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Resenha: In Utero (1993)

Álbum de Nirvana

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Um disco honesto e original na despedida

Autor: Expedito Santana

10/10/2020

É sempre aquela velha história, quando uma banda lança uma grande obra parece ficar presa eternamente a esse sucesso, tendo a obrigação de repetir a fórmula ou correr o risco de ser execrada pelos fãs. No meu caso, sempre fui muito flexível com essa questão e nunca fiquei tão apegado ao passado de uma banda a ponto de não entender a necessidade e naturalidade das mudanças em sua sonoridade (a única exceção faço ao Metallica! - kkkkk)

No caso do Nirvana, o disco antecessor é nada mais nada menos que Nevermind, uma obra que catapultou a banda ao mainstream e rendeu muito à banda também do ponto de vista comercial, mais de 30 milhões de cópias em vendas mundiais, sucesso este que por ironia do destino entraria em choque com alguns valores que a própria banda, através das letras de Cobain, criticava com veemência. 

Lembro como se fosse hoje quando recebi o vinil pelos Correios, comprei por encomenda e aguardei ansiosamente o que esses caras tinham para mostrar após os petardos de Nevermind (Smells Like Teen Spirit, Lithium, Stay Away etc). Confesso que a primeira impressão não foi das mais impactantes, exceto pela bela capa, acho que em virtude da reverberação mental que Nevermind ainda continuava tendo em mim, porém, com a frequência de audições fui entendendo que o disco apresentava algo um pouco diferente do que a banda fazia até então. E que aquele som talvez fosse uma espécie de sinalização do futuro do Nirvana. Bem, o fato é que “In Utero” foi ganhando importância em meu conceito e acabei ficando viciado em suas canções à epoca. 

“In Utero” é o terceiro de inéditas e último álbum de estúdio da banda. Foi lançado em setembro de 1993 pela DGC Records. Em sua produção fica bem notória a intenção do grupo de introduzir guitarras mais sujas que Nevermind. De fato, este álbum possui um som mais natural e menos polido que Nevermind, tal resultado se deve ao produtor Steve Albini, que utilizou o Pachyderm Studio, em Cannon Falls, Minnesota. O álbum foi gravado rapidamente com poucos efeitos de estúdio, e as letras das canções e arte de capa incorporavam imagens médicas que transmitiam as perspectivas do vocalista Kurt Cobain sobre sua vida pessoal e a fama recente de sua banda.

Com o término da gravação, circularam rumores na imprensa de que a DGC não poderia lançar o álbum em seu estado original, já que a gravadora achava que o resultado não era comercialmente viável. Embora o Nirvana negasse publicamente as declarações, o grupo não estava totalmente satisfeito com o som que Albini tinha capturado. Albini se recusou a alterar o álbum novamente e então, a banda contratou Scott Litt para fazer pequenas alterações para o som do álbum e o remix dos singles "Heart-Shaped Box" e "All Apologies".

Após o lançamento, o álbum entrou no 1º lugar da parada Billboard 200 e recebeu aclamação crítica como uma drástica mudança de Nevermind. O álbum foi certificado cinco vezes platina pela Recording Industry Association of America, vendendo mais de 15 milhões de cópias pelo mundo e aproximadamente mais de cinco milhões de unidades só nos Estados Unidos.

In Utero é composto por 12 faixas em sua versão americana. As outras versões não-americanas do álbum apresentam uma longa faixa bônus improvisada de aproximadamente sete minutos e meio. Todas as canções foram compostas por Kurt Cobain, e "Scentless Apprentice" foi composta juntamente com Dave Grohl e Krist Novoselic. A canção Gallons of Rubbing Alcohol Flow Through the Strip é creditada como autoria da banda. 

“Serve the Servants”, cuja letra aborda aspectos da vida de Cobain, tanto como criança quanto adulto, abre o disco, uma canção com refrão sereno e uma base bem pesada, embora Cobain fique contido praticamente durante toda canção. A bateria de Dave é bem minimalista e eficiente. Confesso que, na minha opinião, havia música melhor para a abertura, mas “Serve the Servants” não compromete. 

"Scentless Apprentice" tem riffs pegajosos e sujos, conta com um vocal de Cobain mais afetado. A canção beira a insanidade com partes gritadas e o baixo de Novoselic numa frequência marcante. Dave assegura o ritmo mais forte. O vocal de Cobain fica meio irritante em algumas passagens, notadamente quando entoa o refrão, mas a guitarra agrada muito pelo sutil psicodelismo. A letra foi baseada no romance “O Perfume”, um terror histórico sobre um aprendiz de perfumista nascido sem nenhum tipo de odor corporal, mas com um sentido altamente desenvolvido do olfato, e que tenta criar o "perfume definitivo" matando mulheres virgens e ficando com seu perfume, inclusive, a obra virou filme, intitulado: “Perfume: A história de um Assassino”, com direção de Tom Tykwer . 

"Heart-Shaped Box" é uma das minhas favoritas, com seu começo inesquecível e melódico. Os vocais de Kurt são muito bons nessa faixa, e quando ele entoa gritos pré-refrão cria um clima bem interessante à música, que contrasta a suavidade e o peso com muita harmonia, como um pêndulo indo da leveza à agressividade. O trabalho de bateria de Dave nas partes mais pesadas é excelente e os riffs são sensacionais. O solo é meio esquisito e distorcido, mas é bem a cara da música. Típica canção Nirvana, até hoje faz parte das minhas playlists de rock alternativo. 

Em "Rape Me" Kurt começa com uma batida bem legal da guitarra, seus vocais estão sensacionais, e quando a bateria explode vem o pós-refrão muito bom. Riffs pesados e bem próximos da faixa anterior. A letra é inquietante e Kurt soa bem agressivo na segunda parte, quase ao final, com gritos secos e ensandecidos. 

A subestimada “Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle", cujo título longo foi uma espécie de provocação de Cobain às bandas de rock alternativo contemporâneas que utilizavam títulos de apenas uma palavra, segue a mesma linha das anteriores, partes suaves e outras ultrapesadas, é uma canção que eu só comecei a gostar mais com o tempo. Kurt canta com mais técnica e os agudos rasgados são em um tom mais baixo. A segunda parte apresenta uma sessão rítmica da guitarra muito boa. Foi inspirada em Shadowland, uma biografia da atriz Frances Farmer, de 1978, a quem Cobain ficou fascinado desde que leu o livro na escola. 

“Dumb” é meio triste e singela, soando um pouco como Beatles, uma das melhores em minha opinião, há partes que simplesmente provocam arrepio. Os vocais de Kurt estão doces e ternos, a guitarra soa menos abrasiva e a bateria de Dave dá um brilho especial à música. O baixo de Novoselic, por seu turno, preenche bem os espaços. 

“Very Ape” é bem agitada e otimista, um rock para balançar. Guitarra uivando como nunca, e vai crescendo com Kurt aumentando o passo nos vocais. A bateria de Dave, mais uma vez, segura as pontas e garante a energia da canção. 

“Milk It” começa com barulhos meio psicodélicos até um riff pesado entrar e dar o ritmo. Logo em seguida a canção acalma ao som da bateria de Dave e os vocais contidos de Kurt, mas esta suavidade não dura muito, pois Kurt começa a gritar até o refrão e confere um clima insano à canção, só parando na sessão seguinte, que volta ao compasso anterior. Punk, experimentalismo, psicodelia etc. O solo é de uma estranheza tremenda, lembra até alguns sons cacofônicos do King Crimson (por favor, não estou comparando!!). Cobain citou a faixa "Milk It" como um exemplo da direção mais experimental e agressiva para o que a música da banda tinha se movido nos meses antes das sessões no Pachyderm Studio. Resumindo: ótima faixa. 

“Pennyroyal Tea" é uma canção com início acústico breve, já que logo em seguida vem um riff bem pesado criando uma parede sonora impressionante, mais uma vez cortesia de Kurt. Adoro essa música. Os vocais estão divididos entre a melancolia e agressividade. O solo de guitarra é no melhor estilo Nirvana, pitada de distorção com melodia discreta. Termina de forma preguiçosa com a bateria desacelerando o ritmo da música.  

"Radio Friendly Unit Shifter" tem um início com efeitos de distorção da guitarra, até que a bateria de Dave lidera a agitação, a guitarra de Kurt também entra na festa. Kurt canta em um tom meio cínico. Os efeitos de distorção continuam aparecendo e a bateria de Dave é o grande destaque aqui, com algumas viradas sensacionais. Durante um tempo subestimei um pouco esta música, mas ela tem bons atrativos, bem típicos de um post-rock. O solo é insanidade pura: barulhos, distorção e certa dose de experimentalismo. 

Em "Tourette's" Kurt sai completamente da linha, com uma performance vocal juvenil e lunática, num rock de garagem barulhento e inconsequente. Riff sujo e bateria punk, apesar de tudo, tem um ritmo contagiante e repete o peso das canções do disco. É bem curta e dá o seu recado com muita objetividade. 

"All Apologies" é um falso momento relax, que até seria bem-vindo para dar uma descansada das muralhas sonoras até então presentes. Mas o fato é que não estamos diante de uma nova Polly, já que aqui as coisas não são tão leves o tempo todo e o riffs que separam os intervalos suaves são tão barulhentos quanto o das canções anteriores. Bela faixa!
 
Bem, no dia 8 de abril de 1994, Kurt Cobain foi encontrado morto em sua casa em Seattle, inclusive, foi determinado que ele havia morrido três dias antes. O fato é que esta tragédia não permitiu a continuidade da banda, uma vez que a grande força criativa era o próprio Kurt, como todos sabem. E assim, de maneira melancólica e triste, “In Utero” acabou se tornando a despedida, um adeus que, não obstante tenha deixado um ponto de interrogação sobre o que seria o som da banda dali em diante, legou à história do rock and roll um disco honesto e original.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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