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Resenha: Home Counties (2017)

Álbum de Saint Etienne

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Na contramão do Brexit

Por: Roberto Rillo Bíscaro

18/11/2020

Um dos traços distintivos do Saint Etienne, desde seu surgimento em 1990, é a capacidade de ser britânico, mas, paradoxalmente, soar mais cosmopolita do que a maioria de seus compatriotas. A começar pelo nome francês, o trio sempre infundiu elementos europeus continentais ao seu indie-dancepop e isso é mais do que importante agora, quando a Grã-Bretanha escancarou nas urnas sua insularidade Brexitosa.

Passados cinco anos desde o último álbum, Sarah Cracknell, Bob Stanley e Pete Wiggs lançaram Home Counties, dia 2 de junho, de 2017. Nesse meio tempo, a vocalista gravou álbum solo; Stanley escreveu o elogiado Yeah! Yeah! Yeah!: The Story of Modern Pop e Wiggs compôs trilhas para filmes e continuou suas atividades de radialista e DJ.

Os Home Counties são os condados que circundam Londres. Esses subúrbios [no sentido anglo-americano do termo] têm sido o celeiro de astros pop desde os anos 1950. Assim, associado à badalação multicultural londrina, o Saint Etienne resolveu tematizar a vida, beleza, costumes, prazeres e tédio dos lugares totalmente dissociados disso, que tão bem conhecem, porque foi lá onde nasceram seus integrantes.

Home Counties, o álbum, é quase conceitual, estruturado como programa de rádio. Das 19 faixas, 5 são vinhetas com trechos de radialistas e Sweet Arcadia, uma das mais longas, é instrumental com Cracknell narrando um monte de lugares e suas características. E tome letras falando de coisas tão “britânicas” como a obsessão por trens, no pop-hall deliciosamente intitulado Train Drivers In Eyeliner ou a algo sombria Heather, sobre o caso do poltergeist de Enfield. Há até os quase 2 minutos de Church Pew Furniture Restorer com seus pássaros canoros e coro eclesiástico de meninos, que já vimos/ouvimos em um sem-número de filmes essencialmente “britânicos”.

Mas, graças à urbanidade do Saint Etienne, um álbum estereotipicamente inglês até a medula é audível e faz sentido para qualquer ouvinte ocidentalizado, porque o trio polvilha-o de referências além-ilha. Para se ter ideia, logo após o coro dos meninos vem o pop sessentista de Take It All In, puro Serge Gainsburg. Aliás, um título desses ganharia sentido radicalmente distinto se cantada pela inglesa mais francesa da História, e parceira de Gainsburg, Jane Birkin. Mas, como o Saint Etienne é cosmopolita, mas mantém a reserva pela qual seu país é famoso, a canção não segura a sensualidade no refrão com voz de fadinha pura e não gemido à Birkin. E isso não é defeito.

Talvez mais famoso por ser dançável, o único momento em que o Saint Etienne ferve na pista é o disco-funk mediterrâneo-tropicaliente de Dive. Em Underneath The Apple Tree o trio decide ser girl group anos 60, mas Cracknell não abre mão do sotaque upper-class britânico para tentar emular moçoila negra de Detroit. São essas idiossincrasias que tornam o Saint Etienne tão bom. Apple é pronunciada no mais puro Queen’s English. E isso é muito bom.

Uma das coisas mais líricas de Home Counties é Out Of My Mind, com seu senso de melodia e teclado herdados do Orchestral Maneuvres In The Dark, uma das influências do Saint Etienne. Para pôr no repeat e ouvir até parar a tremedeira. Whyteleafe é uma delícia deslizante introduzida por solo de piano simulando aqueles instrumentos do século XVII, tipo cravo. Faz sentido se você perceber a grafia antiquada do nome da aldeia, em Surrey. Sacou? White Leaf...

O probleminha de Home Counties é que as faixas iniciais e finais não fazem jus às citadas. Não são ruins, mas não brilham. Darei desconto para After Hebden, porque derreto com voz de menininha (Cracknell já é 50tona, como eu!) cantando papapapa papapa (ai ai), mas as demais são mais música de fundo.

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