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Resenha: Viagem (1970)

Álbum de Taiguara

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No universo de Taiguara

Autor: João Pedro Feza

09/10/2020

Taiguara foi autêntico e intenso em 100% de suas canções. Engajadas, apaixonadas, libertárias. Pouco conhecido das novas gerações, o mais censurado compositor do Brasil faria 75 anos neste 9 de outubro de 2020.

Para pegar carona em outra data, o sexto álbum do artista, “Viagem”, completa cinco décadas agora.

E que viagem! O disco de 1970 é aberto com a grandiosa “Universo no teu Corpo” – sob regência absoluta do maestro Lindolfo Gaya. Àquela altura, Taiguara já era figura conhecida dos antológicos festivais. 

“Universo...” deixou meio mundo bronqueado com o V Festival Internacional da Canção. É que o grande público não se conformou com a oitava colocação da composição – em disputa vencida por “BR-3”, sucesso de Tony Tornado.

Ao piano e com voz límpida, cercado por músicos do quilate de Wagner Tiso, Tavito, Robertinho Silva e Zé Rodrix, o disco segue seu rumo melódico com “Maria do Futuro” e “Prelúdio Nº 2 (Paz do Meu Amor)” – esta, de Luiz Vieira.

“A Transa” surpreende: um tema instrumental, em pleno lado A, que ganha voz apenas no fim – sem canto, com declamação. “A Transa” acabaria gravada, em 1971, pela estrela da música francesa Françoise Hardy com o nome de “Rêve” (“Sonhe”). 

A exemplo de “Universo...”, o arranjo encorpado por metais e coros, além de guitarra, voltaria a preencher todos os espaços na faixa-título – "Viagem", a canção, sempre aparece em coletâneas taiguarianas e seria também regravada por Benito Di Paula.

O lado B é iniciado com a empolgante e confessional “Geração 70” – que tem acompanhamento da banda Som Imaginário, dos já citados Tiso, Tavito, Silva e Rodrix. “Geração 70” teria, nos anos 80, uma versão com Beth Carvalho.

Na sequência, “O Velho e o Novo” (com pai de Taiguara, Ubirajara, ao acordeon) e “Em Algum Lugar do Mundo”, de Ivan Lins, novamente com a Som Imaginário. 

“Dia 5” (de José Jorge e Ruy Maurity) e “Gente Humilde” (de Garoto, Vinicius de Moraes e Chico Buarque) ganham aderência autoral, como se fossem crias do próprio Taiguara – àquela altura, um intérprete de voz cheia. Cheio, também, de preocupações com os rumos políticos e sociais do Brasil.

A faixa 11 é “Tema de Eva”, 100% instrumental, em desfecho romântico tipicamente setentista para um álbum marcante até hoje.

Por falar em hoje... Taiguara morreria em 1996, após luta contra o câncer, sem ver sua “Hoje”, de 1969, brilhar, em 2016, no premiado filme “Aquarius”, com Sônia Braga, concorrente à Palma de Ouro em Cannes.

Pensando bem, “Hoje” deveria estar no disco “Viagem”. Seria a inclusão perfeita para dar a soma de 12 canções que, habitualmente, preenchiam os “bolachões”.

Hoje, 9 de outubro, toda essa viagem musical é bem-vinda em reconhecimento ao atemporal talento de Taiguara.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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