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Resenha: Softs (1976)

Álbum de The Soft Machine

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Jazz rock desafiador e cativante sem deslizes

Por: Expedito Santana

19/11/2020

Não escondo de ninguém que o The Soft Machine é uma das minhas bandas preferidas, ao lado de Camel e Caravan, da Cena de Canterbury. São raros os trabalhos do grupo que não conseguem ser consistentes e ricos artisticamente. Nunca me canso de ouvi-los e sempre descubro coisas novas no som da banda, que soa para mim como uma viagem íntima a um mundo fantástico que vai sendo construída sutilmente e de maneira quase imperceptível durante as audições. 

Este álbum, comparativamente a outras obras da banda, a exemplo de Third, que já resenhei aqui no Site 80 Minutos, mostra-se bastante palatável, trazendo um fusion de enorme qualidade. Embora a proposta do título seja suavidade, na verdade, a sonoridade apresenta-se relativamente complexa e pesada, mas não tanto quanto a de outros álbuns do Soft, como disse acima. Arrisco a dizer, inclusive, que este disco deve ter influenciado muitas bandas, a exemplo de Ozric Tentacles, Hidria Spacefolk, Quantum Fantay, entre outras. Não espere linearidade de Softs, pois há nele tantas paisagens sonoras diferentes que vão da balada melancólica reflexiva ao frenesi do jazz, rock mais vigoroso bem como sinfonias belas em nuances criativas. 

Softs é o nono álbum de estúdio da banda e foi lançado em 1976. Algumas mudanças significativas na formação da banda ocorreram, John Etheridge substituiu Allan Holdsworth na guitarra logo após o lançamento do álbum anterior, Bundles, e Alan Wakeman, primo do mago dos teclados Rick Wakeman, assumiu as funções de saxofone de Karl Jenkins. Karl tocaria teclado exclusivamente a partir desse ponto. Tal mudança fora necessária em virtude da saída do último membro fundador do grupo, Mike Ratledge, que pulou do barco em março de 1976 antes do término das sessões de gravação, e apesar de ter participado em duas faixas, não é creditado como membro do grupo, figurando apenas como músico convidado, vejam que ironia do destino! Vale dizer ainda que Allan Wakeman e o baixista Roy Babbington deixaram o grupo pouco tempo depois do lançamento de Softs, havendo Wakeman permanecido como membro por menos de seis meses. 

Com todas as mudanças assinaladas acima era até normal que o som da banda também sofresse algumas mutações, entretanto, as variações musicais não foram tão aparentes, tanto que aposto que qualquer desavisado sequer irá notar a diferença do trabalho de guitarra de Etheridge, que performa muito parecido com Hodsworth, ademais, há claras afinidades de Softs com o ótimo Bundles, o que não deixa de reafirmar a qualidade e estabilidade sonoras que a banda consegue ter mesmo com as frequentes idas e vindas em sua formação. 

Assim como ocorre com outros grupos, há uma corrente de fãs do Soft Machine que se divide em dois segmentos bem típicos, um preferindo o período Ratledge/Hopper/Wyatt, abrangendo os álbuns Vol. 1,2,3,4, e um outro que vai para o lado de Jenkins/ Babbington/Marshall, o qual produziu notáveis obras, incluindo esta maravilha intitulada Softs. O fato é que muitos, assim como este resenhista, gosta igualmente de ambas as formações, preferindo sair pela tangente, caso tenha que firmar posição. Conquanto Bundles seja considerada uma pérola do jazz-rock, este álbum mostra uma faceta diferente da banda, não vista até então, na qual os trabalhos de guitarra do subestimado John Etheridge assumem um papel central, incluindo manobras eletrônicas experientes e até mesmo alguns padrões musicais de textura mais funk absolutamente deliciosos, tudo misturado em peças que são claramente interligadas. 

“Aubade" abre os trabalhos e mostra-se como uma música ambiente e delicada, na qual o violão de John Etheridge acompanha os saxes soprano de Alan Wakeman. Um clima de leve tristeza fica no ar, uma beleza absolutamente genuína. Ótimo começo de disco. 
 
"The Tale of Taliesin é a segunda faixa, começa por meio de um belo solo de piano de Jenkins, que encontra uma bateria e uma guitarra sensacional logo à frente, uma sessão rítmica que pavimenta o caminho para a guitarra brilhar. Vai ganhando mais velocidade a partir dos 3 minutos, recando numa sessão meio jazz, com a guitarra serpenteando em solo de maneira espetacular e a bateria enérgica de Marshall fazendo a base. As linhas de baixo de Babbington são muito boas. A guitarra percorre caminhos sinuosos, como se entrasse em um labirinto. Grande momento, coisas que só o Soft faz como poucos. 

"Ban-Ban Caliban" começa em um clima bem espacial com um ótimo trabalho de sintetizador de Ratledge, os saxofones soprano são um colorido especial à música, preenchendo a paisagem sonora. Durante a improvisação de solo de sax soprano, a música é executada em um andamento relativamente rápido e entra numa atmosfera de jazz rock excelente. As nuances e andamentos são o charme dessa canção, com transições do sax para a guitarra que nos deixa vidrado, conta ainda com uma ótima linha de baixo de Babbington e mais uma vez a bateria dá aquele tom de improvisação jazzístico tão característico do Soft. O ritmo funky é para balançar o esqueleto. Outra ótima faixa. 

"Song of Aeolus" deixa o clima mais melódico e tem no início sintetizadores espaciais de Retledge e o som do vento. Com a guitarra protagonizando momentos de beleza inenarráveis. Uma jornada sonora de difícil categorização, flerta com o blues e com o rock progressivo a la Camel, enfim, melhor não defini-la, senão como uma joia rara atemporal. Etheridge faz um trabalho irrepreensível aqui. Termina com o mesmo som do vento do início. Não tenho qualquer receio de dizer que é uma das canções mais lindas que já ouvi. 

"Out of Season" é uma ótima peça, uma composição de textura clássica, calcada em notas suaves de piano em combinação com um violão discreto. Cumpre com maestria o papel de interlúdio de calmaria e relaxamento. A guitarra elétrica é introduzida mais à frente e desempenha uma função melódica relevante com o piano segurando a sessão rítmica e a bateria de Marshall ao fundo marcando bem calmamente. Soa também como uma peça de Rick Wakeman, com dinâmica estelar e controlada e, às vezes, levemente bucólica e repetitiva. A guitarra de Etheridge proporciona um excelente solo. 

“Second Bundle” é outra espécie de interlúdio curto, começa com sintetizadores espaciais e etéreos ao mesmo tempo. Magnífico trabalho climático.   

“Kayoo” é um solo de bateria delineado principalmente pelos pratos de Marshall, floresce com uma alma bem semelhante àqueles momentos experimentais do King Crimson ou até mesmo os feitos vindos baquetas do grande Billy Cobham. Não sou um grande fã desse tipo de composição, mas o trabalho de Marshall é bastante dinâmico e nada cansativo.

“The Camden Tandem” é um verdadeiro duo entre guitarra e bateria, no qual tanto Etheridge quanto Marshall mostram a virtuose de seus respectivos instrumentos. A guitarra de Etheridge só falta falar e Marshall dá às baquetas um sentido maior dentro da música. Os caras fazem tudo isso em um ambiente de jam session sem caírem na conhecida armadilha da autoindulgência. 

“Nexus” é uma canção curtíssima, apresenta uma guitarra uivante, bateria em compasso mais lento e um piano delicado de jazz. Mais um interlúdio. 

“One Over The Eight” vem logo em seguida, uma peça otimista e com a alma de Canterbury, com sax tenor em proeminência, bateria inquieta, um tradicional baixo groovy pulsante e riffs de guitarra levemente swingados. A alma funky é evidente, o sax de Alan Wakeman avança sem receio, chiando alto e deixando a paisagem sonora bem frenética e empolgante.

'Etika' fecha o disco em tom de calmaria, é uma peça acústica baseada no violão de Etheridge, que segue uma cadência bem relaxante e pastoril, com uma textura clássica e meio progressiva, até lembrando um pouco o timbre da guitarra de Steve Hackett. 

Softs é mais um excelente trabalho de uma banda que faz um jazz rock desafiador e cativante graças a músicos de competência inquestionável. Não há qualquer deslize nesse álbum, ainda que as paisagens sonoras sejam muitas vezes distintas, tudo aqui faz sentido e se conecta perfeitamente. Diversão garantida, basta deixar o som rolar e aposto que nem verá o tempo passar.

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