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Resenha: Bath (2001)

Álbum de Maudlin of the Well

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Uma verdadeira obra-prima vanguardista

Por: Tiago Meneses

17/11/2020

Às vezes eu mesmo tenho que admitir ser injusto em nem sempre lembrar o nome de Toby Driver quando vou citar as mentes mais geniais do rock progressivo do século XXI. Este que certamente é um dos maiores ícones da música moderna seja através do caos em Kayo Dot, ou do mistério em Tartar Lamb, encontra em Maudlin of the Well a sua maior e mais bem feita realização. Maudlin of the Well Se trata de um grupo capaz de expandir a mente de qualquer ouvinte que se deixe levar por tantos gêneros e estilos diferentes. 

A música da banda aqui novamente é incrivelmente diversa, tanto que em um momento você poder estar na companhia de uma sonoridade serena e refrescante, mas logo é atacado de forma brutal por uma linha de death metal insano, então que em outro momento o que encontramos são alguns trompetes de jazz, em seguida algumas linhas folk, sendo que isso tudo se encaixa perfeitamente bem e soa coerente. Eles são tão ecléticos que sua definição ficaria em duas opções, sendo a primeira simplesmente como alguma música indefinida, quanto que a segunda, algo bem prolixo como um grupo de thrash death metal, rock/metal progressivo, pós-rock ambiente com toques de vanguarda – entre outras coisas mais. O importante mesmo é que tudo funciona mesmo não pertencendo a nenhum gênero. 

“The Blue Ghost/Shedding Qliphoth” abre com cerca de três minutos de um trabalho de guitarra bastante suave, que depois passa a ter a companhia de um trompete enquanto que a guitarra segue deslizando na música com muita delicadeza. A faixa vai seguindo de maneira semelhante até que em determinado momento explode uma linha de metal progressivo próximo do último minuto. Alguns acordes e ritmos muito interessantes marcam o final da faixa, servindo também como uma excelente ponta para a seguinte. 

“They Aren't All Beautiful” ao contrário do que aconteceu no começo do disco, aqui a introdução é através de riffs distorcidos de guitarra que explodem insanamente através de um metal brutal que é completo com um vocal gutural e muito uso de pedal duplo. A faixa continua em um estilo metal por toda a sua duração, mostrando que de certa forma este álbum não é para iniciantes. A faixa continua sempre com várias mudanças de riff ao longo de sua vida útil, podemos assim dizer. Uma sequência muito interessante para o quase jazz acústico que iniciou o disco. 

“Heaven and Weak” traz aquele que é certamente um dos melhores momentos do álbum. Os vocais muito característicos de Driver tocam sobre um suave riff e bateria discreta, criando um conceito com menos de oito minutos de duração de uma profundeza tão grande que muitas bandas não conseguiriam fazer em um disco inteiro. Uma faixa belíssima, com ótimos trabalhos vocais e guitarra, sendo algo digno de gigantes da música progressiva. “Heaven and Weak” apresenta um violão e sintetizador sobrepostos com vocais abafados em algumas seções. A música segue por muito tempo um ritmo jazzístico, porém confusos e também imprevisíveis. Pouco depois da metade a faixa sofre uma verdadeira explosão em uma linha sonora de metal vanguardista, algo extremamente interessante, já que os dois ritmos acabam se sobrepondo em perfeita sincronia. 

“(Interlude 1)” é uma faixa muito curta e belíssima, com trabalho tanto de guitarra quanto de violão fantástico. Mas por tudo ser em aproximadamente 1:40, não acho que exista mais nada a dizer sobre ela. “The Ferryman” começa através de um órgão meio sombrio, inclusive vou desvirtuar um pouco a resenha pra falar sobre isso. Alguém aí assiste a WWE? Então, esse órgão me lembra aos usados nas primeiras aparições do personagem Kane – isso pode parecer engraçado, mas realmente parece muito. Mas agora voltando para a música, após esse órgão muito imponente, a faixa entra em um clima mais jazzístico bastante suave e técnico apresentando um trabalho de guitarra delicioso de ouvir. Então que de repente a música se transforma em um metal incendiário, apresentando algumas seções rítmicas simplesmente magistrais, principalmente por parte da guitarra que soa como algo digno de Dream Theater – em sua fase mais inicial. Essa injeção de adrenalina sonora continua por mais alguns minutos, até que o solo de órgão se sobrepõe a toda a “loucura” imprevisível. Tudo é literalmente de arrepiar. 

“Marid's Gift of Art” é uma faixa muito mais curta do que todas – exceto que a (Interlude 1) – apresentadas até aqui, porém, maravilhosa do mesmo jeito. Apresenta um violão suave que soa muito como o apresentado na faixa anterior. Os vocais são serenos e completam perfeitamente o ótimo trabalho de violão, combinando as duas instrumentações maravilhosamente bem. A música então caminha para o seu desfecho com um acrescido de trompete que se transpõe muito bem na música. 

“Girl With a Watering Can” tem na sua abertura um toque suave de clarinete não dando muitas pretensões para faixa, mas que depois se transforma em uma verdadeira obra-prima, algo inacreditável. A música também contém vocais femininos fantásticos, cortesia de Maria-Stella Fountoulakis e que combinam perfeitamente com o clima instrumental criado. Por volta do meio do caminho, a faixa também se transforma em uma espécie de metal extravagante, ainda que neste caso seja mais lento e comparativamente mais suave se formos olhar para o resto de outras composições da banda nessa linha. Próximo dos dois minutos finais o solo de guitarra cheio de peso é magistral. 

“Birth Pains of Astral Projection” começa com uma suavidade que de certa forma já é conhecida em se tratando da banda, mas por volta de dois minutos, uma mudança de humor – algo também muito conhecido em se tratando da banda – acontece e ela se transforma num metal extremo cheio de gritos e rosnados, lembrando muito os suecos do Opeth. O peso só acaba de fato por volta dos seis minutos e meio quando tudo volta para uma linha marcante bem típica da banda. Os vocais como sempre estão ótimos e são seguidos por mais um solo de guitarra memorável. Eu acho bastante difícil de descrever esta faixa, pois embora se encaixe perfeitamente, ela se destaca no álbum por suas diferentes qualidades composicionais. 

“(Interlude 2)” é mais uma faixa bastante curta e também amarga, desta vez com um riff de baixo acústico que soa bastante divertido. Novamente não há muito a dizer, a não ser que o clima criado aqui funcione perfeitamente como transição para a faixa seguinte. “Geography” é a faixa escolhida para finalizar o álbum. Genuinamente perfeita com belas guitarras e vocais, o clima realmente parece de despedida – no caso, um até logo. Apresenta uma enorme beleza melancólica por meio de sua construção lenta e tensa. O trabalho de guitarra é excelente, talvez um dos melhores do catálogo da banda. Destaque para os incríveis dois últimos refrãos. Sendo que o primeiro ainda traz um lindo slide guitar por cima dos vocais, enquanto que o último é mais pesado e emocional. Não é sempre que é feito um álbum de qualidade tão alta. Um final de disco perfeito para um disco perfeito. 

Depois dos seus pouco mais de uma hora de duração, são muitos os momentos em que suspirar é normal tamanha a qualidade da música que a banda proporciona. Uma verdadeira obra-prima vanguardista.

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