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Resenha: All That You Can't Leave Behind (2000)

Álbum de U2

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Consolidando-se como força artística contemporânea no mainstream

Autor: Expedito Santana

12/10/2020

Há duas décadas, sob alguma desconfiança da crítica especializada pelo mediano desempenho do experimental “Pop”, mas com a estima dos fãs, o talento e a energia para continuar fazendo um pop rock de qualidade, os irlandeses do U2 lançaram, em outubro de 2000, “All That You Can’t Leave Behind”, décimo álbum de estúdio, produzido por Daniel Lanois e Brian Eno, repetindo a parceria de trabalhos anteriores da banda, gravado pela Island Records, no Reino Unido, e Interscope Records, nos Estados Unidos. 

“All That You Can’t Leave Behind” afastou-se significativamente dos experimentalismos eletrônicos de Zooropa (1993) e Pop (1997) assim como do glam-rock dançante de Achtung Baby (1991), apostando num rock and roll mais minimalista e com características melódicas próprias do grupo, lembrando um pouco o vigor de October (1981) e War (1983) assim como a maestria melódica do clássico The Joshua Tree (1987). A propósito, esse olhar para referências musicais tradicionais da banda é bem coerente com o próprio título do álbum (Tudo O Que Você Não Pode Deixar Para Trás)

Obviamente que toda retomada pressupõe, invariavelmente, a busca de receitas de sucesso no passado, o que por um lado contribui para que a banda reencontre suas raízes, por outro, muitas vezes, pode impedir o aparecimento de processos mais criativos e inovadores. Na verdade, a fórmula que o quarteto irlandês lançou mão neste álbum não deixa de passar pela simplicidade e minimalismo tão presentes em trabalhos anteriores, incluindo, sobretudo, os frequentes falsetes vocais de Bono, melodias prolongadas da guitarra de The Edge bem como o lirismo politizado e universal. 

“All That...” alcançou a marca de mais de 12 milhões de cópias vendidas, recebeu a aclamação da crítica e ganhou sete Grammy Awards. As músicas "Beautiful Day", "Walk On", "Elevation" e "Stuck in a Moment You Can't Get Out Of" foram todas singles de sucesso. Em 2003, o álbum foi classificado na posição de número #139 na lista de "Os 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos" da revista Rolling Stone. (Wikipedia) 

“Beautiful Day”, canção estourada em diversas paradas e multipremiada, grande single de sucesso da banda, um verdadeiro hino pop do alto astral (sempre escuto essa música quando estou meio down), abre o disco de forma magistral, com uma cadência impressionante e uma explosividade na parte do refrão que levanta até defunto da cova. Bono está elétrico no vocal e The Edge destila seus clássicos riffs pegajosos, a bateria de ritmo eletrônico de Mullen Jr. faz um trabalho impecável e a linha de baixo de Adam é contagiante. Um cartão de visitas exuberante que faz qualquer um dizer: o velho U2 está de volta. 

“Stuck In A Moment You Can't Get Out Of”, também single de sucesso, vem logo em seguida e não decepciona, embora não tenha a mesma energia da faixa anterior, mantém as coisas em bom nível. Alcançou a 2º posição no UK Singles Chart, foi escrita por Bono para o seu amigo, vocalista do INXS, o saudoso Michael Hutchence, que cometeu suicídio em 1997.  Os sintetizadores desta faixa são cortesia de Bono. 

Em “Elevation” a banda volta a flertar com o eletrônico logo de saída por meio de sintetizadores de The Edge, uma espécie de funk anos 90, foi o terceiro single de grande sucesso, lançada em julho de 2001 originariamente como "Tomb Raider Mix", havendo aparecido em comerciais de televisão para o filme Lara Croft: Tomb Raider, apresentava um arranjo mais hard rock que a versão do álbum, inclusive, é dessa forma que a banda prefere executá-la ao vivo. Uma canção bombástica e de grande apelo pop. Um verdadeiro arrasa-quarteirão que cai como uma luva para abrir apresentações e shows. 

‘Walk On” fecha a sequência impactante inicial, sua letra fora escrita como dedicatória a Aung San Suu Kyi, ativista birmanesa, mas a música fora ressignificada pelos ouvintes após os ataques em 2001 ao World Trade Center nos EUA, o triste evento do 11 de Setembro, havendo se tornado um verdadeiro hino de resistência para os que ficaram aterrorizados com toda aquela tragédia. Rock típico do U2, cuja fórmula segue repetida aqui com sucesso. Os riffs marcantes de The Edge aparecem cristalinos e o solo bastante assemelhado com alguns sons de outros trabalhos. O vocal de Bono, por seu turno, passeia tranquilo num terreno que ele conhece muito bem.  

A bela e simples “Kite”, escrita para o pai de Bono que estava morrendo, refere-se às dificuldades da vida privada ofuscadas por trás do brilho da fama. Leva o álbum para um caminho mais introspectivo, começa com sintetizadores melosos e uma guitarra viajante de The Edge criando uma atmosfera densa e mais triste que a anterior, com Bono imprimindo um caráter mais sóbrio ao vocal. Solo belíssimo de The Edge, mas nada de muito inovador. 
  	
“In A Little While” dá continuidade ao clima de balada trazido por “Kite” e o faz bebendo claramente na fonte da soul music, remetendo a grandes nomes como Sam Cooke, Jackie Wilson e Otis Redding. Não chega a ser uma “I Still Haven't Found What I'm Looking For”, mas tem o seu valor. Bono mostra aqui o motivo da fama e, mais uma vez, usa seus recursos vocais tão característicos. 
 	
“Wild Honey”, um folk cheirando a Rolling Stones, com o vocal de Bono ficando um tanto maçante em algumas passagens. Não é uma canção ruim, mas deixa cair um pouco o nível. Em minha opinião, dispensável, tanto que não é raro o impulso em pulá-la nas audições.  

“Peace On Earth” mostra-se guiada por belíssimos arranjos de guitarra acústica que pavimentam o caminho para Bono levitar com sua voz, fazendo uma performance terna e bem sentimental. Boa faixa, que mostra a competência dos irlandeses para sons mais suaves. 
	
“When I Look At The World”, quebra um pouco a regra geral e traz riffs de guitarra que lembram Achtung Baby, inclusive a performance vocal de Bono e o clima da música como um todo. Aprecio muito este tipo de faixa dos irlandeses, jornada sonora muito agradável, e está inserida, sem dúvida, como uma das facetas mais camaleônicas da banda.  

“New York”, cujo início exala até um certo suspense, é uma das minhas preferidas, a bateria de Mullen Jr. e o baixo de Adam fazem a cama para Bono apresentar sua clássica performance vocal repleta de falsetes. A guitarra de The Edge marca presença com mais força a partir dos dois minutos. O baixo pulsante, a voz de Bono e o ótimo trabalho de bateria são os atrativos desta faixa, que se mostra como uma forte identificação do DNA U2.       	

“Grace” dá o sinal de adeus do álbum, uma faixa meio acústica com sintetizadores, teclados e a voz de Bono comandando o cenário, não a considero uma grande canção, e acho que até que o disco merecia encerrar em mais alto nível. De qualquer forma, não faz feio. 

A banda anunciou recentemente que, em 30 de outubro de 2020, “All That You Can't Leave Behind” será relançado em CD, vinil e digitalmente em comemoração ao seu 20º Aniversário. O álbum será remasterizado e lançado nas edições Standard, Deluxe e Super Deluxe, todas incluindo a canção "The Ground Beneath Her Feet", incluída como faixa bônus no lançamento original do álbum, e que, aliás, surpreendentemente, considero uma boa faixa, havendo sido feita originalmente para a trilha sonora do filme "The Million Dollar Hotel". 

“All That You Cant Leave Behind” foi apontado pela revista Rolling Stone como o terceiro melhor disco do U2 em toda a sua trajetória, o que também concordo. O fato é que esta obra catapultou de vez o grupo irlandês ao mainstream, posicionando-o entre os maiores gigantes do gênero pop-rock no mundo, com justiça, diga-se, em que pese roqueiros mais pueris torcerem o nariz sob a alegação de que a parafernália eletrônica desvirtua o som do grupo e tira as suas credenciais legítimas para figurar no meio. 

Em conclusão, este álbum aumentou consideravelmente a idolatria que a banda já vinha arregimentando e proporcionou momentos perfeitos para suas mega apresentações, que seriam a partir dali uma marca da estatura que os irlandeses haviam alcançado como força artística contemporânea.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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