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Resenha: Remoti Meridiani Hymni (2000)

Álbum de Mythological Cold Towers

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Antigo, épico, ousado e sensacional!

Por: Tarcisio Lucas

04/01/2018

Existe uma obra dentro da música erudita muito famosa e muito conhecida, que atende pelo nome de "Bolero", e que foi composta pelo compositor francês Maurice Ravel, em 1928. Essa música entrou para a história por uma série de motivos, entre eles o de demonstrar que complexidade e virtuosismo vão muito além da velocidade com que as notas são tocadas. Até aquele momento, virtuosos eram considerados aqueles que conseguiam tocar o maior numero de notas no menor espaço de tempo. Músicos como Liszt, Paganini, Chopin eram idolatrados por suas técnicas rebuscadas e velocidade (sem querer desmerecer a obra desses monstros da música).
Com o "Bolero", Ravel apresentou um outro tipo de virtuosismo. Ao longo de mais de 14  minutos, a mesma melodia, curta, lenta e simples,  é repetida indefinidamente, ao longo da qual vão se acrecentando camadas e mais camadas de orquestrações que fazem  com que aos poucos aquela melodia ganhe uma complexidade absurda.
"Ok, Tarcisio, mas o que diabos é que o Bolero de Ravel tem a ver com o Mythological Cold Towers, uma banda de Doom Metal?"
Pois bem, deixe me explicar.
Esse álbum, o segundo da fantástica discografia do grupo, apresenta, a meu ver , um tipo de complexidade que possui muitas similaridades e a mesma proposta que o "Bolero" apresentava. Quando se fala de virtuosismo no metal, logo nos vem à mente as escalas e arpegios de um Malmsteen, as quebradeiras rítmicas do Dream Theater, as notas absurdamente altas dos vocalistas de metal melódico e power metal.
Mas aqui nesse álbum, temos um outro tipo de virtuosismo e complexidade. Aqui temos uma banda que prima por construir as músicas apresentadas sem pressa e nas quais os elementos vão se agregando pouco a pouco, até construírem verdadeiros monumentos sólidos de boa música e metal.
Para os padrões da banda, que sempre investiu e se configura como o maior representante do Doom Metal nacional, as músicas até que são aceleradas (mas nada que fará você se lembrar do Dragonforce, confie em mim), mas são as estruturas das canções, em sintonia com as letras e o clima criado que fazem desse disco a obra prima que ele é.
No primeiro álbum, "Sphere of Nebaddon (The Dawn of a Dying Tyffereth)" vimos uma banda que investia pesado em um Doom sorumbático, soturno, tétrico e obscuro, ao mesmo tempo em que carregava uma veia épica e monumental dentro de sua proposta. Para o segundo disco, a banda abriu para si esses 2 leques de opções: ou mantinha-se atrelada ao doom mais tradicional, ou partia para o lado épico. Pois bem, a banda optou por essa segunda proposta, e criou uma obra diferenciada, única, e que é bastante singular dentro da discografia do conjunto.
Trata-se de um conjunto de músicas que prestam tributo à um passado remotíssimo (como o próprio nome sugere), focando antigas e misteriosas civilizações que supostamente ( e muito provavelmente) realmente existiram nas profundezas do tempo da região da floresta amazônica.
Para alinhar a temática lírica ao conteúdo sonoro apresentado, a banda optou por diversificar o seu som. Acrescentou diferentes tipos de abordagem vocal, para começar. Além do vocal gutural grave característico da banda, temos vocais rasgados (que lembram,  mas são diferentes dos do black metal convencional), vocais limpos, narrações, gritos de guerra...muita, muita variação, dependendo do trecho e da intenção da letra naquele momento.
Aliado à isso, os músicos colocaram muitas intervenções de teclado, criando verdadeiras orquestrações. Em alguns momentos, chegam a lembrar trilhas sonoras de filmes como "Conan O Bárbaro" e similares, criando um clima realmente épico e grandioso.
Na parte lírica, temos aquilo que a banda sempre apresentou: letras muito bem construídas, interessantíssimas, fruto de muito estudo e leitura. Aqui é possível perceber o interesse do grupo por esse passado glorioso, remoto e misterioso que o Tempo escondeu dentro da história humana, nesse caso mais especificamente, da história da América do sul. Quem quiser se aprofundar nesse assunto, leiam o livro "As Crônicas de Akakor", de Karl Brugger, que certamente foi uma das fontes de inspiração da banda na confecção desse álbum.

Ao fim desse lançamento, acredito que a banda viu-se novamente tendo a possibilidade escolher trilhar esse caminho épico que se abriu nesse segundo lançamento, ou manter-se mais focada no Doom que a banda claramente e explicitamente ama e domina.
Os lançamentos posteriores mostraram que a banda escolheu esse caminho do doom, e gerou obras monumentais, lindas e clássicas como "Monvmenta Antiqva" e " The Vanished Pantheon", obras fundamentais para quem gosta do gênero.
Enfim, a única coisa a ser dita é: escute!

Lógicamente tal complexidade tem seu preço: trata-se de um disco que precisa de várias audições para ser completamente entendido e digerido. Mas confesso que vale a pena cada uma delas.
Discaço!

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