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Resenha: The Age Of Anxiety (2017)

Álbum de Pixx

Acessos: 50


Uma experimentadora acessível

Por: Roberto Rillo Bíscaro

16/11/2020

Hannah Rodgers nasceu na quase campesina Chisptead e estudou na afamada BRIT School, que deu ao mundo divas mainstream, como Amy Winehouse e Adele. Hannah preferiu ser alternativa, adotou o pós-moderno nome artístico Pixx (na verdade, o apelido da avó; moderno, não?) e é contratada do venerável selo independente 4AD, casa dos atuais queridinhos Beirut e Grimes, mas cujo histórico tem pérolas 80’s e 90’s, como Cocteau Twins, This Mortal Coil e Dead Can Dance.

Depois de elogiado EP, a britânica de 21 anos estreou em LP com The Age Of Anxiety. Em tempos de insensibilidade social cada vez maior, o título parece feito sob encomenda, mas a inspiração veio do nome de um longo poema de W. H. Auden, escrito em 1947, que parece que Pixx jamais leu. Na obra, o poeta fala das agruras do homem moderno, sem identidade, num mundo crescentemente industrializado. Título perfeito pra atualidade de desigualdades e ódios crescentes, mas também indicador de que vista de perto, toda era é de ansiedade.

Apesar do nome pomposo e que dá medinho de pretensão, The Age Of Anxiety não discursa muito, até porque várias faixas versam sobre experiências pessoais da compositora, como Waterslide, sobre um pesadelo recorrente da infância. A ansiedade da fragmentação e isolamento da sociedade líquida também não resultaram em trabalho casmurro. Pelo contrário, a dúzia de faixas revela – em seus naturais altos e baixos – uma menina capaz de esculpir peças pop hipnóticas e animadas, como a sensacional abertura I Bow Down. Pixx sabe como perpetrar melodias pop lindas, como em Grip e o clima pode escurecer, como em Your Delight, mas é sempre acessível. É assim, Pixx gostaria de “saber dançar como as outras garotas”, como deseja em The Girls, mas não se esforça muito pra isso, então, seu som é alternativo, mas passível de ser gostado por fãs de Lana ou até mais maduros de cabeça aberta, que sejam admiradores de qualquer artista mencionado neste texto.

Pixx não tem voz imediatamente memorável ou possante como suas companheiras de BRIT, mas não tem pruridos em tratá-la para deixar o clima lúdico, como em Toes e até floreia bonito na climática Mood Ring Eyes. Em The Age Of Anxiety essa não-overdose de vocais personalistas acaba tendo o efeito positivo de realçar os timbres e texturas, tão importantes para Pixx. Na era do pop star moribundo (pelo menos é o que dizem), a voz é apenas mais um elemento na ambiance da canção.

Um dos traços mais animadores de The Age Of Anxiety é a originalidade do pop pixxiano. Bem na tradição luxuosa dos artistas da 4AD, os arranjos são cheios de detalhes. Uma das coisas mais excitantes desse nova música composta a partir de pedaços pré-existentes em computadores é a maleabilidade possível nos arranjos. Ouça Baboo para constatar como tem coisa acontecendo o tempo todo. Claro que dá para notar certo débito à cena grime, afinal, Pixx não veio de Saturno, suas raízes estão no que ouviu e processou, que vai desde Kate Bush a Joni Mitchell. Mas, o excitante é a ausência de trechos instantaneamente reconhecíveis como isso ou aquilo. Não que tal familiaridade seja defeito, mas a música pop precisa avançar e Pixx pode ser um desses passos adiante. Tente o batuque pós-tudo de A Big Cloud To Float Upon e veja como Marrocos convive com Kate Bush, teclado sequenciado, guitarra funk-rock e electronica grime.

Pixx e The Age Of Anxiety mantem a tradição de excelência da 4AD e engrossam a fornada britânica de experimentadores populares acessíveis.

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