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Resenha: Araçá Azul (1973)

Álbum de Caetano Veloso

MPB

Acessos: 90


Poesia concretista e experimentalismo marcam o seu trabalho mais controverso

Autor: Márcio Chagas

10/10/2020

Vários discos gravados e vendidos em todo mundo, unanimidade na MPB, consagrado por crítica e público com incontáveis parcerias. Mas nenhum álbum lançado por Caetano Veloso se assemelha ou iguala a Araça Azul, um dos mais experimentais e emblemáticos títulos de toda a música brasileira.

Em 1972, Caetano acabava de voltar do exílio imposto pela ditadura militar, e além de toda a bagagem cultural adquirida no exterior, o cantor também estava descobrindo a os trabalhos mais experimentais de Walter Franco e Hermeto Paschoal. 

Então, Caetano passou uma semana trabalhando no estúdio Eldorado em São Paulo, sozinho, acompanhado somente de um assistente de gravação, tendo carta branca de André Midani, então presidente da Phillips Records para fazer o que bem entendesse.

O cantor e compositor resolveu então criar um álbum experimental, utilizando como conceito o lado mais radical do tropicalismo e a influência de grandes poetas concretistas como Haroldo de Campos e Décio Pignatari, superando as formalidades rítmicas e expandindo o conceito musical.

O álbum se inicia de maneira surpreendente, com a vinheta de “Viola, meu bem”, canção folclórica cantada pela percussionista Edith do Prato, natural de Santo Amaro, terra de Caetano; “De conversa – Cravo e Canela”  é uma mistura de colagem sobrepostas de frases, barulhos e melodias, totalmente experimental. Após alguns minutos, Caetano canta Cravo e Canela, sucesso de Milton Nascimento por cima dos sons desconexos;

A canção seguinte “Tu Me Acostumbraste”, um bolero do cubano Frank Dominguez, foi resgatado pelo cantor e traz um momento complacente e tranquilo com um belo trabalho vocal em que o cantor intercala linhas em falsete com outras mais graves; “Gilberto Misterioso” traz o concretismo genuíno com frases repetidas a exaustão; A seguir vem a curta “De palavra em palavra”, experimental e claustrofóbica, com um urgente pedido de silencio;

O medley “De cara / Eu quero essa mulher assim mesmo” com guitarras pesadas e bateria atrabiliária é uma das canções mais pesadas já gravadas por Caetano até os dias de hoje, com o insuperável Lanny Gordin, solando sua guitarra no melhor estilo Jimi Hendrix; “Sugar Cane Fields Forever” possui mais de 10 minutos e passeia pelo samba de roda, bossa nova e orquestrações cinematográficas com colagens sobrepostas de ritmos e estilos unidos pela voz de Caetano. É uma faixa a frente de seu tempo, principalmente se levarmos em conta a tecnologia da época; 

“Júlia/moreno” tem ecos de bossa nova, com flautas na sua base e guitarra jazzística; Já “Épico”, é uma composição de Caetano com arranjos de Rogério Duprat. É um tema orquestrado, que remete as películas clássicas dos anos 70, mas logo é subvertido por experimentalismos e a voz de Caetano. Encerrando o controverso disco, temos a faixa titulo, uma canção curta e melancólica apenas com o cantor no violão.

O álbum chegou as lojas em janeiro de 1973, e ocasionou uma das maiores devoluções de um disco as lojas, uma vez que a maioria sequer entendeu a proposta contida naquele trabalho.

Realmente Araçá Azul foi um disco a frente de seu tempo e apesar da enorme rejeição inicial, evoluiu bem e hoje é considerado um dos grandes discos de música experimental lançado por um músico brasileiro.

É um disco que deve ser ouvido mais de uma vez para que o ouvinte possa absorver as ideias ali criadas.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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