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Resenha: Leaving Your Body Map (2001)

Álbum de Maudlin of the Well

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Difícil descrevê-lo por completo sem esquecer algo. Perfeito do começo ao fim.

Por: Tiago Meneses

18/11/2020

Se há algo que eu já disse algumas vezes – até mesmo aqui no site – é que se existe uma coisa complicada na vida de um artista é lançar uma sequência para uma obra inovadora e fazer com que ela seja tão bem recebida quanto a anterior. No ano de 2001, Bath apareceu e simplesmente varreu a cena de metal progressivo – entre outras - de vanguarda como um verdadeiro maremoto, espalhando de maneira completamente singular a sua música psicodélica experimental para sistemas de som em todo o universo progressivo. A banda simplesmente pegou vários estilos e os compilou de maneira brilhante, desenvolvendo assim um som lindo e arrepiante, executado de forma não menos do que magnifica por uma série de músicos nitidamente apaixonado pelo que estavam fazendo. Mas por que exatamente estou falando tanto do que Bath foi e esquecendo o disco aqui em questão? Bom, é que com uma obra tão grandiosa assim como precedente, definitivamente havia uma grande aposta em relação ao que iria ser feito para sucedê-la, afinal, um disco que foi classificado como um clássico instantâneo não aceitaria como companheiro um tão leviano. Porém, ao pensar assim eu estava sendo até mesmo um pouco inocente, pois Leaving Your Body Map não foi lançado apenas no mesmo ano, mas incrivelmente no mesmo dia que Bath, por tanto, a banda conseguiu proporcionar duas diferentes experiências musicais únicas simplesmente e forma instantânea.  

É impressionante como Leaving Your Body Map consegue levar as coisas a outro nível, adicionando – incrivelmente – novos sons a mixagem. Embora os discos possam ser tratados como “irmãos”, aqui existe um lado muito mais experimental e espacial que não chegou a ser mostrado com a mesma força em Bath. Com isso, mesmo eu considerando Bath perfeito, consigo enxergar em Leaving Your Body Map um trabalho mais desafiador. 

“Stones of October's Sobbing” é a faixa que abre o disco e com ela traz uma combinação um tanto estranha – inicialmente apenas – entre as letras introspectivas e melancólicas com a forma que elas são cantadas. Uma ótima, linda e relaxante maneira de começar o disco. O ouvinte vai sendo introduzido lentamente em uma atmosfera de fluxo lento e tranquilo. Mesmo com vocais rosnados e uso de pedal duplo, quase sempre a faixa não perde o seu ar de visita ao campo em um fim de semana de Outono. Digo quase sempre, pois em alguns momentos realmente soa extremamente pesada. 

“Gleam In Ranks” tem uns andamentos rápidos desde o começo e é muito mais dinâmica que a faixa anterior. Esta faixa me passa uma sensação de que está tentando comunicar uma espécie de frustração e decepção. Mas independente disso se trata de um metal progressivo bastante otimista, além apresentar uma grande interação entre guitarra e teclados espaciais. Destaque também para o ótimo desempenho vocal. 

“Bizarre Flowers / A Violent Mist” começa de uma forma suave antes da entrada de um riff épico de metal, guiado muito bem pelos vocais e com uma fortíssima melodia de apoio que inclui até barulhos que soam como sinos de igreja. Eventualmente, um solo de guitarra solene se junta à melodia antes que os sinos aumentem em um grande uníssono. A mudança que ocorre na música é algo magnifico, bateria distorcida, feedback de guitarra e uma série de rosnado agonizantes e assustadores ocorrem ao fundo. Esta música apresenta algo interessante, pois ao mesmo tempo em que tudo parece de certa forma sereno – apesar do peso -, às vezes alguns ataques caóticos a tiram da zona de conforto – ou quase isso. 

“(Interlude 3)”, aqui estas músicas não são pequenas como no disco anterior – inclusive sendo até maior que algumas faixas “normais”. Com mais tempo pare se desenvolver, também tem a oportunidade – muito bem aproveitada – de ser mais bela. Alguns violões delicados tocam uma melodia bastante pacífica antes de ter como companhia um bongô suave. Clarinete também é adicionado, além de um trompete. A banda se mostra versátil quando simplesmente decide soar desprovida do seu tom assustador de faixas anteriores e escolhe seguir por um caminho mais feliz, digamos assim, de composição. 

“A Curve That To An Angle Turn'd” possui partes agressivas, mas lentas e que combinam muito com momentos mais melódicos e oníricos. Um dos destaques também aqui vai ser a voz agradável de Maria-Stella Fountoulakis. Começa de forma agradável, mas que não dura muito, já que a música de repente se transforma em uma peça de doom metal lento e pesado, com riffs lentos e rosnados ameaçadores. É muito interessante quando eventualmente todo aquele peso dá lugar a uma música suave com a troca de vocal entre Byron e Maria-Stella. Outro processo de construção na música tem inicio através de alguns acordes tristes e solitários de guitarra, bateria e flauta o acompanho e de repente estamos dentro de mais uma seção otimista com alguns gritos em camadas que soa até mesmo meio maléfico. Embora não seja uma música fraca, nem sempre pode agradar o ouvinte logo de cara como acontece em outros momentos do álbum. 

“Sleep is a Curse” é uma música que eu acho um pouco diferente para aparecer no meio do álbum – uma mania minha que não precisa ser citada. É uma canção folk e meio indie – o que pra mim poderia ser um problema, pois detesto indie. Mas, por exemplo, a maneira maravilhosa com que os vocais se portam já me faz com que olhe pra ela com mais carinho. Na primeira metade a música é guiada apenas por alguns violões folclóricos e os vocais de Toby, no meio há o acréscimo de algumas percussões e violino, criando uma música no seu geral muito bonita. 

“Riseth He, The Numberless” é dividida em duas faixas, parte 1 e 2. É um ótimo momento de metal extremo unido a algumas letras muito fortes, soando simplesmente épica do começo ao fim. Abre com uma trompa solo de forma semelhante à que "Girl with a Watering Can" faz em Bath com o clarinete. A música então começa com muito peso e um riff de guitarra ameaçador. Enquanto isso, o rosnado de Jason Byron é excelente e leva a um riff de metal simplesmente incrível e horrível – no bom sentido, claro. A segunda parte começa depois de cerca de um minuto com algumas batidas legais e uns trabalhos suaves de guitarra – parecem usar até mesmo uma harpa. O clima quase celestial começa a mudar quando aos poucos um peso vai se estalando e tem como estopim a entrada de um vocal maligno. O solo de guitarra soa perverso e o órgão de igreja é ameaçador. A faixa chega ao fim com uma longa e arrepiante nota de órgão e uma distorção de guitarra que o acompanha. 

“(Interlude 4)” é semelhante a Interlúdio 3. Mas desta vez é um pouco mais longa. Tem a mesma atmosfera lenta e agradável com belos arranjos de violão e violoncelo. No encarte do álbum, Toby afirma que essa música foi totalmente criada em um sonho, sendo depois traduzida em um momento de lucidez. Uma faixa muito bonita do começo ao fim e que traz uma atmosfera mistificadora, sendo que realmente parece que tem inspiração em algum corpo astral. Um som realmente belíssimo e sobrenatural. 

“Monstrously Low Tide” é a faixa que finaliza o disco e apresenta a mesma atmosfera já encontrada nas faixas anteriores. Começa de forma densa e poderosa, mas logo desacelera para uma seção metal muito mais espacial com vocal feminino e masculino e que também traz algumas melodias de piano alucinantes ao fundo. Quando essa seção termina, a que começa é uma passagem de guitarra bastante sombria. Tudo vai acontecendo de maneira muito bela, com um loop pesado e efeitos de reverberação. Entre tantas nuances musicais Leaving Your Body Map chega ao fim de maneira agradável e serena. 

Leaving Your Body Map em relação à Bath é igualmente perfeito em todos os aspectos. A instrumentação e os vocais do álbum são impecáveis e as presenças de diferentes estilos vocais são sempre bem vindas em álbuns assim. Mesmo quando as músicas acústicas mais suaves são emparelhadas com as músicas mais pesadas e rápidas, o disco não deixa de soar coeso, mostrando o quanto à banda tem o total controle do que está fazendo.

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