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Resenha: 57th & 9th (2016)

Álbum de Sting

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O "álbum-rock" onde o melhor não é o rock

Autor: Roberto Rillo Bíscaro

11/10/2020

Em 1983, o The Police atingira o zênite com Synchronicity, que vendeu cópias e ingressos de concertos até as caixas-registradoras desmaiarem de exaustão, além de conter um dos hinos da década, Every Breath You Take, que, apesar da letra patologicamente obsessiva, ainda encanta enamorados. Por trás dos holofotes, o relacionamento de Stewart Copeland, Andy Summers e Sting estava arruinado, porém. Assim que a turnê promocional terminou, o mais bem-sucedido trio inglês da história do rock anunciou interrupção temporária nas atividades para que cada integrante pudesse tratar de interesses particulares. A despeito de uma colaboração aqui, outra bem acolá, a pausa já dura quase quatro décadas.

Como era de esperar, a atenção recaiu toda nos rumos e destino da carreira-solo do loirudo Sting, baixista e vocalista, cuja fina estampa não atrapalhara em nada a carreira do Police. E ele brilhou, permanecendo um dos superastros oitentistas, onipresente na música, TV e cinema. Cada vez mais engajado politicamente e musicalmente eclético, o Ferroada sempre foi daquelas celebridades oito ou oitenta em termos de opinião pública. Sua voz inconfundivelmente aguda causava arrepios de tesão ou ódio; seu pitaco em tudo quanto era assunto atraía súditos ou irava desafetos.

O Police misturou rock, ska, reggae e jazz, então, o esvoaçar de Sting por entre subgêneros não surpreendeu. Ao longo dos decênios, tem flertado com musicais da Broadway, música orquestral e world music. Essa multiplicidade de caminhos explica por que seu álbum 57th & 9th foi promovido como “retorno ao rock”. 57th & 9th tem 13 canções em sua versão Deluxe e o nome alude ao cruzamento nova-iorquino que o artista atravessava diariamente, durante os três meses de gravação.

Despido de teclados e electronica, 57th & 9th soa o mais rock que o inglês radicado em Nova York conseguiu em décadas. Faixas como I Can’t Stop Thinking About You ou Petrol Head têm a urgência guitarreira de um hipotético álbum de 1984, do Police. A diferença é a voz, agora com registro muito mais grave. Claro que isso não é culpa do músico, já com 65 anos à época, mas inteiraço de causar ódio à maioria dos coetâneos. Mas, no pop, os grandes cantores o são não necessariamente porque suas vozes são as melhores, mas porque são distintivas. O tempo levou isso de Sting, compreensivelmente. Assim, canções como If You Can’t Love Me, que dependeriam dessa voz customizada para ter algum destaque, caem na vala comum. Down, Down, Down, com sua guitarra Every Breath You Take, também, mas nem tanto, resultando numa baladinha ouvível, mas que falha em marcar. A meio falada 50,000 é a que mais realça a perda do trinado único stingiano. A letra sobre estrelas pop falecidas – 2016 levou Bowie e Prince – e o reconhecimento da proximidade do próprio fim não amenizam muito a estranheza do som.

Isso não significa que 57th & 9th não tenha bons momentos, além dos citados momentos rock, minoria no álbum a despeito da publicidade nessa tecla. One Fine Day, sobre aquecimento global, é midtempo que tranquilamente poderia estar no repertório de algum grupo de indie rock britânico do começo do século, tipo Travis. Heading South On The Great North Road nada tem de rock; é bonito folk, perfeitamente inserido na tradição medievalista britânica. Pretty Young Soldier está na linha da balada folk. Sofre um bocadinho pela gravidade do vocal, mas a historinha da moça que se traveste de homem para se alistar no exército e ficar de olho no amado é bonita, pertinente com a recorrência do tema no folk inglês, vide Kate Bush regravando The Handsome Cabin Boy, como lado B de The Hounds Of Love (1985).

Por mais que os 2 ou 3 rocks sejam simpáticos, são eclipsados pelo catálogo prenhe de pérolas do Police. Destarte, o ponto alto de um álbum supostamente rock é Inshallah, com sua pegada “árabe” e instrumentação que ultrapassa o baixo-guitarra-bateria, especialmente a Berlin Sessins, da Deluxe Edition, que vale por essa e pelo energético cover ao vivo de Next To You, primeira faixa do primeiro álbum do The Police, no pré-histórico 1978.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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