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Resenha: Atem (1973)

Álbum de Tangerine Dream

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É um experimento sônico interessante, mas não totalmente bem-sucedido

Autor: Tiago Meneses

13/10/2020

Embora a maior parte dos trabalhos da Tangerine Dream – ou mesmo da música eletrônica em geral da época – evoque uma espécie de sonoridade atmosférica do espaço sideral, Atem consegue levar as longas explorações da banda para outro caminho. Mesmo que a paleta de som apresentada aqui, não esteja exatamente muito longe do que seria ouvido na música da banda ao longo do início dos anos 70, Atem apresenta uma abordagem, digamos, menos cósmica para o som, não trazendo uma sensação de tranquilidade natural distorcida como era de se esperar. Agora avaliando de uma perspectiva sonora, não tem como negar que o disco está no nível de muito do material mais clássico da banda, utilizando os temas amplamente introduzidos em Zeit e condensando-os um pouco. Mas sempre que escuto este disco, por mais promissor que possa parecer o seu som, no fim das contas, acabo tendo a mesma impressão que sinto na maioria dos seus trabalhos, ou seja, a sonoridade é interessante, mas infelizmente as composições não. 

Talvez o sentimento que este disco me traz, seja até diferente em relação à maioria das pessoas. A sensação de solidão ainda é certamente evidente na sonoridade lenta e silenciosa do disco, mas os sintetizadores moog foram diminuídos em troca de sintetizadores de som mais natural. Como resultado disso, em alguns momentos sinto-me perdido em alguma floresta surreal de “Sonho de uma noite de Verão” de William Shakespeare. Outra característica de alguns momentos de Atem é que se trata de uma música incrivelmente reservada, permanecendo um tanto fria e até mesmo inquietante. Talvez o que Atem possui de mais eficaz seja o silêncio. Sei que pode parecer até loucura alguém citar a falta de música como a maior força de um disco, porem, o fato de raramente existir um som aberto dá uma sensação de pressentimento que teria perdido a sua potência se a banda não tivesse se privado de uma sonoridade densa. 

Os detalhes de Atem compõe uma grande parte dele, seja o chilrear silencioso de pássaros que voam ao longe ou uma textura sutil de sintetizador, não importa, há uma quantidade de certa forma enganosa deles para absorver e digerir. É nesse ponto então que considero até mesmo lamentável, que, no geral, Atem no fim das contas deixa uma impressão fria e insensível. Não tenho como negar que alguns momentos do álbum conseguem ressoar em mim, como, por exemplo, a introdução ritualística que se destaca acima de tudo. Como a maioria dos pontos fortes do álbum, no entanto, essas faíscas de brilho nunca parecem se desenvolver em nada substancial, tornando-se ainda mais decepcionante pelo fato de que as durações das faixas oferecem espaço mais do que suficiente para que eles o tenham realizado. A segunda metade da faixa-título de vinte minutos consiste em pouco mais do que um ambiente arrepiante em meio ao silêncio escultural. É um experimento sônico interessante, mas não totalmente bem-sucedido.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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