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Resenha: Third (1970)

Álbum de The Soft Machine

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Uma obra-prima experimental, corajosa e de uma beleza reluzente

Por: Expedito Santana

03/10/2020

Costumo dizer que há bandas bem como determinados discos que dificilmente agradarão ao ouvinte na primeira audição. Pois bem, The Soft Machine está incluído entre os grupos e artistas que reafirmam essa regra. Não que o seu som seja assim tão rebuscado e complexo, porém, há muitos elementos em sua música que tendem a ser mais valorizados com audições mais frequentes e mais atentas, principalmente usando bons fones e sentindo todo clima exalado pelas canções, além de depender, também, de uma maturidade musical por parte do ouvinte, à qual nem sempre se chega tão rápido, sendo mais comum atingi-la com o passar dos anos. 

Falo isto porque se houvesse escutado esse álbum anos atrás, digo muito anos mesmo, talvez nem tivesse chegado à segunda faixa, e vai ficar claro doravante o motivo dessa hipotética repulsa. Lembro bem que muita coisa que não entrava em meus ouvidos à época em que “batia cabeça” (headbanger), hoje são consideradas verdadeiras pérolas musicais, manjares sinfônicos que simplesmente não me permito viver sem degustar constantemente, a exemplo de Van der Graaf Generator, King Crimson etc.  

Mas chega de falar sobre gosto e maturidade musicais, uma vez que a proposta consiste, efetivamente, na análise dessa peça genial produzida pelo Soft Machine, denominada Third (1970). Gravado em quatro dias, este registro mostra uma das mais importantes bandas da cena de Canterbury em seu auge criativo. Este álbum, como seu título já denuncia, é o terceiro do The Soft Machine, medalhão britânico cuja existência teve enorme importância para o desenvolvimento do rock progressivo, como muitos devem saber. 

Um dado curioso, na parte interna, a capa do LP traz uma foto feita por Jurgen D. Ensthaler dos integrantes do grupo num quarto de hotel, onde é possível ver ao centro uma pequena mesa com algumas garrafas e a cara de tédio de todos eles, possivelmente por conta da falta de álcool, sem falar no clima aparentemente hostil no ar, e que, segundo as más línguas, parecia ser a tônica das relações interpessoais na banda. 

Era um momento histórico em que o rock progressivo estava prestes a se tornar algo muito sério e grandioso, mas a banda enfrentava alguns problemas internos, já que não estava mais satisfeita com a forma de cantar de Robert Wyatt, e ele, por seu lado, não aguentava mais o desejo intransigente dos demais em entrar de cabeça num projeto musical mais sóbrio e jazzístico. 

Felizmente, Third contou com a participação de Wyatt na bateria e de um time bem competente, tendo como instrumentistas principais: Mike Ratledge no órgão e piano, Elton Dean no saxofone e Hugh Hopper no baixo, além de outros músicos convidados. 

Faço então abaixo a análise individual das quatro faixas que compõem o álbum, que em média possuem 18 minutos de duração cada, majoritariamente instrumentais, totalizando cerca de 75 minutos. 

“Facelift", escrita por Hugh Hopper, abre os trabalhos, vale dizer que essa canção foi editada de duas apresentações ao vivo, uma feita no Fairfield Hall, Croydon, Londres, em 4 de janeiro de 1970, e a outra de um concerto no Mother´s Club, Birmingham, em 11 de janeiro de 1970. Devo dizer que a sua escuta requer uma certa paciência (lembra o que eu falei logo no início da resenha?). Esta faixa foi executada pela formação de oito integrantes, que não durou muito, e é, provavelmente, a mais desafiadora e intrigante do disco, porém, com o tempo ela começa a soar mais familiar e até sedutora. 

Tem um começo estranho baseado num frenético sintetizador de órgão pontuado por outros instrumentos de som esquisitos, bem parecido a alguns sons que o King Crimson faria posteriormente. O fato é que se instala uma notável paisagem sonora aural esparsa que apresenta uma variedade de instrumentos de sopro que fazem contribuições não melódicas, ruidosas e fugazes. Após cerca de cinco minutos, alguns dos instrumentos de sopro e metais são introduzidos com mais veemência, notadamente o saxofone, e a música começa efetivamente com a linha de baixo de Hopper oferecendo o tom de um jazz-rock da melhor estirpe. O destaque aqui, em minha opinião, é o órgão de Ratledge, que insere camadas sonoras que preenchem plenamente a peça. Pouco depois dos onze minutos, a música conta ainda com uma bela flauta de Dobson, que também é responsável pelo sax soprano em algumas passagens. O trabalho de bateria de Wyatt é muito bom durante a faixa, conferindo um caráter bem sombrio em determinados momentos. Em que pese toda heterodoxia e experimentalismo presentes, pode ser considerado um bom começo.   

Logo em seguida vem “Slightly All The Time”, que começa em compasso mais rápido que sua antecessora e é uma música instrumental mais animada e contagiante, uma espécie de fusão de jazz mais estruturada com uma sensação de big band. O baixo de Hopper dá os primeiros acordes, com a bateria de Wyatt marcando bem calmamente, ao longo da faixa vão aparecendo agradáveis instrumentos de sopro, principalmente o saxofone. Perto de chegar aos seis minutos fica mais agitada e segue para cerca de quatro seções diferentes sem, no entanto, alterar o clima, no final da peça a banda está praticamente em ritmo acelerado, passagem jazzística sensacional com tudo funcionando muito bem. Grande faixa, considero-a melhor que "Facelift" por ter conteúdo mais rico e proporcionar uma atmosfera de maior diversidade musical e beleza instrumental, graças, especialmente, aos metais. 

A terceira faixa, “Moon In June”, foi a última música composta por Robert Wyatt para o Soft Machine e, é, talvez, sua obra prima, apesar do restante do grupo não gostar tanto da canção. Vale dizer que, embora Wyatt apareça nos créditos também como baixista e organista, além de bateria e vocais em “Moon In June”, esses instrumentos são tocados geralmente por Hopper e Ratledge. Essa peça mistura velhos temas do Soft com novas passagens induzidas por uma bem humorada autocrítica de Wyatt. Uma gravação dessa suíte feita para o programa de rádio BBC Peel Sessions, que inclusive se tornou um álbum ao vivo da banda lançado em 1990, é ainda mais irreverente e chega a ironizar Ratledge. Como dito anteriormente, coube a Wyatt os vocais nessa faixa, que é a única a quebrar a estrutura instrumental do álbum. 

Wyatt começa com tons agudos bem agradáveis, por sinal. Gosto desta canção, mistura melódica de vanguarda jazzística com blues nos primeiros seis minutos, antes de um adorável interlúdio de piano / piano elétrico levar a música para a próxima sessão. Por volta dos dez minutos, entra numa espécie de overdrive, um presente dado pelo órgão fuzz distorcido de Ratledge seguido de um sax vibrante de Dean, até ir lentamente desaparecendo com um violino elétrico de Rab Spall. Possui um final bem experimental e meio psicodélico. Importante mencionar que o baixo é mais vez bem marcante nessa faixa e que Wyatt é creditado aqui neste instrumento. 

“Out-Bloody-Rageous” fecha os trabalhos, e, ao menos na minha humilde opinião, estamos diante da melhor música deste álbum. Ela emerge de uma introdução de órgão sinuoso, bastante esquisita e com efeitos reversos, para se tornar uma animada peça de fusion a partir dos cinco minutos com o baixo pulsante de Hopper, Ratledge, que compôs a música, e o sax de Dean mais uma vez à frente. O clarinete de Hastings e o trombone de Evans surgem alguns minutos depois para dar mais brilho à festa. Por volta dos dez minutos e meio, o ambiente se torna muito mais delicado e belo, mais uma vez por conta dos metais, e agora com a colaboração luxuosa da bateria de Wyatt, que cumpre com perfeição o papel de ligação do conjunto instrumental. Sessão belíssima, com tudo no seu devido lugar. Quase ao final da canção o baixo de Hopper, o sax e a bateria de Wyatt duelam rapidamente até que Ratledge se apresenta para dar tons espaciais e criar um clima de leve tensão, assumindo o protagonismo. E assim termina esse grande épico. Alucinante, perfeito, magnífico.   

Por fim, considero "Third" um dos melhores álbuns de Canterbury, uma obra-prima experimental, corajosa e de beleza reluzente. Paisagem sonora de jazz-rock elevada ao seu nível máximo de excelência por músicos altamente competentes e inspirados. Fã de progressivo ou não, recomendo para qualquer um que aprecie música de qualidade e se permita o mais puro êxtase.

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