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Resenha: Beat (1982)

Álbum de King Crimson

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Tentativa frustrada de combinar o rock progressivo com a new wave

Por: Expedito Santana

31/10/2020

Não foi só ao Yes e Genesis que os anos 80 fizeram mal. Até o grande King Crimson foi mordido pela mosca new wave, cujo veneno resulta quase sempre numa tentadora tendência de salpicar pitadas pop e dar um verniz mais comercial à música. E olha que os caras começaram a década de 80 com o pé direito após o exuberante “Discipline” (1981). E, ainda que apareça neste uma ou outra camada mais pop, é possível constatar o som intrincado e desafiador que a banda tem como marca. 

Como já disse em outras análises que fiz aqui no 80 Minutos, não tenho qualquer problema para entender as mudanças musicais de uma banda, mas o que parece difícil aceitar em “Beat” é uma espécie de metamorfose que baniu a própria alma do grupo. E olha que o hiato que separa o notável “Discipline” de “Beat” é de apenas um ano. 

Se esse disco fosse de qualquer outra banda iniciante da cena pop oitentista, minha análise seria completamente diferente, mas estamos falando de um medalhão que produziu grandes clássicos do rock progressivo (In the Court of the Crimson King, Red etc). “Beat” bebe no pop, acerta um pouco em algumas coisas, mas no geral não chega nem perto de um rascunho do notável Rei Escarlate em seus melhores dias. Foi lançado em 1982, é o nono álbum de estúdio do King Crimson e contém oito canções inspiradas na geração beat, movimento cultural, artístico e social que pregava uma vida de maior contemplação da natureza e busca de uma espiritualidade individual, incluindo a resistência ao materialismo, à ordem e às convenções preestabelecidas da sociedade.  

A faixa de abertura "Neal and Jack and Me" parece uma mistura de The Police e Peter Gabriel, uma canção pop xarope calcada nos vocais de Adrian Belew, que não empolga em momento algum. Por mais que tenhamos boa vontade, ela vai e volta e continua presa a uma sessão rítmica que não convence, nem aos mais tolerantes e generosos, e olha que aprecio música pop. O "Jack" do título é o escritor Jack Kerouac, um dos maiores intelectuais do movimento Beat, e "Neal" é um amigo de Kerouac, Neal Cassady. Por essa referência, inclusive, entendo que Jack Kerouac merecia uma canção de maior qualidade ou, ao menos, algo que remetesse com maior propriedade ao clima boêmio e hedonista que geralmente perpassava em suas obras. 

"Heartbeat" é um pouco melhor que a abertura, canção com a cara dos anos 80, mas, assim como a primeira, carece de alma e verdade, é como se o tempo todo houvesse uma tentativa de emulação de alguém. 

Em “Sartori in Tangier” os sons iniciais até prometem algo diferente, mas para decepção geral a canção recai numa batida meio eletrônica que remete um pouco a New Order, sem a pegada necessária, no entanto, para se sobressair no estilo synth-pop. Uma música instrumental sem qualquer direcionamento, funcionando quase como um “preenchimento”. Esta música foi inspirada no livro de Jack Kerouac, Satori in Paris, havendo a banda substituído Paris por Tangier, uma cidade portuária marroquina situada no Estreito de Gibraltar.

“Waiting Man” começa sinalizando para algo mais animado e complexo, até que entra um vocal de Belew meio Sting, com a música indo para um andamento world music, francamente, não lembra quase nada de King Crimson. Partilha do mesmo pecado das anteriores, ou seja, falta uma proposta clara, mesmo que seja o caos e a esquizofrenia. O trabalho de bateria de Bruford até que é bem digno. Fripp faz algumas inserções interessantes com a sua guitarra, sem, contudo, alterar o estado de coisas. 

“Neurotica”, cuja letra descreve um zoológico urbano, tenta chegar mais próximo do King Crimson que conhecemos, começa com vozes, sirenes e sons fragmentados e um andamento meio insano, os vocais de Belew são falados no início. No entanto, de repente, a canção desemboca numa sessão pop “água com açúcar”, com os vocais de Belew se esforçando para dar alguma melodia. Depois, por breves momentos parece que a coisa vai explodir e que o velho King Crimson retornará, mas é alarme falso. O trabalho de Bruford é eficiente, porém, nada consegue edificar essa música. 

“Two Hands” é uma balada meio Sting, os vocais de Belew até que são um bom atrativo desta canção. De novo, não parece quase nada com King Crimson, exceto por algumas notas meio marotas da guitarra de Fripp. Foi escrita pela ex-esposa de Adrian Belew, Margaret Belew, há notícia de que a sua inclusão no álbum foi meramente para preencher espaço, já que, segundo o próprio Belew, os demais integrantes da banda não gostaram muito dela. 

"The Howler" tem boa abertura com guitarras e cozinha trabalhando em harmonia. Os vocais de Belew dão um certo tom blasé, que, aliás, permeia toda música.  Uma composição que até se mostra instigante em alguns momentos. Na segunda parte remete um pouco a trabalhos anteriores do King Crimson, mas não espere nada muito clássico e fértil. A letra foi inspirada no poema Howl, de Allen Ginsberg, outro grande expoente do movimento Beat. Os versos entoados por Belew denunciam tal influência: “Aqui está o anjo do desejo do mundo/ Posto em julgamento/ Por se esconder nas silhuetas misteriosas de um bairro/ Com um cigarro bobinado/ Para ouvir as vozes transeuntes/ Sombrias e suspeitas/ Aqui está o fogo uivante...”

“Requiem” faz a despedida e eis que podemos ver algo com a cara do velho e bom King Crimson, destaque para a guitarra de Fripp. Um instrumental com a guitarra produzindo alguns sons mais angulares e relaxados. Uma sessão experimental que pode ser considerada a melhor música do disco. Não salva o álbum, mas evita o vexame. Essa faixa deixa aquele gosto de saudade (ahh!! como eu queria mais disso aqui!). 

A meu ver, “Beat” pode ser considerada uma tentativa frustrada de combinar o rock progressivo com a new wave, não conseguindo apresentar, no geral, a complexidade e beleza do primeiro e nem tampouco a melodia e o balanço do último. Apesar de tudo, o King Crimson tinha muito crédito e ainda iria proporcionar coisas muito melhores doravante, a exemplo de THRAK (1995) e The ConstruKction of Light (2000).

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