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Resenha: Hybrid Theory (2000)

Álbum de Linkin Park

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Mostrando as novas faces do metal com uma estreia “pé na porta”

Por: Expedito Santana

25/09/2020

Hybrid Theory é o álbum de estreia da banda, foi lançado em 24 de outubro de 2000, e completará, portanto, 20 anos em outubro deste ano. Para comemorar a data, a banda pretende relançar o álbum em edição comemorativa. Hybrid Theory, até o momento, foi o disco mais vendido do Linkin Park, com mais de 30 milhões de cópias comercializadas pelo mundo, havendo faturado o prêmio de disco de diamante nos Estados Unidos. É considerado também o álbum de estreia mais vendido desde Appetite for Destruction (1987) do Guns N' Roses; o álbum de rock mais vendido do século XXI e um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos. Também está na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame. Tendo sido ainda o álbum mais vendido de 2001 com quatro singles que foram direto para as paradas, incluindo "In the End". Em 2002, a banda recebeu um Grammy Award na categoria de Melhor Performance Hard Rock por "Crawling", além de indicações para Melhor Álbum de Rock e Melhor Revelação, entre outras honrarias e prêmios. (Wikipedia). 
A formação da banda no álbum foi a seguinte: Chester Bennington (falecido em 20/07/2017) – vocal; Mike Shinoda - vocal, guitarra, teclado e piano; Joe Hahn - samplers, programação e vocal de apoio; Brad Delson - guitarra, baixo e vocal de apoio; Rob Bourdon – bateria e vocal de apoio. O detalhe curioso a esse respeito é que a banda gravou Hybrid Theory sem seu baixista original, Dave Farrell, que apesar de haver sido creditado no álbum, teve outros compromissos à época. As partes do baixo foram, portanto, na maioria das músicas, gravadas pelo guitarrista Brad Delson, mas a banda também contratou dois baixistas para as sessões. Ian Hornbeck tocou baixo em "Papercut", “A Place for My Head” e “Forgotten”, enquanto Scott Koziol assumiu o baixo na faixa que se tornaria o primeiro single americano da banda, "One Step Closer". Mark Wakefield, ex-vocalista da banda que saiu em 1999, também foi creditado nas músicas “Runaway”, “A Place for My Head” e “Forgotten”. Por fim, houve ainda a participação de The Dust Brothers nos sequenciadores, e mais especificamente nos samples da faixa “With You”. 

A arte de capa exibe um soldado com asas de libélula e foi desenhada por Mike Shinoda, que havia trabalhado como designer gráfico antes de se tornar músico, contou com a participação de Frank Maddocks como designer, James Michin III na fotografia e coube a Joe Hahn, também integrante da banda, os esboços de linha de arte. De acordo com o vocalista Chester Bennington, a ideia da arte era “descrever a mistura de elementos musicais pesados e suaves com o uso dos olhares cansados do soldado e os fracos toques das asas”. Tal ideia, por sinal, mostra-se bastante coerente com a proposta musical de Hybrid Theory, a qual incluiu, em profusão, acordes agressivos e carregados com passagens mais delicadas e melódicas. 

Apesar das dificuldades iniciais para encontrar um produtor disposto a assumir o comando de um álbum de estreia de uma banda recém-assinada com a gravadora Warner Bros, Don Gilmore (Dashbord Confessional, Evanescence entre outras), que também trabalharia no segundo álbum da banda, Meteora (2003), concordou em comandar o projeto, com Andy Wallace assumindo a engenharia de som. As sessões de gravação foram realizadas na Califórnia, no estúdio NRG Recordings em North Hollywood, durante o período de março a junho de 2000.

O álbum contém doze canções com uma duração total de cerca de 37 minutos de pura pancadaria, misturando de forma magnífica metal, rock alternativo e hip-hop, incluindo passagens eletrônicas, fórmula musical esta que fora alcunhada de nu metal, rap metal ou new metal. O fato é que, independente do rótulo, o som dos caras conseguiu ser inovador e lapidado, sem perder a agressividade própria do metal. Bennington e Shinoda escreveram todas as letras das canções de Hybrid Theory baseados em outras demos feitas com o ex-integrante Mark Wakefield. 

"Papercut", que foi o terceiro single do álbum, abre os trabalhos com muita agressividade, samples seguidos de riffs de guitarra poderosos, com vocais rapeados de Shinoda acompanhados por Bennington, as guitarras são o destaque aqui juntamente com os vocais. Na segunda parte há uma performance vocal um pouco mais melódica de Benington, com o canto rap de Shinoda por cima, o final da música é bastante interessante. As letras são bem pessoais e parecem exprimir os conflitos internos de Chester, são levemente pessimistas e descrevem um estado psíquico marcado pela confusão mental. Nos versos: “Eu sei que eu tenho um rosto em mim/Aponta todos os meus erros para mim/Você tem um rosto por dentro também/E a sua paranoia provavelmente é pior/Eu não sei o que me atormentou primeiro/Mas eu sei que eu não suporto/Todos agem como se o fato do assunto é que/Eu não posso acrescentar o que você pode)” fica evidente o contexto perturbador de alguém que não consegue suportar todos os seus demônios internos. 

Lamentavelmente, todo esse estado psicológico viria a culminar posteriormente no ato extremo de dar fim à própria vida. Uma decisão que o filósofo franco-argelino Albert Camus descreveu no ensaio “O Mito de Sísifo” como a pergunta fundamental da filosofia: “julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida”. Infelizmente, para os milhares de fãs, amigos e familiares, Chester decidiu que não valia. 

Resumindo, “Papercut” é um belo cartão de visitas, abrindo com primor o álbum e preparando o espírito do ouvinte para os demais petardos. O videoclipe dessa faixa mostra a banda em um corredor oposto a uma sala completamente escura nas paredes das quais são rabiscadas as letras da música. Vários temas sobrenaturais estão presentes no vídeo, e efeitos especiais são usados para criar interpretações estranhas, como o "alongamento" dos dedos de Shinoda e a "fusão" do rosto do baterista Rob Bourdon.

“One Step Closer” é a segunda faixa e também foi single do álbum, começa amparada em riffs de guitarra bem pesados, em seguida os vocais de Benington ditam o ritmo, até entrar o refrão e começar uma leve disputa vocal com Shinoda, aliás o refrão é muito bom e Benington canta com leves variações de tom até explodir em gritos insanos, acompanhado por samples e Shinoda entoando ao fundo, guitarra e bateria por baixo. As letras abordam a ideia de um relacionamento em desgaste, com um dos pares chegando a seu ápice de estresse emocional (Everything you say to me/(Takes me one step closer to the edge, and I'm about to break)/I need a little room to breathe/('Cause I'm one step closer to the edge, I'm about to break) – (Tudo que você me diz / Me deixa um passo mais perto do limite, e estou a ponto de explodir / Eu preciso de espaço pra respirar / Porque estou um passo mais perto do limite, estou a ponto de explodir. 

“With You” é uma das minhas preferidas, samples bem legais dão início seguidos por riffs pesados e contagiantes, até que a entrada vocal acalma o ambiente e os teclados lançam um clima atmosférico, mas essa suavidade não perdura por muito tempo, já que as guitarras metem o pé na porta novamente e despejam riffs irados, verdadeira parede sonora, delineando um clima hostil mesclado com interlúdio leve e vocais rapeados, impressionante a harmonia vocal de Shinoda e Chester. Alguns segundos após os dois minutos, entra um sample arrasador do The Dust Brother, seguido pela repetição de refrão e backing vocals de Chester. 

"Points of Authority" é a quarta faixa do álbum, foi lançada como um single promocional e tem o seu próprio videoclipe, que pode ser encontrado no Frat Party at the Pankake Festival, o primeiro DVD da banda. Sintetizadores e samples abrem a canção, seguida pelos vocais de Shinoda e riffs de guitarra mais lentos. É uma canção que nunca me empolgou tanto, o melhor dela é a performance vocal de Shinoda e o trabalho de sampler de Joe Hahn.     

“Crawling” foi o segundo single, devo dizer que a considero soberba, com seu início bem espacial e teclados discretos, explode por meio de um vocal de Bennington e depois fica suave novamente, teclados e sintetizadores espetaculares, sem falar nas breves entradas de riffs pesados e melódicos ao mesmo tempo. O vocal de Chester está magnífico, e quando Shinoda faz inserções vocais a música ganha um contorno bem interessante. Nos andamentos mais melódicos Chester destila uma emoção e dor notáveis, interpretação repleta de agressividade contida e densa melancolia. Simplesmente perfeita! O final é bem cativante com Shinoda cantando por baixo da voz de Chester. Liricamente, a canção aborda as experiências pessoais de Bennington com o abuso infantil: a violência física, a dificuldade em quebrar o ciclo de agressões e a subsequente perda de autoestima. (Rastejando dentro da minha pele / Essas feridas não irão se curar / O medo é o que me derruba / Confundindo o que é real). Não é preciso muito esforço para captar toda a angústia e sofrimento por trás destes versos. Possui um clima mais ameno de guitarras e agressividade, funciona como um relax para as pauladas subsequentes. Lembro de escutá-la várias vezes em repetição, quase furei o CD. Grande destaque.  

“Runaway” tem um baixo e bateria marcantes, os riffs de guitarra inicial são menos intensos, mas estão presentes. Em determinado momento os riffs ficam ultra pesados e o vocal de Chester passa a acelerar, passagem simplesmente espetacular, até o final da música que termina em alta rotação. Apreciava muito essa música, mas com o tempo parece que ela me cansou um pouco, principalmente pelo refrão. Está longe de ser ruim, porém, não é mais uma canção que me cativa.  

“By Myself” abre com os habituais riffs pesados, vocais hip-hop de Shinoda e teclados climáticos, considero esta faixa uma das marcas musicais da banda. Chester entra e dá mais peso ainda à música, enquanto Shinoda se encarrega das sessões mais climáticas com seu vocal rapeado. Os gritos de Chester nesta canção são peculiares e inconfundíveis. Ótima faixa, principalmente pela alternância de peso e clima mais espacial acompanhado por vocais falados.  

"In the End" dispensa maiores apresentações, quarto single do álbum, começa com um riff de piano executado por Shinoda que não sai da mente depois da primeira audição. Seu rap também domina os versos da música e é mais tarde acompanhado pelos vocais de Bennington no refrão. Chester está insuperável, mais uma vez, nas camadas melódicos, interpretação técnica e emocional. Termina com o piano de maneira bem tranquila. Sem dúvida, uma das peças mais lindas do metal alternativo, consegue a proeza de ser pesada, melódica, técnica e dramática, além de contar com arranjos de teclado belíssimos. O conceito lírico baseia-se principalmente no fracasso de uma pessoa. É considerado simbólico de um relacionamento final, no entanto, também pode representar a confiança quebrada de uma amizade uma vez duradoura. 

Curiosamente, Bennington disse que não queria autorizar “In the End” para o disco, alegou à época que “nunca foi muito fã da canção”, havendo reconhecido depois o grande equívoco cometido. Vale lembrar que o videoclipe de “In the End” ganhou o prêmio de "Melhor vídeo de Rock" na MTV Video Music Awards de 2002 e que esse mesmo videoclipe já chegou a um bilhão de visualizações no YouTube (). Trata-se, portanto, do segundo vídeo da banda a atingir tal marca, atrás apenas de "Numb", do álbum Meteora, sendo também um dos poucos clipes de rock a conquistar tal feito.

“A Place for My Head” introduz com um riff discretamente swingado e baterias ultra pesadas, samples geniais, até que Shinoda surge com um vocal rapeado muito bom. Chester se ocupa das partes principais e do refrão. Durante um tempo fiquei viciado nessa música, sempre esteve nas minhas playlists para atividade física, pois me dá uma energia tremenda. Em sua segunda parte, explode com vocais brutais de Chester e riffs que voltam a ficar carregados, Shinoda começa a cantar por cima com Chester gritando ao fundo, insanidade pura. Considero esta faixa uma grande paulada sonora na qual se misturam todos os elementos que o Linkin Park consegue usar com maestria. 

“Forgotten” começa com o pé na porta, riffs pesados e técnicos, sem dar descanso, Chester e Shinoda nos vocais disputando espaço, depois a música fica um pouco mais melódica na parte do refrão com a entrada de Shinoda e sua voz cadenciada. Refrão sensacional, tem uns samples antes de explodir com um vocal de Chester, com Shinoda entoando muito rápido fraseados estilo rap. Verdadeiro arrasa quarteirão! 

Cure for the Itch começa com vozes e um trabalho de sampler sensacional, momento hip-hop do disco, as inserções vocais são bem curtas e os sintetizadores prevalecem, quase uma faixa instrumental, o teclado cria um clima de suspense. Cumpre uma função de interlúdio mais calmo para a seguinte. 

Pushing My Way fecha o álbum de maneira magistral, teclados fazem a entrada até que os riffs mostram o peso, depois a faixa fica bem climática e os vocais de Shinoda e Chester se revezam, essa alternância com vocais melódicos é simplesmente genial, Chester está mais contido e menos emocional. Ótimo adeus!!  

Enfim, uma grande estreia, um verdadeiro pé na porta, que iria mostrar com muita competência as novas faces do metal. No trabalho seguinte, Meteora, a banda iria manter certa coerência com este álbum, porém, não há dúvidas de que Hybrid Theory é a grande obra do grupo, um trabalho sólido, inovador e até mesmo genial em alguns momentos, protagonizado por uma banda que apenas iniciava sua carreira. Uma das maiores estreias do rock alternativo!

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