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Resenha: Echoes, Silence, Patience & Grace (2005)

Álbum de Foo Fighters

Acessos: 72


Um ótimo álbum de rock que soa como um trabalho honesto e verdadeiro

Por: Expedito Santana

14/11/2020

Poucos remanescentes de grandes bandas conseguiram lidar tão bem com esta pesada herança quanto David Grohl, e ainda que se torça o nariz para o Nirvana, não há como negar que os caras marcaram a história do rock, que nunca mais seria o mesmo depois dos acordes simples e sujos da guitarra e da voz gritada e insana de Kurt Cobain. 

Bem, o fato é que David Grohl juntou os cacos, seguiu a vida e, logo após a morte de Kurt, fundou o Foo Fighters. Pouco tempo depois já havia produzido o primeiro trabalho da sua nova empreitada, o álbum intitulado “Foo Fighters” (1995), o qual, inclusive, carregava uma sonoridade com algumas reminiscências da sua antiga banda. 

Em meio a muitas nuvens de desconfiança sobre a duração daquele novo projeto, Grohl surpreendeu a todos mais uma vez, conseguindo liderar o Foo Fighters rumo ao panteão de grandes bandas do rock, com uma discografia digna e multipremiada, repleta de grandes momentos.  

No ano de 2007, já na condição de banda consolidada, o Foo Fighters apresentou ao mundo “Echoes, Silence, Patience & Grace”, produzido pelo competente Gil Norton, que, por um lado conseguiu preservar a energia típica da banda, por outro, afastou os excessos de outrora, o que resultou num som límpido e explosivo, que caracteriza tão bem os concertos do grupo. 

Não existe palavra mais adequada para resumir o disco que variedade, uma vez que as canções não se restringem a referências estáticas e previsíveis. E mesmo nas faixas mais acústicas e minimalistas, há sempre algum movimento e progressão subjacentes, paisagens sonoras sendo alteradas constantemente e caminhos sinuosos sendo percorridos. Estas alterações às vezes são tão velozes e surpreendentes que podem resultar numa transição de sessão punk rock para uma acústica e melódica sem prejuízo da harmonia, por exemplo.  

Em vez de optar por um disco dividido em partes acústicas e pesadas, como fez no antecessor “In You Honor” (2005), álbum duplo que reservou o peso para o primeiro e a acústica e melodia para o segundo, o Foo fez tudo isso neste disco de uma vez só. O segmento pesado do álbum é aquilo que eles sempre entregam com muita naturalidade, inclusive com a adição de certo experimentalismo, rock forte e vigoroso, majoritariamente empolgante com uma veia comercial honesta e não apelativa.  Já na parte mais acústica do disco, digamos assim, podem ser encontradas músicas de notável suavidade e beleza instrumental, baladas que extrapolam o cunho meramente radiofônico, algumas até com um caráter folk e sofisticação instrumental.  

Resumindo, a verdade é que ao longo dos cerca de 50 minutos de duração do disco podem ser vistas atmosferas repletas de riffs de guitarras delicados e fortes, vocais doces e gritados (Grohl é um dos melhores nesse quesito, conseguindo climas vocais empolgantes e enérgicos na notas), baterias em viradas e performances que beiram uma sessão de espancamento do instrumento pelas baquetas afiadas de Taylor Hawkins, momentos mais melancólicos e introspectivos bem como outros mais frenéticos e alegres. 

O disco abre com o petardo “The Pretender”, e não havia outra mais indicada que este single de trabalho, um rock arrasa-quarteirão com um começo clássico e melódico que desagua poucos segundo depois em paredes sonoras impressionantes saídas das guitarras e anunciadas pela bateria de Taylor. 
Combina com primazia a agressividade presente em canções como All My Life do álbum One By One (2002) e a batida punk seca de Monkey Wrench de The Colour and the Shape (1997). 
Lembro da primeira vez que ouvi essa música, na verdade, meu primeiro contato foi por meio do vídeo clipe oficial que, aliás, é muito bom. Posso resumir a impressão numa frase interrogativa: “de onde esses caras tiram essa intensidade toda?”. 

A letra de The Pretender é uma espécie de crítica política e social, ao assistir o vídeo clipe dessa música é possível entender o motivo, notadamente pela cena em que a banda enfrenta uma tropa de choque da polícia posicionada atrás de uma linha preta no chão. É uma canção perfeita para ser tocada ao vivo, principalmente por conter aquele potencial incendiário de muitas músicas do Foo. Adoro aquela pegadinha pouco depois dos 3 minutos quando a música parece que vai terminar, mas volta com força total apoiada no vocal impactante de Grohl. Em 2007, foi incluída na trilha sonora do jogo Tony Hawk's Proving Ground, para PlayStation 2 e 3. Resumindo, uma excelente faixa com um claro potencial de atemporalidade.  

"Let It Die" consegue mesclar com primazia o acústico suave e o elétrico vibrante. Lembra no início aquelas camadas acústicas do lado B do disco “In Your Honor”, porém, logo riffs pegajosos deixam as coisas mais animadas. Os vocais de Grohl são contidos durante boa parte da música até ficarem completamente insanos ao final. Vale dizer que as guitarras dessa canção são cortesia do músico convidado Pat Smear e os teclados discretos ficaram a cargo de Rami Jaffee.   

“Erase/replace” mostra um ótimo trabalho de guitarras e bateria, remete um pouco a canções de “One By One”. As duas guitarras trabalham em riffs complementares produzindo um fluxo sonoro bastante aprazível. Solo minimalista e sem qualquer firula. Destaque para o baterista Taylor Hawkins, que consegue delinear todas as nuances e mudanças da música. Seu refrão marcante fica ecoando na mente após o final da audição. 

“Long Road To Ruin” vem logo em seguida, começa com a batida característica do Foo, riffs de guitarra mais lentos que crescem depois junto com a bateria, deixando a canção agradável e otimista. As letras, por sua vez, seguem roteiros mais introspectivos: “...Talvez a estação/ As cores mudem nos céus do vale/ Meu Deus, eu que selei o meu destino/ Correndo pelo inferno, o céu pode esperar/ A estrada longa para a ruína está nos seus olhos/ Debaixo das luzes frias da rua/ Sem amanhã, nenhum beco sem saída à vista...”. Destaque para o singelo solo de guitarra, precedido pelas baquetas que ameaçam detonar o cenário.

“Come Alive” inaugura um clima mais melancólico e carregado, calcada por violões no início, vai crescendo e encorpando ao longo da sua execução. Adoro a transição para a sessão mais pesada, notadamente a partir dos três minutos, quando um matiz grunge e sujo começa a aparecer gradativamente, os vocais passam a ser gritados e as guitarras densas completam a decoração da paisagem sonora. Uma ótima música que engana com seu começo suave. Novamente um ótimo trabalho de bateria de Taylor na segunda parte, com o arranjo percussivo ficando nas mãos do convidado Drew Hester. Rock de arrepiar!!

“Stranger Things Have Happened” tem vocais excelentes no início e um instrumental mais emotivo. Uma canção de batida folk que lembra sons do Johnny Cash e proporciona um momento de maior contemplação. Um duo de violões que deixa o vocal de Grohl bem evidente, com refrão pronunciado com elegância.  

“Cheer Up Boys, Your Makeup Is Running” carrega a assinatura típica da banda. Contém aqueles elementos que eles combinam com maestria: energia, otimismo e força. Ótimo backing vocals do guitarrista Chris Shiflett, que também apresenta seus riffs poderosos.   

“Summer's End” é outra canção que carrega o DNA da banda, porém, com uma rotação mais baixa, bom trabalho de bateria e um vocal comportado de Grohl, que também executa o piano. Solo de guitarra muito bom que introduz uma base de blues surpreendente. 

“Ballad Of Beaconsfield Miners” uma canção instrumental que foi composta em homenagem a dois mineiros australianos que ficaram presos em um buraco e pediram um iPod com músicas do Foo Fighters, é baseada num violão country tocado pelo músico adicional Kaki King e concede um interlúdio de relaxamento. Há quem considere a presença de algumas reminiscências da música brasileira aqui, coisas vindas de Mutantes e Secos e Molhados, mas confesso que não as reconheci muito claramente. 

“Statues” é uma bela balada ao piano tocado por Grohl de influência setentista admirável. Uma música que encontra semelhança notória em trabalhos de Paul McCartney, com direito a passagens de um acordeon tocado por Rami Jaffee e um trabalho de fiddle, violino e violoncelo, de Brantley Kearns Jr. Uma grata surpresa para os amantes do rock mais calmo e clássico. Quem disse que os caras só sabem fazer um rock gritado e eletrizante?  


“But, Honestly” começa como uma batida afável de violão punk e melódico, meio Green Day, e segue a fórmula antes utilizada de começar acústica e findar elétrica. Apesar de não ser uma música ruim, considero-a bem mediana e pouco atrativa, ficando abaixo das demais.
 
“Home” fecha o álbum e segue os caminhos de “Statues”, uma balada afetuosa calcada integralmente num piano tocado por Grohl, que mostra mais uma vez os seus dotes clássicos, com acompanhamento orquestrado e exalando um clima belíssimo e mais intimista. Dessas músicas que se ouve ao final de uma noite para meditar sobre a vida. Final bucólico e majestoso.  

Em conclusão, considero “Echoes, Silence, Patience & Grace” um ótimo álbum de rock e, embora não seja uma obra-prima, contém elementos de grande beleza e diversidade estilística, além de soar como um trabalho honesto e verdadeiro, feito por uma banda que não está apenas preocupada em vender discos.

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