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Resenha: Live At Fairfeild Hall, 1974 (2002)

Álbum de Caravan

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Um dos grandes álbuns ao vivo dos anos 70

Por: Expedito Santana

21/11/2020

Como já disse na última resenha que fiz aqui no site 80 Minutos, Caravan, Camel e The Soft Machine são as minhas bandas preferidas da Cena de Canterbury. O Caravan foi fundado em 1968 pelos ex-membros da Wilde Flowers, os irmãos David e Richard Sinclair, Pye Hastings e Richard Coughlan 

Caravan é frequentemente considerada a banda mais conservadora de Canterbury, porque suas composições são mais diretas e menos complexas do que as de Hatfield and the North ou Henry Cow. Eles conseguem fazer um som agradável, melódico e por vezes vigoroso. Embora eles nunca tenham alcançado o topo do sucesso comercial, integrando junto com o Camel aquela lista informal de injustiçados da história do rock, jamais deixei de considerá-los um grande medalhão, seu som me agrada bastante, notadamente pela mistura de psicodelismo, jazz e influências clássicas, resultando num rock progressivo elegante e arrojado. A banda já sofreu várias modificações desde a sua fundação, mas ainda permanece ativa fazendo apresentações e concertos. 

Este álbum ao vivo, que conta com uma linda arte de capa, foi gravado no Fairfields Halls em 1974, as faixas “Memory Lain, Hugh / Headlos”, “Hoedown”, “The Dog, The Dog, He's At It Again”, “Be All Right / Chance Of A Lifetime” e “L'Auberge Du Sanglier / A Hunting We Shall Go / Pengola / Backwards / A Hunting We Shall Go (Reprise)” são do álbum "For Girls Who Grow Plump In The Night", gravado em 1973, que foi o último de estúdio à época. 

Live At Fairfield Halls está repleto de solos e, embora muitos deles tenham uma estrutura semelhante, já que começam mais lentos e gradualmente se tornam mais intensos, nenhum deles comete lapsos. Neste álbum David Sinclair prova ser um dos maiores organistas do progressivo e Pye Hastings faz um trabalho primoroso na guitarra. Sem falar na viola de Geoffrey Richardson, que embeleza cada melodia com arranjos e notas que edificam o ápice instrumental conseguido pelo grupo. Importante mencionar que foi aqui a primeira vez que Mike Wedgwood tocou baixo para a banda, e o faz de maneira sinérgica e irrepreensível. E o som fuzzy de órgão Hammond de David Sinclair sendo um ingrediente fundamental do som do Caravan, completando o conjunto ainda com o competente e veterano Richard Coughlan na bateria. 

"Memory Lain, Hugh / Headloss" abre os trabalhos de forma bem otimista, uma faixa empolgante, contando com uma linha de baixo agradabilíssima, viola e vocais muito bons de Hastings, que mesmo não sendo um exímio cantor, consegue criar belas atmosferas melódicas. Após os 2 minutos e meio entra numa sessão apoiada nos teclados de Sinclair e depois dos 3 minutos volta para um interlúdio curto mais calmo com a viola dando as coordenadas. Recaindo após os 5 minutos numa sessão dinâmica espetacular com a guitarra brotando riffs maravilhosos, a bateria em ritmo mais rápido e o baixo ladrilhando o caminho. Um dueto de guitarra e viola muito ao final.  

"Virgin On The Ridiculous" é uma canção que jamais foi lançada em um álbum de estúdio. A viola, bateria e baixo abrem a jornada, até um vocal terno de Hastings inaugurar um clima mais melódico. A canção então entra numa sessão rítmica apoiada na viola de Richardson e no baixo charmoso de Wedgwood, com Hastings cantando lindamente. Perto dos três minutos há uma mudança para uma sessão mais rápida com a guitarra e os teclados de Sinclair dando um colorido especial ao panorama, incrível esta passagem. As coisas então se aquietam novamente e a viola volta a ter o protagonismo junto com os vocais, até que os teclados apresentam um solo simplesmente espetacular, não sei nem descrever, coisa linda, com a viola também dando notas arrepiantes e cabendo à bateria fechar esta incrível canção, que emenda com a seguinte. 

"Be Alright / Chance Of A Lifetime" é bem agitada logo no início, a guitarra com seus riffs disputa espaço com os vocais e logo em seguida emana curtos solos distorcidos e rápidos. Essa canção apresenta um clima frenético nesse início, inclusive os vocais, não dá para parar e respirar. Até que repousa num clima mais ameno e melancólico a partir dos 2 minutos e pouco com a bateria fazendo um bom trabalho e o baixo abrindo caminho para a viola, além de uma guitarra levemente swingada, adoro os vocais de Hastings nessa parte. Encerra bem calmamente. Ótima faixa. 

"Love In Your Eye" é do álbum "Waterloo Lily", uma canção de uma beleza e compassos incríveis. Quando a viola se junta ao órgão a coisa fica mais animada, com baixo e guitarra precisos e executando uma batida frenética. Bem próximo dos 3 minutos o órgão de Sinclair resolve assumir o protagonismo com um solo excelente. Antes de chegar nos 4 minutos a guitarra começa a evoluir para uma nuance simplesmente notável derramando logo em seguida um solo impagável. Já se aproximando dos 6 minutos a música entra em sessão relax, com a viola assumindo o comando e proporcionando um momento sinfônico magistral acompanhada de uma linha de baixo que baliza todo o conjunto. Pouco antes dos 10 minutos é a vez do órgão novamente solar com maestria, precedido por uma guitarra com riffs balançantes. Aliás, a guitarra volta à cena antes dos 12 minutos e meio enquanto o baixo pulsa forte. E quando parece que vai acabar a festa, a bateria introduz uma finalização sensacional da guitarra. É música que a gente pede para não acabar, em que pese a sua longa duração. 

"L'Auberge Du Sanglier / A Hunting We Will Go / Pengola / Backwards / A Hunting We Shall Go (Reprise)" começa com a viola, o baixo e bateria. Antes dos 2 minutos a guitarra dar o ar da graça e o órgão apresenta um solo curto. Logo após os 2 minutos a guitarra apresenta um belo solo com o baixo dando cobertura. Antes dos 4 minutos a viola também resolve contribuir com a sinfonia que se instala, logo após a canção se acalma e um órgão macambúzia assume o controle, tendo um baixo charmoso e a bateria em compasso lento como companhias. Perto dos oito minutos a viola passa compor o cenário e logo em seguida o andamento acelera puxado pela bateria até encerrar. Vale dizer que a sessão "Backwards" original foi composta por Mike Ratledge e "Pengola" foi escrita por John G. Perry.

"The Dog The Dog He's At It Again" exala uma atmosfera de descontração e humor. Os vocais de Hastings são leves e otimistas. Possui linhas de baixo absolutamente perfeitas, uma viola campestre e encantadora, complementada por um trabalho de bateria competente de Coughlan e um teclado e sintetizador em solo de Sinclair bastante sedutor no meio da música. Próximo ao final a viola entra num frenesi contagiante.  

"For Richard" foi escrita por David Sinclair sobre seu irmão, Richard, é uma faixa instrumental e a maior do disco, um épico de 19 minutos repletos de nuances e arranjos inesquecíveis. Começa bem melancólica e baseada num vocal edulcorado de Hastings com o teclado inserindo notas discretas e o baixo quase imperceptível. Até que a viola e a guitarra entram no jogo, logo depois a bateria faz um ótimo trabalho percussivo. A partir dos 4 minutos ela segue um crescendo com a viola uivando na frente do conjunto, bateria marcando e baixo delineando contornos atraentes. Pouco depois dos 6 minutos o instrumental ingressa numa sessão rítmica mais rápida com o baixo funky em acentuada execução, e o órgão criando camadas de preenchimento notáveis. Perto dos 9 minutos as coisas recaem numa textura psicodélica, com a guitarra liderando uma verdadeira jam session de improvisação instrumental e virtuosismo, repleta de solos labirínticos e arrebatadores de guitarra e órgão majestoso. A viola também retorna nessa segunda parte com força total, cabendo ao baixo o calçamento da paisagem sonora. É bem difícil descrever todos os detalhes presente aqui. A canção finda com a tradicional reverência do público. Não menos que magnífica. 

“Hoedown”, ao contrário da anterior, é faixa mais curta do disco e tem a incumbência de fechar o show. Tem uma viola e guitarras otimistas bem no estilo southern rock e linha de baixo parecida com a de outras faixas. O vocal é bastante assemelhado com a harmonia da faixa “The Dog The Dog He's At It Again”, deixa aquela sensação de alegria pairando no ar. Conta com a participação marcante do público por meio de palmas que começam já no meio da canção. A viola exala um clima country que energiza o ambiente.  Não é um estilo que eu goste tanto, mas não é uma faixa que decepcione. 

Sem sombra de dúvidas, Live at the Fairfield Halls é um dos grandes álbuns ao vivo dos anos 70, registro vivaz e excitante dessa extraordinária banda, verdadeira mostra cristalina da força e inventividade instrumental do Caravan, sublinhando sobretudo o prazer de tocar ao vivo. Desses discos que ao final da audição dá uma vontade quase incontrolável de voltar ao início.

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