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Resenha: One Hour By The Concrete Lake (1998)

Álbum de Pain Of Salvation

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A técnica instrumental, a emoção e a criatividade do metal progressivo

Por: Expedito Santana

02/11/2020

Este disco marca o segundo registro de estúdio do Pain of Salvation, banda sueca de metal progressivo que considero uma das maiores da cena atual. Diferente de “Entropia” (1997), seu primeiro álbum, “One Hour By The Concrete Lake” carrega uma assinatura musical mais consistente da banda. 

Estamos diante de um trabalho de maior envergadura que o álbum anterior, calcado num metal progressivo de ótima qualidade e riqueza musical. Aqui não se vê uma banda executando um som tradicional e assentada em sua zona de conforto, ao contrário, percebe-se que os suecos conseguem avançar sobre terrenos desconhecidos, criando peças musicalmente exuberantes a partir de paradigmas instrumentais não triviais. Vale destacar que o álbum foi muito bem recebido pela crítica, rendendo um contrato com a gravadora InsideOut Music no ano seguinte ao seu lançamento, além de uma turnê europeia. 

Um pouco antes das gravações do disco a banda sofreu uma pequena alteração na formação que havia gravado Entropia, já que o guitarrista Magdic deixa a banda e é substituído por Johan Hallgren. A maioria das faixas foi composta pelo engenhoso líder da banda Daniel Gildenlöw, força criativa incontestável e principal vocalista/guitarrista, que também atuou como produtor do álbum ao lado de Anders "Theo" Theander. 

“One Hour By The Concrete Lake” é uma obra de estrutura conceitual com letras que abordam questões relativas à energia nuclear, lixo, poluição, natureza, povos indígenas, indústria de armas de fogo e descoberta humana. Foi lançado pela Avalon Records no Japão em julho de 1998. Posteriormente, foi distribuído na Europa em janeiro de 1999 na InsideOut, em novembro de 1999 nos EUA na InsideOut America e na América do Sul em novembro de 1999, pela Hellion.

O álbum narra a história fictícia de um homem que trabalha na indústria de armas, que começa a questionar o aspecto moral de seu labor, constatando ser mais uma peça de uma “grande máquina" que controla sua vida. Posteriormente, toma a resolução de descobrir quais consequências sua vida e seu trabalho têm em outras partes do mundo e decide libertar-se da máquina viajando para outras partes do mundo e indo a lugares diferentes para analisar os efeitos que a armas estão causando à sociedade. Encontrando nessa viagem nativos americanos em luta com o homem branco colonizador para recuperar a sua terra sagrada, seriamente ameaçada pela poluição e contaminação (lixo, urânio etc.). O álbum termina com a letra de “Inside Out” deixando de forma explícita a ideia de que qualquer pessoa poderia entender, até com certa facilidade, desde que olhasse para dentro de si mesmo, o sentido real e as consequências das ações presentes no mundo e, sobretudo, no meio ambiente, se ficasse uma hora à beira do lago de concreto, daí a origem do título do álbum. 

Faço abaixo uma análise mais minuciosa das 11 faixas que compõem o álbum, cuja duração total é de 58 minutos e 35 segundos.   

“Spirit of the Land” é um arranjo instrumental breve calcado nos teclados, servindo como uma introdução ao álbum. Deixa um clima de tensão no ar que coaduna perfeitamente com as faixas que estão por vir. 

“Inside” emenda com a anterior e é uma música bem intrincada a julgar pela sua média duração (6:12), começa com ótimo trabalho de guitarra e bateria, com destaque para os pratos e bumbo, notas rápidas do teclado de Hermansson e riffs de metal, depois muda seu ritmo para riffs mais descontínuos de guitarra, com a bateria dando as coordenadas e uma linha vocal linda de Daniel proporcionando um verdadeiro show de canto metal, com agudos poderosos e arrepiantes. A partir dos quatro minutos emerge numa sessão de piano delicado e um canto melódico até que Daniel explode com um enérgico vocal e a guitarra e bateria ficam mais fortes e pesadas, vai crescendo em trabalho vocal e instrumental, com o teclado ao fundo até que termina abruptamente ao som do barulho do mar. Uma canção tão boa que parece ser curta. 

“The Big Machine’ soa mais sombria e possui andamento arrastado, calcada naquelas harmonias vocais intensas cantadas em notas baixas, que seriam uma característica presente em outros trabalhos do Pain of Salvation. Os teclados proporcionam um clima sinistro, assim como o vocal de Daniel, enquanto a guitarra está mais acima com riffs muito bons. A partir dos três minutos Daniel incendeia tudo com agudos poderosos e a música vai crescendo até repousar, mais uma vez, num seguimento vocal mais melódico e riffs lentos, terminando desta forma. Mais uma faixa excelente. 

“New Year's Eve” começa com guitarras bem genuínas em andamento lento e depois com a bateria levando a música para uma jornada mais comum de metal, acompanhada de riffs ora meio barulhentos ora mais discretos e leves. Esta canção, como dito acima, é bem comum, porém, os arranjos instrumentais e, principalmente, os vocais de Daniel dão um verniz especial, com a assinatura do Pain ficando nítida aqui. O fechamento desta música nos reserva, sem dúvida, seu segmento mais melódico e belo, o qual é comandado por um teclado/piano singelo com Daniel cantando docemente. Boa faixa. 

“Handful of Nothing” soa como algumas peças presentes em Remedy Lane (2002). Uma faixa pautada por riffs de guitarra rápidos e muito empolgantes desde o início, o trabalho de bateria também é um destaque aqui. Após os dois minutos, há uma quebra de ritmo baseada nos vocais e na guitarra, deixando o clima mais ameno, até voltar novamente aos riffs rápidos do início, os teclados fazem acordes discretos e singelos ao longo da música, contribuindo para uma atmosfera um tanto contrastante, diria até pendular. A partir dos quatro minutos e meio a música recai numa transição liderada pelo vocal melódico de Daniel, numa harmonia excelente e edificante, tendo uma breve guitarra viajante e acústica como atrativo, até terminar em uma harmonia vocal mais acelerada que emenda com a faixa seguinte.  

“Water” começa com riffs mais pesados, porém, depois a melodia passa a incorporar à paisagem sonora. Uma balada com guitarras viajantes e emocionais que desaguam em sessões de metal mais pesadas, com o vocal de Daniel mostrando muita versatilidade. O refrão é mais calmo e repleto de harmonias vocais notáveis. Solo de guitarra matador, embora muito conciso. O destaque aqui são as transições de metal para partes mais melódicas, recurso que o Pain domina como poucos. Tem um final de beleza reluzente, com os vocais enternecidos de Daniel intercalando com passagens de metal. O DNA do Pain Of Salvation é facilmente reconhecido nesta peça.  

Concatenando com a anterior vem “Home”, que tem uma cadência um pouco mais rápida no início, principalmente pela presença da bateria, mas que depois assume uma melodia baseada em vocais e notas singelas de guitarra. As letras refletem sobre a problemática existência dos povos indígenas, denunciando situação que não é tão distante da experimentada atualmente pelos nativos aqui do Brasil. Daniel entoa: "O homem branco, ele vem e vai/ Ele pode ir/ Mas aquela tem sido nossa terra-pátria há milhares de anos/ É nosso lar, e jamais sairemos de lá/ Não importa o quão contaminada esteja/ Vivemos lá! Sempre vivemos lá e lá/ Sempre viveremos". Na parte final a guitarra domina o cenário nos brindando com momentos sensacionais, ora lentos e melódicos ora mais agressivos e vigorosos. Solo muito bom de guitarra. Uma bela canção que apresenta mudanças rítmicas constantes e surpreendentes com o vocal de Daniel, mais uma vez, bem versátil. Verdadeira aula de metal progressivo melódico.    

Em “Black Hills” os riffs carregados e lentos dão o tom inicial. Em seguida a música assenta numa guitarra mais suave e a bateria cria um clima percussivo de suspense, com o vocal levemente distorcido de Daniel conferindo densidade. Sem dúvida, estamos diante de mais uma canção de muitas transições e nuances charmosas. Na segunda parte uma linha de baixo respeitável, a guitarra e o piano/teclado são os componentes que mostram a capacidade desses caras. A música então emerge para uma performance vocal impressionante de Daniel, com um canto de influência da música oriental em uníssono complementado por arranjos belíssimos e uma guitarra sensacional em solo. Outra ótima faixa. 

“Pilgrim” é uma canção de grande apelo melódico, pautada em riffs de guitarra acústica minimalistas com um encaixe notável, vocais afetuosos e um refrão lindo de apelo folk. Sei que parece até meio redundante dizer que um bom refrão ressoa infinitamente no pensamento, mas o desta canção é muito pegajoso por conta do vocal de Daniel. Apesar da suavidade, esta faixa não abandona um clima sombrio de fundo. O violoncelo de Katarina Åhlén dá uma beleza sinfônica incrível. O único defeito desta peça é ser curta demais, acaba funcionando como um interlúdio de relaxamento e contemplação.

“Shore Serenity”, assim como a anterior, é uma canção curta, de textura suave e notadamente acústica em alguns momentos, incluindo uma tonalidade mais sinfônica mesclada com passagens ultrapesadas de guitarra, bateria e harmonias vocais. Esconde atrás da suavidade camadas sombrias e misteriosas que emergem sorrateiramente, principalmente dos vocais de apoio. A música avança na segunda parte com uma combinação de sintetizadores industriais em destaque e guitarras elétricas com riffs cortantes.

“Inside Out” fecha os trabalhos, é a faixa mais longa e uma das melhores na minha opinião, cerca de treze minutos, começa com riffs rápidos e pesados adicionados a teclados inquietos. A bateria de Langell faz um trabalho primoroso, dando um clima frenético em alguns momentos, os vocais de Daniel são mais vigorosos e potentes. Bem próximo aos dois minutos a canção entra numa sessão melódica com belos teclados e uma boa linha de baixo de Kristoffer com guitarras meio acústicas, os vocais de Daniel são impressionantes. Pouco após os três minutos um solo lindo de guitarra faz o cenário ficar ainda mais contemplativo. Caindo logo em seguida na mesma segmentação pesada e rápida do início. Daniel consegue timbre e variações notáveis, que dão um colorido especial. Logo após os seis minutos a música baixa o volume e parece que irá terminar, entrando num clima de silêncio e depois em sons não reconhecíveis, aliás, bastante demorados e que não acrescentam muita coisa. Até que próximo dos onze minutos o vocal de Daniel retorna à canção e introduz uma sessão instrumental puxada pela bateria e por uma sinfonia linda e curta de violoncelo. A música volta a entrar em silêncio e termina assim. Performance digna de manual de metal progressivo. 

Em que pese “One Hour By The Concrete Lake” não ser considerada uma obra-prima do Pain of Salvation, indiscutivelmente, este disco apresenta um direcionamento musical sofisticado, forte, denso, diversificado e melódico, contendo todos os elementos que fizeram da banda um dos maiores expoentes do metal progressivo, notadamente a técnica instrumental, a emoção e criatividade.

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