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Resenha: Ocean Machine - Biomech (1997)

Álbum de Devin Townsend

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Em sua estreia solo Devin já se mostra um artista de mente muito independente

Por: Tiago Meneses

22/11/2020

Em 1999 o nome de Devind Townsend não era exatamente uma novidade, já que o músico havia lançado dois discos com o seu projeto Strapping Young Lad, e também aparecido em discos de nomes como Steve Vai, James Murphy e do grupo canadense, Front Line Assembly. Vale ressaltar também que embora Ocean Machine seja considerado pela maioria – na qual eu me incluo – o primeiro disco da carreira solo do músico, tem quem ache que sua discografia começa na verdade três anos antes em Punky Brüster - Cooked on Phonics, mas esta ideia costuma ser invalidada pois todos tocam sob o nome da banda fictícia Punky Brüster. 

Acredito que em Ocean Machine foi a onde Devin criou pela primeira vez uma sonoridade semi-ambiente e relativamente mais suave e com várias camadas, algo que viria a se tornar talvez a sua principal característica. A sua guitarra com afinação modal já havia sido ouvida nos discos da Strapping Young Lad, porém, toda aquela gama completa de cores de tom não havia sido expressa até o momento. Townsend trabalhou nisso por algum tempo, escrevendo parte do material já em sua temporada com Steve Vai. O resultado é quase perfeito, e os poucos tropeços são mínimos. 

“Seventh Wave” começa com uma fala estranha e distorcida citando o poeta Alfred Lord Tennyson. É uma faixa que eu considero bastante sólida para se começar um álbum. Começa com um ótimo riff de guitarra e uma bateria em ritmo de média velocidade que se desenvolve em uma linha de maior pulsação. Dentro do que é encontrado no álbum, ela pode certamente ser considerado um dos momentos mais pesados. Mas mesmo assim passa muito longe do tipo mais extremo que Devin já havia explorado com a Strapping Young Lad na época. Uma boa mistura entre peso e suavidade. 

“Life” é a música mais cativante do disco e também a mais acessível, acho que até mesmo minha mãe poderia gostar – entendam esse exemplo como algo bastante improvável de acontecer. Se eu voltar com a minha mente para a época em que ouvia rádio, consigo imaginar uma música desta não apenas passando, mas fazendo sucesso nas rádios. Devin não sola muito durante o álbum, mas um destes momentos está aqui. Uma faixa pequena e muito melódica. 

“Night” traz o disco para uma linha de certa forma mais sombria – principalmente se comparado ao que foi ouvido nas duas faixas anteriores. Começa com mais um bom riff de guitarra que logo em seguida ganha a companhia dos demais instrumentos enquanto que o ritmo da música aumenta. Seu ritmo em si não varia muito, mas vale destacar também o fato de Devin mostrar o seu grande alcance vocal. 

“Hide Nowhere” encerra a primeira seção do disco através de um rock direto e algumas incursões pop com riffs de guitarra em staccato, além de vocais limpos. Guitarra excelente, ótima seção rítmica, muitos pratos. Possui inclusive um frenesi vocal com algumas camadas de Devin me fazendo lembrar Gentle Giant. Ou isso seria exagero da minha parte? De qualquer forma, uma faixa memorável. 

“Sister” é uma faixa mais curta e doce que serve como uma boa pausa do trabalho mais acelerado que a guitarra e a bateria estavam fazendo. Guitarra calma, teclados frios e alguns vocais suaves. Muitos podem até desconsiderar esta música, mas eu adoro a diversidade que ela traz ao álbum – principalmente por ser de metal -, mesmo que através de menos de três minutos. Uma banda que costuma fazer isso muitas vezes é o Opeth. “3 A.M.” também é bastante curta e com os seus quase dois minutos de certa forma continua de onde que “Sister” parou, mas com os teclados ainda um pouco mais calmos. 

“Voices in the Fan” é um dos meus momentos favoritos do álbum. Começa com um riff que traz de volta o disco para um ambiente mais pesado, além de uns gritos instantaneamente reconhecíveis e extremamente cativantes. Seguindo em uma batida constante, parece relativamente simplista, porém, há algo que consegue torna-la algo que vai, além disso, que é a sua maneira como mostra muito dos melhores aspectos do álbum enquanto que consegue ser cativante e agradável. Termina de forma muito pacífica, em um momento de silêncio interrompido apenas por um coro celestial. ““Greetings” é outra das faixas curtas com os seus pouco menos de três minutos. Não oferece nada de novo, mas ainda assim é boa, abrindo com um bom e agudo riff – quantas vezes eu falo isso? Mas o cara é bom na criação de riffs, não posso fazer nada. Possui um refrão pesado e forte. 

Regulator” é uma faixa mais complexa e enérgica – mas sem perder o seu tato espacial. Guitarra áspera de riffs extremamente pesados combinados com bateria forte e vocais ásperos e gritados, além de teclados ocasionais. Apesar de ser vista mais como uma sessão de aquecimento para a considerada “trilogia” que constituem as próximas faixas e que pode ser chamado de pedra angular do disco, não há como ficar indiferente aqui, sendo quase impossível não ter vontade de bater cabeça ou ao menos mexê-la enquanto a escuta. 

“Funeral” começa com um trabalho de guitarra despojado e repetitivo. De certa forma, leva o ouvinte a acreditar que estará diante de algo na linha de “Sister” ou “3.A.M.”, mas então entra toda a instrumentação e já mostra que a ideia aqui é de uma faixa melancólica – não apenas a instrumentação, mas os vocais também. Pode levar um tempo para cair no apreço de alguns por a acharem lenta demais e isso nem sempre é o que quem escuta Devin quer ouvir. Mas para justificar um pouco esse clima tão diferente, é preciso ir na sua letra, que é sobre a morte de um dos amigos íntimos de Townsend. A faixa lida – ou ao menos tenta - com a dor de uma forma quase otimista. Eu simplesmente amo tudo nessa música. 

“Bastard” é uma faixa que possui vários andamentos, várias emoções da voz de Devin e certamente uma das suas performances mais apaixonadas da carreira. O riff de guitarra é bastante sombrio e consegue transmitir um profundo sentimento de tristeza e de perda – já explicada em “Funeral”. Os vocais conseguem definir tão bem o clima das letras que me fazem lembrar – ainda que cada um na sua proposta – ao Peter Hammill na Van der Graff Generator. “Bastard” transmite de maneira muita eficaz a insegurança, a tristeza e a dor à espreita no coração de um homem profundamente perturbado. Assim como aconteceu em “Funeral”, a faixa termina com um som ambiente. 

“The Death of Music” é a faixa mais longa do disco e também a que encerra a trilogia e também o álbum. Mesmo sendo a faixa mais silenciosa, seca e longa do álbum, também é certamente a sua peça central. Após duas “cacofonias” e “destruição” das faixas anteriores, aqui Devin canta baixinho para si mesmo. Uma música de certa forma assustadora. Teclados grandiosos, guitarras arejadas e a mesma batida de bateria programada por toda a parte, tudo se desenvolvendo de forma maravilhosa. Difícil definir esta música, ela parece ser algo simples, mas passa longe de disso e pode ficar nos seus ouvidos por dias ou até mesmo semanas se você se deixar levar. Que final de disco mais incrível.

Já na sua estreia solo, Devin apresentou aquilo que seria uma das suas marcas registradas mais fortes, ou seja, o uso de muitas camadas, todas as quais catalogando com várias de suas ideias musicais e líricas. Ao levantar uma camada, o ouvinte sempre vai encontrar uma nova que tem muito a oferecer. A música é muito rica e mostra o quão talentoso é Townsend. O trabalho de produção também foi executado com maestria. Resumindo, desde sempre Devin se mostra um artista de mente muito independente.

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