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Resenha: The Seeds Of Love (1989)

Álbum de Tears for Fears

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Novas sonoridades

Autor: Débora Arruda Jacó

25/09/2020

The Seeds of Love (1989) é o terceiro álbum do Tears for Fears e é tido por muitos fãs, como o trabalho mais sofisticado do grupo. O álbum configura a influencia de vários estilos musicais que passam pelo jazz, blues, gospel, rock (naturalmente) e Beatles. Aliás, a dupla nunca negou a admiração pelo “Fab Four” e “The Seeds of Love” apenas deixou isso claro. Roland Orzabal se empenhou muito na concepção desse álbum desde a arte gráfica da capa, até às novas influencias de ritmos. Contou com o auxilio de músicos renomados (Pino Palladino, Manu Katché, Neil Taylor, Robbie McIntosh) e também com astros como Phil Collins. Apresentou ao Mundo a cantora Oleta Adams – que contribuiu muito para o álbum. “The Seeds of Love”, mesmo com essas inovações, marcou pelo inevitável afastamento do baixista Curt Smith e uma participação “menor” de Ian Stanley. Estava evidente que o Tears for Fears não era mais o mesmo.

Iniciando as análises: “Woman In Chains”, a primeira faixa abre o trabalho. A famosa canção fala de relação abusiva e o que as mulheres não deveriam aceitar em um relacionamento amoroso. Os belos arranjos e a contribuição do baterista Phil Collins, fazem dessa faixa uma das mais inesquecíveis. Roland Orzabal e Oleta Adams combinam suas belas vozes nessa letra confessional. A segunda faixa é “Badman’s Song” uma interessante fusão de jazz e pop (gosto da introdução!) onde mais uma vez, Oleta Adams contribui com seu talento: inclusive tocando piano. É interessante notar como as vozes de Oleta e Roland se complementam e se harmonizam.
“Sowing the Seeds of Love” é a terceira faixa e também o hit principal do álbum. A canção é introduzida por uma sonoridade que lembra o ruído de um avião, seguida pela interpretação meio “hip hop” de Roland, atestando novamente a influência de outros estilos musicais. A letra aborda amor fraternal, política e solidariedade. Um dos versos que mais gosto: “... Somos tolos diante das normas de um plano de governo/Dispensem o estilo, tragam de volta o The Jam...”. Eles citam o grupo The Jam! Ótima referência! Gostaria de mencionar aqui, a importância do vídeo dessa música que foi inovador, ganhando inclusive um dos prêmios da MTV naquele ano (1990). Porém, ainda não consigo compreender (mesmo o TFF ganhando depois uma dessas premiações), terem perdido na categoria “Melhor Vídeo de Grupo” para o The B-52s com “Love Shack”... Eu gosto do B-52s, mas “Sowing The Seeds of Love” é melhor que “Love Shack”. É minha simples opinião.
A quarta faixa é “Advice For The Young At Heart”, a mais “romântica” do álbum. Na verdade, uma canção que fala aos jovens que um dia eles serão velhos e que o amor é uma lembrança. A faixa apresenta belo arranjo, ótimo trabalho de percussão e piano - lembra um pouco a bossa-nova. A música não fez muito sucesso nos EUA, porém é uma das mais lembradas (e executadas) aqui no Brasil – talvez em parte, por ter sido incluída na trilha sonora da novela “Gente Fina” (1990) da Rede Globo. Lembro que o vídeo era muito executado na MTV Brasil e confesso que naquele tempo, meu principal interesse era ver o Curt Smith (coisa de adolescente!). Pela minha visão atual, dá para perceber que Curt e Roland já não aparentavam a mesma harmonia dos primeiros tempos. Como nossa visão muda com o passar do tempo, não?!
“Standing On The Corner of The Third World” é mais uma faixa com sonoridade que remete ao jazz e  blues. Roland apresenta um bom trabalho vocal, transitando bem, conforme as mudanças no decorrer da canção. O vocalista inicia com uma voz “bem suave”, até assumir sua característica voz “alta e grave”. Tem um toque de música gospel, graças à participação das backing vocals. Oleta toca piano nessa faixa. Aliás, acredito que nesse álbum o cantor apresentou um de seus melhores desempenhos: com sua bela voz aguda, passando por entonações “mais graves” e complementando com belos falsetes. Gosto muito da voz dele.
“Swords And Knives” é a sexta faixa. Apresenta uma sonoridade agradável e além de Roland nos vocais, temos uma das cantoras dos backing vocals, Tessa Niles que marcou forte presença nessa faixa. Um toque de jazz novamente. Porém, a próxima faixa me empolga mais, mesmo com seus aproximados sete minutos de duração. “Year of The Knife” apresenta uma sonoridade legal: um pop – rock, com toques sutis de música gospel (novamente pela presença das backing vocals), um bom solo de guitarra por Robbie McIntosh (ex- Pretender). Roland canta em falsete por um determinado momento, o que antes me fazia pensar em se tratar de Oleta Adams. Essa música não chega a ser uma das mais populares do álbum, mas é uma das minhas preferidas.
“Famous Last Words” é a faixa que encerra o CD/álbum original (para escrever essa resenha, estou me baseando na versão original de 1989). É uma canção que é introduzida por um toque de piano (Nicky Holland), chegando a uma sonoridade suave e intimista, mas que aos poucos vai cedendo a um som mais “heavy” – porém, um “heavy metal” romântico. Cheguei a escutar essa música em alguma rádio brasileira (talvez tenha sido a 89FM antes da primeira “mudança”, mas não tenho certeza). Destaque novamente para a interpretação de Roland.  

Embora “The Seeds of Love” tenha sido uma realização importante, marcou por alguns aspectos: a saída conturbada de Curt Smith, que mesmo tendo feito uma grande participação na linha de baixo de “Woman In Chains”, nos vocais principais de “Advice For The Young At Heart”, além de outras duas faixas como baixista (Badman's Song e Standing On The Corner of The Third World) não teve uma “presença forte”, se comparando aos dois primeiros trabalhos. Curt é um bom baixista e tem potencial – não era apenas um “belo rosto”. E também, a participação em menor escala de Ian Stanley, um cara importantíssimo no início do Tears For Fears, assim como foi (e ainda é) o baterista Manny Elias que não esteve presente nesse trabalho. Os pontos positivos: Oleta Adams que contribuiu com sonoridades até então não utilizadas pela dupla, e lógico, a participação excepcional de Phil Collins na etérea “Woman In Chains”. 
“The Seeds of Love” dá a impressão de ser um trabalho mais de Roland Orzabal do que da dupla Tears for Fears. Um trabalho interessante e com bons momentos, porém sinto “a falta de entrosamento” entre Curt e Roland, se comparado aos dois primeiros álbuns.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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