentais, percebe mínimas subdivisões de grime e prog rock, mas desconhece o nome de ritmos africanos, prevalentes em seu próprio país.

Em Guide You, brasileiras cuícas coexistem com trompete anárquico de free jazz, teclado de som de videogame e coro e base afroelétricos. Trance Dance tem samba, rock e alguma subdivisão grime. Um dos encantos de Uyai é como instrumentos coincidentes estão operando em convenções dessemelhantes, mas o resultado é convívio animado. Sunray é afro-progressive house com toda a repetição estrutural tanto de música tribal quanto do subgênero eletrônico. Dizem que a música ritual era repetitiva para se alcançar o êxtase, com a ajuda de alguma substância alucinógena. Techno seria para alcançar o Ecstasy. E eis que The Pot Is On Fire transporta o ouvinte para alguma rua nova-iorquina ou londrina nos anos 80 com meninos multicoloridos dançando break ao som de Afrika Bambaataa influenciado por Kraftwerk (Telephone Call, do LP Electric Café). E não soa datado, porque repaginado em electro, uma das reencarnações da electronica oitentista.

O forte do ISM são as pauladas dançantes, mas as 3 ou 4 menos rápidas têm produção ambient-etérea e ritmos que as sustentam, mas é inegável que se for para festar, quebram o clima. Ou, pode-se encará-las como oportunidade de retomar o fôlego. O curioso é que a canção de ninar do LP – literalmente, Lullaby – é midtempo: mamãe dá balançadinha de leve para fazer nenê nanar.

Acostumados a países onde a música africana predomina, certamente sentirão falta de certa malemolência, mascarada pela marcialidade gelo-angulosa do pós-punk ou pela artificialidade da electronica. Mas quem cresceu ao som dos anos 80 e do que veio depois, vai amar.

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