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Resenha: Unbreakable with Ray Parker Jr. (2017)

Álbum de Nils Landgren Funk Unit

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Um sueco no funk

Autor: Roberto Rillo Bíscaro

18/10/2020

Nils Landgren nasceu em 1956, na viking Suécia. Trombonista com formação erudita, em fins dos 70’s, começou a explorar o universo da improvisação da cena jazz e desde então caiu de boca na música popular, onde usa sua irretocável técnica e treino “clássico”. Já tocou estilos tão variados como ABBA e Herbie Hancock.  Versátil deve ser o sobrenome do meio de Landgren, porque o cara passeia pelo jazz, rock, soul, hip hop, blues e big band.

Desde meados dos anos 90, Nils lidera o Nils Landgren Funk Unit, que dentre suas façanhas, tem álbum de versões funkeadas de seus compatriotas ABBA.

Outra faceta muito legal do músico é seu lado humanitário, como usar a Funk Unit para apoiar o trabalho dos Médicos Sem Fronteiras, na África. 

Dia 30 de junho de 2017, a Nils Landgren Funk Unit (NLFU) lançou seu décimo-primeiro álbum, Unbreakable. O LP tem a participação de Ray Parker Jr, na guitarra e vocais em diversas faixas. Maciçamente lembrado pelo esmagador sucesso da canção-título do filme Os Caça Fantasmas, Ray Parker Jr. é muito mais que cantor pop de sucesso só.

Unbreakable é típico jazz-funk de olhos azuis, que tem seus fãs desde os anos 80 ou fins dos 70’s, quando pioneiros do gênero como George Benson (que não tem nada de azul nos olhos) faziam sucesso. Sobreviventes dos anos 80 acostumaram-se a esse estilo graças ao sucesso estrondoso de Level 42, Simply Red e da Kool & The Gang, cujo som alguns números do álbum lembram, como Get Down On The Funk e Friday Night.

Dentre a dezena de canções não falta jazz funk de qualidade, como a faixa-título, e Stars In Your Eyes e grooves malvados como a requebrante NLFU Funk, que deixam felizes James Brown e Prince lá do outro lado. Bow Down é soul funk midtempo intenso com pitada de rap, para não fazer muito feio perante Bruno Mars. Old School é como manifesto de princípios: um diabo dum funkão com frases do tipo “old school, baby, that’s how we do it”. Pena que não se aferraram a esse princípio na regravação de Rocking After Midnight, de Marvin Gaye. A instrumentação soberba que dá vontade de dançar na rua com os fones de ouvido convive com tentativa de modernizar o procedimento, mediante vocais pesadamente processados. 

E daí transicionamos para o único problema que enfrento com Unbreakable. Instrumentalmente é um discaço, mas os vocais em algumas canções demoraram pra descer e em uma ainda não me acostumei. Just a Kiss Away tem vozinha muito fraca, não combina com o bom blues domesticado apresentado. Não se trata de achar que branquelos não podem cantar esse tipo de música. Há décadas gente como Joplin, Amy, Mick Hucknall e tantos outros já provaram que essa apropriação cultural é mais do que factível. Gosto também é formado culturalmente e tanto as vozes negras quanto as brancas me acostumaram a interpretações mais raspadas, ríspidas, dramáticas, malandras, sensuais de funks, blues e variantes. As vozes de Landgren e alguns dos outros são por demais brandas. Talvez por estarem cantando em idioma que não seja o seu, talvez pelo estilo.

Mesmo assim, Unbreakable merece chance. Senão pela incrível qualidade da instrumentação e das melodias, pelo menos para ver se conseguimos nos “reprogramar” culturalmente e aceitar outros tipos de vozes que não aquelas com as quais estamos familiarizados. Aceitei em várias faixas, mas tem hora que falta alguém dando uns gritões.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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