Para os que respiram música assim como nós


Resenha: End Of The World - Rain & Tears (1968)

Álbum de Aphrodite's Child

Acessos: 437


Um disco excelente onde as sementes de 666 estão começando a florescer

Por: Tiago Meneses

22/10/2020

Logo após a formação da Aphrodite’s Child, o guitarrista Anargyros “Silver” Koulouris foi chamado para o serviço militar obrigatório e com isso teve que deixar a banda – retornando apenas para a gravação do clássico 666 -, com isso eles se transformaram em um trio, com Demis Roussos segurando as pontas tanto no baixo quanto na guitarra. 

Através desta formação emergencial eles lançaram End of the World em 1968, um disco que os levariam à fama devido ao sucesso alcançado com o single “End of the World” que alcançou o Nº 1 na maior parte da Europa , porém, deve-se destacar que o álbum é composto por muito mais do que um single de sucesso. A mistura delicada e aventureira de uma psicodelia com raízes étnicas gregas é simplesmente um deleite. Talvez se comparado com 666, sua obra-prima, as coisas soem até um pouco ingênuas, porém, é notório que estes garotos estavam produzindo músicas muito bem elaboradas e interessantes. 

O disco começa através da faixa título com o jovem Demis Roussos cantando de uma maneira absolutamente dramática e clara, criando um momento nostálgico que é quebrado com seus gritos sentimentais, mas logo regressa para a linha serena. Esta faixa é muito mais que uma simples balada, a influência folk grega é mais do que evidente. Vangelis adiciona algumas seções de órgão que são excelentes e de uma orientação evidente da música psicodélica do final dos anos sessenta. Uma faixa de atmosfera desanimadora e de pura paixão. “Don't Try To Catch A River” é muito mais rápida e ágil que a faixa anterior, mas não menos interessante, mesmo quando alguns momentos descolados parecem anunciar somente uma faixa pop cativante, os teclados maravilhosos de Vangelis a transportam para algo além, nos levando a uma viagem psicodélica eletrônica, enquanto que Lucas Sideras, além de trabalhar como um metrônomo humano, adiciona backing vocals dissonantes que provam o quão elaborada é esta faixa.

“Mister Thomas” é uma faixa que dependendo da maneira do ouvinte recebê-la, ela pode soar de forma até meio infantil, porém, não vamos ignorar o fato de que estamos diante de uma banda grega e que querem incluir suas raízes étnicas em sua música. Sim, você pode dançar quase como faria com uma Tarantela, porém, eles estão soando como quem diz, “somos gregos e não queremos soar como uma banda britânica”. “Rain and Tears” é outra faixa que fez com que a banda ganhasse popularidade, onde mesmo sendo basicamente uma balada, os coros mais o órgão sutil e o violino a tornam interessante do começo ao fim. 

“The Grass Is No Green” é uma música experimental e que traz com ela um componente étnico que dá ao ouvinte até mesmo umas dicas do que 666 viria a ser. Absolutamente dramática e até meio perturbadora, a faixa demonstra que a banda está buscando muito mais do que um simples lugar em painéis publicitários, combinando sua essência nacional com uma verdadeira viagem psicótica. “Valley Of Sadness” soa como uma faixa perfeitamente retirada da Invasão Britânica, porém, novamente devido a sua atmosfera grega, o resultado acaba sendo único. “You Stand in my Way" é a faixa mais pesada do disco e contrasta muito bem com a anterior. O destaca maior aqui certamente fica por conta de Roussos que entrega um dos seus melhores vocais. 

“The Shepherd And The Moon” assim como aconteceu com “Mister Thomas”, também é uma música com influencia folclórica. Vocais distorcidos e mudanças radicais são os principais atrativos. A banda tenta abraçar o rock, mas novamente nunca esquecendo sua essência. Mais uma faixa excelente. “Day Of The Fool” é a faixa que encerra o álbum. Certamente a canção mais progressiva, soando de uma forma que faz a banda ir do rock a uma espécie de progressivo melódico e até mesmo música de vanguarda. Possui um solo de órgão excepcional e longo de Vangelis, o fim perfeito para um disco excelente. 

Para as pessoas que acham que a Aphrodite’s Child é uma banda que só possui um disco relevante, aconselho que todos revejam essa opinião equivocada, End of the World é um disco excelente onde as sementes de 666 estão começando a florescer. Uma deliciosa experiência do começo ao fim.

As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor


Compartilhar

Comentar via Facebook

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.
Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito e aberto para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.