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Resenha: Jeff Wayne's Musical Version Of The War Of The Worlds (1978)

Álbum de Jeff Wayne

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Uma mistura inusitada, mas que nas dosagens certas funcionou muito bem

Por: Tiago Meneses

16/11/2020

Apesar de não ter vivido a época, acho que não existia nada que os fanáticos por rock progressivo odiasse mais do que a música Disco. Este gênero dançante era exatamente a antítese do que o rock progressivo representava para aquelas pessoas, porém, Jeff Wayne conseguiu fazer algo extremamente improvável, um álbum conceitual – baseado na Guerra dos Mundos de H. G. Wells -, progressivo, sinfônico e pomposo com um toque de disco music em sua seção rítmica e que acabou caindo nas graças desses ouvintes. 

Em um momento onde já não se esperava muita coisa vinda do movimento progressivo – ainda que algumas bandas tenham lançado bons álbuns -, creio que era bastante gratificante ouvir algo tão majestoso em época de vacas magras para o gênero.

Na época, uma pergunta certamente deve ter pairado bastante sobre a cabeça de muita gente e que era: Mas quem é esse tal de Jeff Wayne? A resposta podia até não ser tão facilmente encontrada entre o público do rock progressivo, mas por outro lado, muito provavelmente qualquer fã de musicais da Broadway saberia a seu respeito, pois o seu trabalho é basicamente o de produtor. Porém, ele mostrou a sua grande influência ao conseguir recrutar um elenco impressionante que incluía o ator Richard Burton fazendo o papel do Narrador, a cantora Julie Convigton como Beth, além de alguns músicos conhecidos do rock como, Chris Thompson (Voz da Humanidade), Justin Hayward (Pensamento do Jornalista), Phil Lynott (Pároco Nathaniel), David Essex (O Artilheiro) entre outros. 

O CD é duplo e está dividido em duas partes: O primeiro chamado de “The Coming of the Martians”, enquanto que o segundo é “'The Earth Under the Martians”. Musicalmente o primeiro disco é certamente mais forte que o segundo. 

O primeiro abre com uma narração bastante sombria e muito apropriada de Richard Burton, que dá ao álbum uma credibilidade que funciona muito bem como introdução para uma peça musical muito pomposa e espetacular, onde pode não ser uma obra-prima, mas é realmente impressionante. Jeff Wayne captura muito bem o espírito de outros tecladistas do rock progressivo como Rick Wakeman. É nesse ponto que Wayne consegue fazer a mistura inusitada do progressivo com a música Disco, algo que fica mais estranho ainda se olharmos que o percussionista é Barry Da Souza – músico que acompanhou Rick Wakeman em alguns álbuns. O som disco aqui é tão nítido que a faixa foi bastante utilizada por DJ’s tanto no final dos anos setenta quanto durante os anos oitenta em discotecas como parte de suas misturas musicais, mas claro, sem incluir a narração. 

As duas faixas seguintes são mais focadas em narrativas e a importância de ambas está na história, logo, a menos que você realmente esteja bastante interessado na forma que o conceito foi desenvolvido, não as vejo como bons atrativos – além de serem mais longas que o necessário. “Forever Autumm” é a faixa que vem em seguida, e que também é a mais conhecida do álbum. Uma balada muito linda e também simples, com destaque para os vocais excelentes de Justin Hayward. Inclusive, depois o Moody Blues também tocaria esta faixa e iria incluí-la como single de sucesso presente em algumas compilações da banda. 

Em relação ao CD2, com certeza que o ponto alto fica por conta de “Brave New World”, uma faixa que toca maravilhosamente bem na fronteira entre o rock e algum musical da Broadway. As interpretações de Phil Lynott e Julie Convigton são simplesmente impecáveis, enquanto mantem o ouvinte envolto de um clima de suspense absolutamente deslumbrante. 

A orquestração e a condução deste disco merecem destaque, assim como a produção, tudo simplesmente no seu devido lugar. A versão original em LP tinha um livreto belíssimo que incluía alguns desenhos incríveis, porém, infelizmente isso acabou sendo perdido nas edições em CD. 

Não há a menor dúvida de que War of the World é uma das melhores – e também das mais fiéis - adaptações literárias já feitas para música. Talvez por exceção do segundo epílogo – aquele sobre a NASA – que ao menos em minha opinião parece um pouco deslocado. 

Não é uma obra-prima, mas só pela maneira desafiadora como ele se desenvolve com a suas ideias – de mistura inusitada - eu já acho que todo fã de rock progressivo deveria tê-lo. Até porque, independente de qualquer coisa, onde mais você vai ter a oportunidade de ouvir o lendário baixista do Thin Lizzy com um ex membro do Manfred Mann e o vocalista do Moody Blues compartilhando créditos com Richard Burton?

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