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Resenha: Megalázottak És Megszomorítottak (1992)

Álbum de After Crying

Acessos: 55


Para amantes da bela, mas neste caso, também exótica música progressiva

Por: Tiago Meneses

14/11/2020

Megalázottak És Megszomorítottak é o segundo disco da banda e novamente se trata de uma experiência musical linda, mas novamente também muito melancólica. As influências nativas são muito bem combinadas com sonoridades clássicas para criar um clima extremamente intimista. O domínio da banda em instrumentos como violoncelo, piano – este menos que no disco de estreia - e trompete oferece uma audição novamente nova para aqueles ouvintes de rock progressivo acostumados com a sua forma de rock and roll, digamos assim. A força da banda novamente está em sua habilidade em criar atmosferas assustadoramente belas, pouco agourentas, com algumas passagens silenciosas que levam a momentos poderosos e frenéticos, para então retornar para momentos atmosféricos calmos. Os vocais ocasionais em húngaro são cantados sempre muito suaves e usados simplesmente para complementar à música e não como um ponto focal. A bateria é sempre mínima, movendo a música sem atrapalhar nem as cordas ou o piano. 

“A Gadarai Megszállott” é a mais longa e também a primeira das cinco faixas que compõe o álbum. Uma peça progressiva extremamente bela e sombria. Depois de uma suave introdução de teclado bastante atmosférica, alguns cantos de pássaros e piano fazem com que o ouvinte imagine um cenário de névoas expressivas subindo o solo, a música começa a se abrir mais para os acordes assombrosos e muito expressivos do violoncelo, dando à música uma grandeza imponente e contínua. Se for pra fazer uma comparação com algo dentro da música progressiva, acho que o mais próximo seria com o disco Islands do King Crimson, mas fãs de música clássica, new wage ou simplesmente admirador de composições suaves e lindamente compostas certamente tem muito a ganhar conhecendo este disco. Os vocais sempre contidos – sem gritos ou rosnados – são todos em húngaro e de alta qualidade, adicionando um ambiente exótico e completam a música maravilhosamente. A instrumentação inclui os já mencionados teclados, piano e violoncelo, com a adição de trompete e uma bateria suave que mais uma vez pode fazer o ouvinte lembrar o King Crimson na era Lizard/Islands. Vale mencionar um momento por volta dos dezessete minutos em que uma voz feminina prefacia uma seção extremamente frenética e repleta de metais. Um magnifico tema de trompete emerge e os cantos dos pássaros novamente se levantam enquanto que a música vai chegando ao fim através de um fade out. Mais de vinte minutos de um trabalho simplesmente soberbo. 

“A Kis Hõs” é uma faixa mais curta e que tem como o carro chefe algumas boas linhas de violoncelo, vocais femininos muito agradáveis, trabalho de viola de muito bom gosto e alguns vocais masculinos que lembram a um canto monástico. “Noktürn” com pouco com menos de dois minutos é a faixa mais curta do disco. Apresenta um trabalho de teclado bastante melancólico e uma voz masculina muito sentimental, além de – que me parece ser – um fagote e que faz com que essa música seja ótima pra deixar de plano de fundo durante uma meditação contemplativa. A única falha aqui eu acho que é o fato de ser muito curta, quando chega ao fim, ela parece ainda ter tanto a oferecer. 

“Megalázottak És Megszomorítottak” é a faixa título e com os seus onze minutos é a outra faixa de longa duração do disco.  Possui uma seção de abertura bem mais “animada”, mas que logo contrasta com o uso de um órgão de beleza triste, além do uso moderado da bateria, trompete e piano. Tem a partir do seu núcleo até o fim, uma sonoridade perturbadora através de leves rufos de tambores que em seguida são substituídos por vocais tristonhos e uma cama de teclas extremamente lúgubre, além de pianos e trompetes que parecem estar se lamentando. Novamente a banda nos remete aos momentos mais bonitos de Islands do King Crimson. “Végül” é a faixa que finaliza o disco e também é bastante curta com cerca de dois minutos e meio. Começa através de um trabalho solitário de viola, antes que ganhe um sabor exótico que parece vir do Oriente Médio. Em seguida vem um solo de bateria com influencia jazzística – inclusive, bateria explosiva e surpreendente se comparar com a apresentada no resto do disco. Então que um desvanecimento de sintetizador encerra essa jornada musical tão gratificante que é este disco.

Um disco excelente e que a minha única reclamação é o fato da duração tão curta de três das suas cinco faixas, mas ainda assim, Megalázottak És Megszomorítottak é lindo. Mas não, este não é um disco que vai agradar a todos e eu escolheria a dedo as pessoas as quais eu indicaria essa experiência sonora. Para amantes da bela, mas neste caso, também exótica música progressiva.

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