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Resenha: Mingus (1979)

Álbum de Joni Mitchell

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O mais experimental e emblemático tributo a Charles Mingus!

Por: Márcio Chagas

14/11/2020

Alguns músicos são singulares e possuem uma obra diferenciada, com identidade tal que se destaca da maioria, criando uma música única e difícil de rotular. Neste seleto grupo podemos incluir a cantora canadense Joni Mitchell.

Joni começou tocando musica folk orientada pelo violão acústico, mas  sua criatividade a levou a inserir novos elementos em sua música, criando uma sonoridade única, com elementos de rock, jazz, pop e até musica clássica em suas canções. Todo esse talento aproximou a cantora com o pessoal do jazz e do fusion, instituindo colaborações e formando combos impensáveis para um grupo folk.

No ano de 78, Joni estreitou a amizade que tinha com Charles Mingus, emérito jazzista e um dos maiores baixistas acústicos de jazz, além de prolífico compositor. A dupla iniciou uma colaboração conjunta que se encerrou meses antes de sua morte. 

Deste modo, muitos consideram o álbum o ultimo projeto em que Charles esteve envolvido em vida, apesar de não ter efetivamente contribuído como músico, já que apresentava problemas graves de saúde.

Das doze faixas apresentadas, cinco são apenas vinhetas e pequenos interlúdios que foram enviados a Joni por Sue, ultima esposa de Mingus, o que na verdade deixa o disco com apenas seis canções, sendo que quatro delas foram compostas por Mingus, Com letra adicionada posteriormente pela cantora, incluindo o clássico “Goodbye Pork Pie Hat”.

Antes da gravação, Mitchell, meticulosa como sempre, realizou várias Jam sessions com grandes jazzistas que tocaram com Mingus como, Phil Woods, Jan Hammer, John Mclaughlin Tony Williams e outros. Essas sessões tinham como intuito entender melhor sua música e seu estilo de composição e interpretação.  

Porém, para as gravações, a cantora contou novamente com a ajuda do Weather Report, um dos maiores nomes do fusion na época, que contava com Jaco Pastorius, outra lenda do contrabaixo, o saxofonista Wayne Shorter, Herbie Hancock nos teclados, Peter Erskine na bateria e Don Alias na percussão. 

O álbum é um dos mais experimentais gravados pela cantora, que apresenta um folk jazz minimalista e ousado, com introduções e vinhetas entre as canções efetivas, deixando o disco ainda mais ousado. Deixando de lados as citadas introduções, comentarei apenas as seis faixas que compõe o disco:

Após a vinheta “Happy Birthday 1975”, temos "God Must Be a Boogie Man", uma canção que tem o fretless de Jaco Pastorius em destaque, seguido pelo violão comedido de Mitchell e sua voz doce e melódica; “A Chair in the Sky”, é a primeira canção do álbum composta por Mingus. As inserções de sax de Shorter são providenciais, fazendo um contrapondo com a voz principal na medida certa;

"The Wolf That Lives in Lindsey" encerra o lado A do vinil e soa exótica e arrastada. Um violão quase percussivo se alinha com congas, tablas e bongos. A voz tranquila de Joni canta impassível em meio a percussões e uivos de lobos. É uma canção diferente, difícil, mas igualmente bela; "Sweet Sucker Dance" abre o antigo lado B. É a maior canção do álbum, com mais de oito minutos. Novamente o baixo é o fio condutor da canção, que leva a voz da cantora a atravessar impassível em meio ao sax, piano elétrico e bateria, em um dos arranjos mais rebuscados que tive o prazer de escutar;

A malemolente "The Dry Cleaner from Des Moines", destoa do álbum com seu arranjo cadenciado cheio de groove. Uma canção que, sem a voz principal, poderia estar inserida em qualquer álbum do Weather Report; e para encerrar, a clássica "Goodbye Pork Pie Hat", talvez a composição mais conhecida de Charles, que ganhou letra pela primeira vez, mantendo o arranjo bem próximo ao original;

O álbum foi lançado em junho de 1979, cinco meses após a morte de Charles Mingus. Nada mais natural que o disco fosse lançado como um tributo ao baixista e levasse seu sobrenome. Na capa e no encarte, há varias pinturas de Mitchell, retratando Mingus e seu estilo de música. 

Embora seja um álbum difícil e complexo, “Mingus”, foi bem entendido e aceito por critica e público, chegando a 17ª posição na parada pop da Billboard, um feito e tanto para um disco recheado de arranjos jazzísticos. A  bem sucedida turnê culminou no lançamento do excelente ao vivo “Shadows e Light” lançado no ano seguinte.

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