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Resenha: Angel Dust (1992)

Álbum de Faith No More

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Vanguardismo e espírito inquieto num dos discos mais influentes da história

Autor: Expedito Santana

17/10/2020

Quando a análise recai sobre uma banda pela qual nutrimos grande paixão e idolatria, as coisas tendem a ser mais parciais, com uma alta carga de emoção e subjetividade geralmente permeando os comentários. De qualquer forma, farei um esforço tremendo para afastar (pelo menos em alguns momentos - risos) toda a loucura de apreciador dessa grande banda, chamada Faith No More (FNM), para dividir com vocês uma modesta avaliação do quarto álbum de estúdio do quinteto californiano. 

Como muitos sabem, existem bandas que são praticamente imunes a rótulos, visto que o som que produzem acaba transcendendo as definições dos críticos e especialistas, desafiando todo aquele que pretende limitá-las a um certo quadrado musical. E, sem sombra de dúvida, o Faith no More está no rol de grupos e artistas que se incluem nesta “definição de indefinição” sonora, precursores do nu metal, avant-garde metal, funk metal etc, seja lá o que afirmem a respeito do FNM, nada parece conseguir exprimir com precisão toda a riqueza musical que os caras conseguem verter de seus instrumentos.   

A verdade é que os californianos sempre foram uma espécie de bicho estranho na paisagem do rock, um patinho feio que aparentemente não dava muita bola para o mainstream, mas que, curiosamente, acabava ficando nos holofotes justamente por esse cinismo e indiferença. Embora tenham conquistado uma fama um tanto meteórica, nunca deixaram de ser lembrados, ainda possuindo uma legião de fãs muito fiéis, inclusive aqui no Brasil.  

Após lançarem o icônico "The Real Thing" (1989), o grupo passou um bom período curtindo toda a fama e colhendo os louros advindos dessa obra de grande projeção, a qual catapultou a carreira da banda e os levou ao ápice, gerando, consequentemente, a realização de grandes e longas turnês mundiais. A radiofônica "Epic", perdi as contas das vezes em que ouvi essa música pela estação de rádio aqui da minha cidade, havia se tornado um mega sucesso, juntamente com “Falling To Pieces” e “From Out Of Nowhere”.  

Em 1992, porém, a banda resolveu retornar aos estúdios e, contando com sua clássica formação, produzir um novo material, trabalho este que apareceria sob o nome de “Angel Dust” em junho daquele ano e, como dito logo no início desta resenha, nasceria ali o quarto álbum de estúdio dos norte-americanos, gravado pela Slash Records e produção de  Matt Wallace, também responsável pelos três álbuns anteriores e do último, “Sol Invictus” (2015). 

O vocalista Mike Patton participou ativamente de todo o processo criativo do disco, garantindo a inserção de generosas doses de experimentalismo e até bizarrices, tão características dos seus trabalhos paralelos à banda. Musicalmente, o FNM indicava uma clara evolução, incorporando camadas eletrônicas e teclados atmosféricos em algumas canções. Dizem, inclusive, que, ao contrário de Patton, o guitarrista Jim Martin não estava muito contente com o novo direcionamento musical da banda, tanto que praticamente não contribuiu nas composições, à exceção das faixas “Jizzlobber” (riff heavy de guitarra) e “Kindergarten”. Essa contrariedade e atitude passiva de Martin para com o som do grupo iria posteriormente resultar no seu afastamento da banda em novembro de 1993.

A arte de capa é belíssima e contrasta com a estranha contracapa. Segundo o baixista Billy Gould, a arte gráfica resumia a proposta musical do álbum, que continha partes lindas e outras extremamente feias. Vale dizer, ainda, que Angel Dust é o nome popular de uma droga alucinógena, usada originalmente como anestésico veterinário, não sei se há relação direta, mas faz muito sentido ao ouvir o disco. 

É bom que se diga que o álbum não vendeu tão bem como "The Real Thing" nos EUA, porém, foram comercializadas cópias suficientes para levar o disco de ouro. O álbum ficou mais popular na Europa e na Austrália. Em que pese o desempenho comercial controverso de ‘Angel Dust”, o fato é que o disco foi recebido com aclamação por parte da crítica especializada, sendo frequentemente indicado entre os maiores álbuns dos anos 90, em 2003 foi listado pela revista Kerrang! como o álbum mais influente de todos os tempos.

Em “Angel Dust” o FNM apostou num som menos comercial e palatável, e mais complexo e experimental que “The Real Thing”, ora entregando composições sombrias e ruidosas que beiram a insanidade instrumental e vocal, ora proporcionando momentos pautados por melodias belas e viajantes. 

Faço abaixo uma análise mais detalhada das 14 faixas que compõem a obra, cuja duração total beira os 60 minutos. 

"Land of Sunshine", contando com os teclados em ritmo frenético de Bottum e os "riffs" rápidos de Martin, dá início em alto nível ao álbum. O baixo de Billy Gould não sossega, com seu timbre groove e energizante promovendo uma verdadeira arruaça. Os vocais de Patton são mais distantes e eventuais. Uma faixa que soa como uma apresentação panorâmica das paredes sonoras que estão prestes a surgir. O dado curioso sobre a letra dessa música, que foi escrita por Patton, é que foi elaborada com base numa mistura de frases de biscoitos da sorte com perguntas de um questionário de um teste de personalidade. Patton escreveu a letra combinando as frases com as perguntas do questionário. O seguinte trecho dá uma pista sobre essa inusitada gênese: “Você costuma cantar ou assobiar apenas por diversão? / Você sente às vezes que a idade está contra você? / Eu, eu posso ajudar, eu posso ajudar você, eu posso ajudá-lo a se ajudar / A vida parece valer a pena para você? / A vida parece valer a pena para você?” 

"Caffeine" começa com o pé na porta, riffs penetrantes de guitarra e bateria em ritmo acelerado, com o teclado parecendo seguir uma trilha própria. Patton, como é de costume, mescla trechos cantados, falados e até balbuciados com uma gritaria insana. O baixo de Gould aparece com mais ênfase em alguns momentos mais lentos. Essa música pode ser comparada com um pesadelo em alguns momentos. Rock pesado da melhor qualidade.  

"Midlife Crisis", que vem logo em sequência, traz muito brilho ao disco. Tem a bateria percussiva de Mike Bordin como atrativo, contando ainda com um refrão aderente e melodias belas, single promocional de sucesso estrondoso. Os riffs de Martin são descontinuados e dão um andamento especial. O baixo de Gould não deixa de marcar presença. Na segunda parte, há um momento em que os teclados são arrepiantes. Excelente faixa do começo ao fim. 

"RV" tem teclados suaves e uma batida marota e eventual que lembra música de parque de diversões. Nunca me empolguei muito por essa música, mas ela tem as suas virtudes, notadamente pelas mudanças instrumentais inesperadas guiadas pelas notáveis variações de timbre de Patton. Um desafio: ganha um doce quem conseguir definir o estilo dessa música. Integra com louvor o time de experimentais do disco. 

"Smaller and Smaller" com seus teclados espaciais e atmosféricos contrastando com "riffs" sólidos e pesados chama muito a atenção. Destacado trabalho de baixo e bateria. O solo de guitarra a partir dos três minutos e os teclados talvez sejam o seu grande atrativo. O experimentalismo corajoso dessa faixa só reforça a sua maior virtude. Ponto para o quinteto.  

"Everything's Ruined" tem uma cadência um pouco mais lenta que a anterior, inicia com um teclado quase piano de Bottum e a bateria precisa de Bordin preparando a cama para o vocal de Patton se destacar, novamente por meio de uma mescla de melodia e vigor meio hip-hop. Patton faz um excelente trabalho nas retomadas vocais, cantando de formas diferentes. Os riffs de Martin são intensos e complementados por uma linha de baixo sensacional de Gould, que se intensifica quase ao final da canção. A bateria também não fica de fora da festa e promove momentos mais vigorosos. Mais uma para a galeria das grandes do FNM. 

“Malpractice” é um misto de bizarrice climática, demência instrumental e vocais fantasmagóricos de Patton. Impressiona a combinação sonora que o Faith No More consegue nessa faixa. Riffs pesados de guitarra, mudanças de andamento e certo experimentalismo (lembra até a esquizofrênica e caótica atmosfera de “Larks' Tongues in Aspic” do King Crimson, veja que eu disse “lembra”, o que é bem diferente de ser igual!). A breve suavidade que surge dos teclados após os dois minutos e meio é impressionante, completamente destoante. Acho bem difícil agradar logo nas primeiras audições, mas quem costuma ouvir música com todos os sentidos vai perceber que se trata de uma experiência singular. Não há nada nos trabalhos anteriores que chegue próximo dessa faixa. 

A espetacular "Kindergarten" lança um climão no ar, batida meio funky, teclados simplesmente inesquecíveis. Patton está sublime, parece que temos dois vocalistas diferentes cantando, um na passagem mais firme e agressiva e outro na melódica e suave. Os riffs de guitarra são uma verdadeira tatuagem mental de tão marcantes. O baixo de Gould, mais uma vez, está irretocável, inclusive, ele faz uma espécie de solo muito lindo e de arrepiar, após os chiados da guitarra de Martin. Composição com detalhes harmoniosos no final, não há uma gordura sequer e nada a acrescentar. Dificilmente suporto a tentação de não repeti-la. Só uma palavra: perfeição! 

Em “Be Agressive” o teclado sombrio de Bottum abre caminho para um vocal performático de Patton. Demorei a gostar desta faixa, mas com o tempo percebi se tratar de uma peça muito rica, com andamentos espetaculares, riffs de guitarra camaleônicos de Martin e o baixo de Gould fazendo um trabalho irrepreensível, como de costume. Um coro de voz infantil completa o refrão de maneira sinérgica. A letra desta música é sobre um homem fazendo sexo oral em outro e foi escrita pelo tecladista Roddy Bottum, que assumiu sua homossexualidade publicamente depois que o álbum foi lançado. 

“A Small Victory” é um grande destaque, inclusive do ponto de vista comercial. Patton exibe um vocal meio hip-hop e consegue unir, surpreendentemente, passagens melódicas com pegadas estilo rap, faceta que somente a sua conhecida versatilidade permite. Esta faixa remete um pouco a 
“Kindergarten”. Os riffs de guitarra na segunda parte antes de entrar o solo de teclado são estupendos, aliás, as teclas retomam em solo a melodia espetacular da introdução da música enquanto a bateria marca por baixo e Patton faz o gancho vocal, ótima passagem. Bela música.   

“Crack Hitler” mostra-se climática no início, com riffs de guitarra e logo após os teclados e a bateria dando o ritmo, por sinal, que trabalho fantástico de Bordin. O experimentalismo não deixa de estar presente com força total. Patton faz inserções meio insanas durante as sessões instrumentais e coros complementam os vocais ao longo da música. Os teclados são onipresentes e ditam toda a harmonia de fundo. Para os ouvintes acostumados a um rock progressivo estilo King Crimson ou Van Der Graaf Generator, a complexidade instrumental dessa música será facilmente digerível, mas para apreciadores de um rock mais direto e minimalista, aconselho uma frequência maior de audições e prometo que vocês iram conseguir captar todos os detalhes dessa peça riquíssima do FNM.   

A impactante e sombria “Jizzlobber” dá sequência às sessões de experimentalismo do álbum, calcada em vocais absolutamente lunáticos de Patton, numa multiplicidade de ritmos e sons fragmentados, com um teclado dark comandando a festa no hospício. Os riffs de guitarra de Martin são pesados e levemente cortantes. Pouco após os três minutos ela emerge numa sessão mais lenta e doentia que recai logo em seguida numa apoteose da insanidade, não dá nem para descrever, os riffs de guitarra ficam marcantes e onipresentes e Patton impressiona de novo com sua performance, ora protagonizando uma cena teatral afetada, ora como um lobo uivando na floresta. Logo após cincos minutos mais ou menos, um órgão sombrio aparece para inaugurar uma atmosfera grandiosa, um final assombroso, fantasmagórico e clássico ao mesmo tempo. Esses caras não brincam! Faixa magnífica em toda a sua loucura e caos. Mais uma música que não cabe em nenhuma caixinha. 

Cabe a “Midnight Cowboy” fechar os trabalhos na versão original do álbum, uma faixa instrumental que a banda fez em referência ao filme homônimo, e que parece um verdadeiro descanso de todo caos e atmosfera ruidosa até então presentes. Instrumental exuberante, constituindo a prova irrefutável da competência do quinteto. 

“Easy”, um cover dos Commodores, e que, aliás, ficou tão boa quanto a versão original. Em que pese eu adorar o Lionel Richie, Patton está perfeito aqui. O solo de guitarra de Martin é genial. Esta canção, devo dizer, aguça as minhas memórias afetivas, levando-me a uma jornada num passado distante. A ligação que tenho com esta música é muito emocional e repleta de ótimas lembranças. Na versão original do álbum esta faixa não constava, mas acabou sendo inserida, felizmente, nos relançamentos. Grande sucesso comercial com a banda e dispensa maiores comentários. Embora pareça meio deslocada no contexto do álbum por sua verve pop, tornou-se um verdadeiro bálsamo, assim como a penúltima, e nos faz refletir o quão versátil e habilidoso esse tal de Mike Patton pode ser.  

“Angel Dust” nada mais é que um testemunho da eterna alma juvenil e rebelde de uma banda, apresentando ao mundo, de uma vez por todas, um grupo de californianos ousados e criativos, cuja coragem sempre esteve acima da ambição comercial e, ainda que este álbum tenha significado algum declínio de popularidade, mostrou a face vanguardista e o espírito inquieto do Faith No More, que a partir dali se notabilizou pelo “estilo musical da imprevisibilidade”.  

Tenho absoluta certeza que o ouvinte atento de “Angel Dust” vai entender o porquê deste álbum ter sido considerado um dos mais influentes da história da música, inspirando o som de inúmeras bandas e criando as bases para o chamado new metal.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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