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Resenha: Scratch My Back (2010)

Álbum de Peter Gabriel

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Cantando de Paul Simon a Radiohead

Autor: Roberto Rillo Bíscaro

13/01/2018

PETER GABRIEL adorava cantores negros norte-americanos, mas acabou cantando no GENESIS, cuja filiação ao rock progressivo dava pouco espaço às influências R’n’B. Em 1974, Gabriel deixou a banda e escolheu caminho mais experimental; longe de ser inacessível, porém. Seus álbuns tornavam-se cada vez mais densos, intrincados. À influência dos cantores negros norte-americanos foram se somando as de músicos dos quatro cantos de globo. Sua rica voz - cada vez mais rouca - nunca foi muito ressaltada pela imprensa musical, impressionada (ou não) pela complexidade dos arranjos e produção de seus discos.

Em 2010, Gabriel teve vontade de mostrar que é um dos grandes vocalistas de sua geração. Pra realçar e valorizar sua habilidade e sensibilidade vocais, montou um álbum sem guitarras ou baterias. Os arranjos são orquestrais, responsabilidade de John Metcalfe, arranjador de cordas pra músicos como MORRISSEY e parceiro de Viny Reilly, no DURUTTI COLUMN.

Outra decisão importante pra evidenciar sua voz e não suas habilidades de compositor foi organizar um álbum apenas de releituras. Livre da composição e da produção, Gabriel dedicou-se a esmiuçar emocionalmente cada uma das 12 canções escolhidas pra torná-las “suas”. Desse esforço, resultou Scratch My Back, gravado no estúdio Real World, do próprio Gabriel.

O cantor regravou compositores como DAVID BOWIE (Heroes), PAUL SIMON (The Boy in the Bubble),TALKING HEADS (Listening Wind) e NEIL YOUNG (Philadelphia). Mas, não ficou apenas em seus coetâneos. Peter canta REGINA SPEKTOR (Apres Moi), RADIOHEAD (Street Spirit) e ELBOW (Mirrorball) também.

Se queria provar que sabe cantar com alma, PG conseguiu com louvor. Sua voz vai do trêmulo murmúrio ao esganiçar do agudo, do quase sussurro ao grito. “Heroes”, a adorável “The Book of Love”, do MAGNETIC FIELDS e a nuançada e complexa “My Body is a Cage, do ARCADE FIRE, estão entre os destaques.

Scratch My Back padece de problema na produção, porém. Muitos dos arranjos soam parecidos. Em casos como The Power of the Heart (LOU REED), a interpretação fenomenal queda relegada a um arranjo açucaradamente “Disney”. Tanta sacarina e mesmice dão um pouco de sono ou dispersam a atenção em algumas partes do álbum.

Pra quem quer relaxar, está interessado em interpretações vindas do fundo do coração ou se convencer de que Gabriel é um grande cantor, Scratch My Back é a pedida.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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