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Resenha: Nine Times (2017)

Álbum de Adriano Cintra

Pop

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Mea culpa sintetizada

Autor: Roberto Rillo Bíscaro

12/10/2020

Duas de minhas canções pop brasileiras favoritas são Superafim e Meeting Paris Hilton, do Cansei de Ser Sexy. Antenados devem se lembrar de quando a banda paulistana era hipster, tendo seus álbuns resenhados em publicações como Pitchfork e Consequence Of Sound, excursionando pelo mundo e até entrando no Top 100 da Billboard.

Tudo ia colorido no mundo new rave até que Adriano Cintra anunciou sua saída, em 2011, e abriu a boca do esgoto: não suportava mais o estrelismo e falta de perícia musical das companheiras do CSS, além de lembrar aos sabe-nada-inocentes que banda é empresa, com salário e até licença-saúde, que o empresário pode encasquetar de não pagar, daí tem que ir pro pau, como qualquer trabalhador mortal.

Cintra partiu para carreira-solo e em agosto de 2017, saiu Nine Times, com alguma influência anos 80.

Embora não soe datado, pois Adriano deve beber em fontes eletro euroianques de sua geração, o homogêneo Nine Times não é nada alienígena a ouvidos oitentistas. Há sonoros quês de The Cure e Depeche Mode nos arranjos sóbrios e discretos em álbum que prioriza lentas (Collateral Damage) e midtempos. A única dançável é o encerramento Mouth, cuja vibe agradará tanto à geração pós-rave, quanto dinossauros fãs da boa e velha New Order.

Cintra tem ouvido ótimo para compor pops grudentos, como a deliciosa faixa-título e a maior parte do álbum. Ele meio que faz um mea culpa pelo bafão armado com suas ex-amigas, em So Sorry e em Your Crazy Eyes contrasta o gelo de teclados com a brasa lúgubre de um baixo gótico. Mesmo lá pelo final do álbum, que tem 13 faixas, quando a mesmice ameaça, as canções são simpáticas, como Nevermind Me e Backfiring.

Não há maus momentos em Nine Times, outra de muitas provas de que a música do Brasil (mesmo que toda cantada em inglês) está longe de se restringir à sofrência ou arroubos de macheza alcoolizada, que toca nas rádios.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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