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Resenha: Before And After Science (1977)

Álbum de Brian Eno

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A obra-prima de Brian Eno

Por: Marcel Z. Dio

27/09/2020

Confesso que nunca fui um grande admirador da discografia de Brian Eno, apesar de respeitar a proposta e sua competência como produtor.
Com Before and After Science meus sentimentos mudaram. É até complexo definir o que Brian acabará de criar naquele momento antes de entrar de corpo e alma na ambient music. Ao tempo em que suas faixas continham uma beleza ímpar com uma certa tristeza e introspecção em peças que viajavam pelo pop eletro e traziam elementos do experimental krautrock.

"No One Receiving" abria o jogo contemplando a esquisitice. Diria que a frente do tempo, pelas levadas impressionantes na bateria de Phil Collins e um contrabaixo que desfilava no centro, como pilar de sustentação. O nome do baixista ?, Ah, sim, Percy Jones (o lendário).

"Backwater" pertencia a uma classe rara de músicas. Pegada do rock com orquestrações e todas as loucuras experimentais de uma forma espantosamente descomplicada, vertendo para um pop de segundo quadro.
Como um trecho da letra revela : - "Estamos navegando no limite do tempo". E aquele era o limite mesmo, o limite criativo de um gênio em ebulição. Observando que Jaki Liebezeit do grupo alemão Can, foi o baterista em "Backwater".

"Kurt's Rejoinder" vem com uma linha de graves completamente sofisticada e fora dos padrões, apoiada por batidas africanas e partes fragmentadas de sintetizador. Agora em "Energy Fools the Magician", o papel das teclas igualam-se aos graves do citado Percy Jones (Brand X), num arranjo curto em que a bateria faz marcações suaves nos pratos.

"King's Lead Hat" tem em paralelo o que o Talking Heads fez em seu debut e continuaria explorando futuramente. Até por isso é uma das mais agitadas do disco.
Vale conferir o solo de Robert Fripp em seu final. Solo que para o mais distraído, pode ser confundido com um teclado.

Despojando-se da excentricidade "Here He Comes" comporta-se como canção mais acessível de acordes que beiram algo dos Beatles. Claro que a fôrma real não remete exatamente ao som dos "Fab Four", é só uma maneira de situar o ouvinte. Mais plausível achar um "Q" de Alan Parsons em suas passagens.

"Julie With ..." é só uma amostra de como um compositor acha o cálice de ouro apenas com boas ideias e um par de sintetizadores. Sem virtuosismo em sua essência, apenas sentimento, criatividade e visão alem. Uma das pedras preciosas em Before and After Science.

A "By This River" sequer encontro palavras que façam jus a sua delicadeza e beleza. Desse modo, deixo a curta letra para ser apreciada enquanto o cérebro libera serotonina mesmo em seu aspecto "depressivo". Parece incongruente não? Então faça o teste.

"Aqui estamos presos por este rio
Você e eu, abaixo do céu
Que sempre cai, cai, cai
Sempre cai
Ao longo do dia como em um oceano
Esperando aqui, sempre deixando de lembrar
Porque nos voltamos, voltamos, voltamos
Eu me pergunto por que nos voltamos
Você fala comigo como se estivesse longe
E eu te respondo com a impressões escolhidas
De outro tempo, tempo, tempo
De outro tempo".

"Through Hollow Lands" vem como peça instrumental e breve, o prenuncio de um portal mágico na qual se esconde uma das canções mais belas de todos os tempos, "Spider and I". E não há como não curvar-se a esse tipo de melodia e não encarar Brian Eno como gênio da arte moderna.
Simples e emocional, os vocais e pontuações dispersas do baixo ajudam a dar equilíbrio a dupla que rouba a cena, o sintetizador e o piano. A necessidade de ouvir "Spider and I" é como beber água no calor, precisa de varias doses para saciar.

Não tenho mais nada a comentar sobre esse álbum, descubra-o por si, ouvindo-o sem ninguém para perturbar, a obra pede que seja assim.

"A aranha e eu sentamos olhando o céu
Em um mundo sem som
Nós tricotamos uma teia para pegar uma pequena mosca
Para nosso mundo sem som
Nós dormimos de manhã
Sonhamos com um navio que navega
A mil milhas de distância".

https://youtu.be/iWhpXRVO8ik

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