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Resenha: Madame X (2019)

Álbum de Madonna

Pop

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A capacidade de Madonna para reinventar-se após 35 anos de carreira

Por: ANDREZA SILVA

01/11/2020

O que torna alguém uma lenda? Qual fator X faz com que determinado artista transcenda o tempo e contemple de maneira tão significativa com sua arte novas gerações, atingindo várias faixas etárias, credos e culturas? A resposta é: REINVENÇÃO (capacidade de quebrar totalmente uma imagem e construir outra, sem perder a própria essência). Partindo desse pressuposto, Madonna não é só Rainha do POP, mas também a magnata absoluta da reinvenção POP.

Em 35 anos de carreira, Madonna foi simplesmente TUDO: Talentosa, carismática, polêmica, ousada, inovadora, espiritual, destemida, política, contestadora da sociedade machista, desigual, hipócrita e fundamentalista na qual estava inserida, militante pelas causas feminista e LGBT+, sensual (e sexual) e uma das precursoras no lançamento das bases do POP como conhecemos hoje. Praticamente todas as artistas femininas contemporâneas que fazem música POP bebem de sua fonte e fazem uso de suas referências artísticas. Ao longo de mais de 3 décadas de carreira e até antes do lançamento de Madame X, 13 discos lançados, o principal questionamento era: Madonna, aos 60 anos, ainda é capaz de se reinventar? Bem, a resposta está na produção de qualidade etérea de Madame X, seu 14º álbum de estúdio, lançado em 14 de junho de 2019.

Em Madame X, Madonna surpreende por não se curvar as demandas da indústria e à música POP atual (essa por sua vez, genérica e simplista). A Rainha do POP concebeu um álbum conceitual, político, profundo e regado de influências musicais do mundo ao longo das 15 faixas de sua versão deluxe, e mesmo que haja alguns momentos mais descontraídos no disco, a exemplo de Medellín (primeiro single do disco e colaboração com o cantor colombiano Maluma) e Faz Gostoso (que trás a brasileira Anitta), a produção se mantém elegante, o que contribui para manter a fluidez do disco, apesar da variedade de influências musicais existentes no registro. A coesão é um elemento tão marcante em Madame X, que em determinados momentos do disco, mal percebemos a transição de uma faixa para outra.

O álbum abre com Medellín, primeiro single e parceria com Maluma. A cativante canção consiste em um reggaeton estilizado onde Madonna e Maluma, ao longo de versos cantados em inglês e espanhol, discorrem sobre entregar-se a um novo amor, deixando para trás qualquer traço de dor do passado. Dark Ballet (o terceiro single) trás uma atmosfera densa e pesada que se contrapõe a faixa anterior. Aqui, Madonna usa referências clássicas em uma ode a heroína francesa Joana d'Arc. O videoclipe, inclusive, trata sobre o Tribunal da Santa Inquisição e Joana d'Arc é um personagem gay, negro e soropositivo que, por sua vez, representa uma minoria oprimida pela sociedade e religião (Uma inteligente analogia crítica ilustrada por uma produção visual que é um show de fotografia a parte).

A atmosfera melancólica e contestadora segue com God Control, no qual Madonna crava críticas ao sistema que rege o mundo e aos governos que oprimem o povo. As referências religiosas seguem nessa faixa através de um sofisticado coral gospel que evolui para uma faixa dance. Em God Control, Madonna lamenta:

"Quando eles falam sobre reformas, fazem-me gargalhar
Eles fingem ajudar, fazem-me gargalhar
Eu acredito entender a razão pela qual pessoas pegam em armas
Acredito entender o porquê de desistirmos
Todo dia eles têm algum tipo de vitória
Sangue inocente, espalhado em todo lugar
Eles dizem que precisamos de amor
Mas precisamos de mais que isso
Nós perdemos o controle divino".

Dando seguimento a narrativa de protesto que permeia o álbum, Future (feat Quavo) é embalada por um reggae, aqui, Madonna alerta:

"Nem todo mundo chegará ao futuro
Nem todo mundo aprenderá com o passado
Nem todo mundo consegue entrar no futuro
Nem todo mundo aqui irá durar".

Batuka é uma das joias em Madame X, a produção impecável tem um instrumental envolvente e as preces das batukeiras africanas de Cabo Verde fascinam e enriquecem culturalmente a canção, bem como é um ponto que torna as influências culturais do disco mais diversificadas. Em Killers Who Are Partying, Madonna externaliza a inevitável influência lusa em sua arte (Desde 2017, Madonna vive em Portugal), o Fado português conduz uma letra forte e de protesto, na qual Madonna se propõe a dar voz e intervir pelos oprimidos. No refrão, a Rainha canta em português "O mundo é selvagem e o caminho é solitário".

Do Fado português passamos para o Trap de Crave (com Swae Lee) e, apesar da mudança da atmosfera musical, a fluidez não abandona o disco. Aqui, Madonna canta o amor e desejo, bem como a necessidade de entregar-se a tais sentimentos. O registro tem seguimento com a charmosa Crazy, cuja introdução é feita com sanfona (mais influências da música portuguesa) e que evolui para um cativante R&B com um refrão também em português. Crazy é, com certeza, um dos mais belos registros vocais de Madonna ao longo do álbum.

As duas faixas seguintes, Come Alive e Extreme Occident, trazem referências à música do Oriente Médio e na segunda canção, novamente temos Madonna cantando em português:

"Aquilo que mais magoa
É que eu não estava perdida
Aquilo que mais magoa
É que eu não estava perdida".

Em Faz Gostoso, parceria com Anitta, temos talvez a mais inusitada faixa do disco (e também a mais brusca transição de uma faixa para outra). Apesar de ter uma letra mais descontraída (Madonna e Anitta falam sobre um cara que as deixam loucas e que "faz tão gostoso") que destoa do caráter mais político e contestador do disco, Faz Gostoso funciona dentro do disco, ainda que não seja uma canção que contribua de maneira significativa dentro dele. Bitch I'm Loka (feat com Maluma) é mais um reaggeton que mantém a mesma linha da faixa anterior liricamente falando e que, a essa altura, se torna a faixa mais dispensável do disco.

I Don't Search I Find é uma daquelas faixas que remetem ao POP de Madonna dos anos 90 (sua base me lembrou Vogue) e mais uma vez, Madonna discorre sobre encontrar o amor. Mais uma faixa cuja produção elegante e cujo instrumental grave fascina. Looking For Mercy retoma a aura melancólica e pesada e, ao decorrer desta bela prece de Madonna, a canção evolui para uma marcha quase que transcendental.

Finalizando a versão deluxe do álbum, I Rise é mais um grito de protesto dentro do disco. A faixa abre com o discurso da jovem militante contra o porte generalizado de armas, Emma Gonzalez: “Nós, jovens, não sabemos do que falamos
Que somos novos demais para entender como funciona o governo. Nós respondemos: foda-se!”.
Madonna dá seguimento á canção encorajando a todos a seguirem lutando e a resistir sob o som de guitarras experimentais, encerrando Madame X de maneira esperançosa, linda e apoteótica mostrando que a artista é, dentre muitas coisas, uma professora, uma chefe de estado, uma cantora, uma santa, uma mulher a frente de seu tempo e uma... Rainha (INCONTESTAVELMENTE).

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